A reação de Paulo Miklos, Nando Reis e Sérgio Britto à versão de Anitta de ‘Bichos Escrotos’, dos Titãs
Cantores comentam a releitura funk, produzida pelo Tropkillaz, para o filme “Corrida dos Bichos”
Kadu Soares (@kadusoares__)
Quarenta anos depois de “Bichos Escrotos” ter sido proibida pela censura federal e se tornar símbolo de um dos discos mais importantes do rock brasileiro, a canção voltou a circular com força nas redes, agora em uma versão funk, produzida pelo Tropkillaz e interpretada por Anitta. O lançamento integra a trilha sonora de Corrida dos Bichos, novo filme do Prime Video dirigido por Fernando Meirelles. A repercussão foi tão grande que parte do público mais jovem chegou a acreditar que a composição era da própria Anitta.
“Bichos Escrotos” está em Cabeça Dinossauro (1986), terceiro álbum dos Titãs e um dos marcos da discografia da banda, produzido por Liminha, Vitor Farias e Pena Schmidt. Na época, a faixa chegou a ser vetada para execução pública. A autoria é de Sérgio Britto, Arnaldo Antunes e Nando Reis. A aproximação com a eletrônica, porém, não é novidade: em 2021, os próprios Titãs lançaram um remix da música com o produtor Mochakk. A releitura de Anitta acrescenta mais um capítulo a essa trajetória de deslocamentos.
A reação dos ex-integrantes foi positiva. Paulo Miklos, voz da gravação original, elogiou a versão em vídeo publicado em suas redes sociais: “Sempre foi uma música muito divertida, ao mesmo tempo que um questionamento ao paladar refinado do homem civilizado. Anitta cantou com essa ironia fina e deu o recado”. Miklos também celebrou os memes que tomaram conta das redes após o lançamento: “Os memes são a melhor parte de tudo isso! Os comentários e toda a repercussão se dão também com muito humor. Tudo a ver com essa música”.
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Sérgio Britto, um dos compositores da faixa e integrante da formação atual dos Titãs, foi na mesma direção: “Apesar de ser radicalmente diferente da nossa, tem ali uma leitura pertinente daquilo que a gente quis dizer. É uma linguagem muito direta, mas é surpreendente e anárquica”. Para Britto, o mais importante é a música chegar a pessoas que nunca haviam tido contato com o trabalho dos Titãs: “É bacana que a música ganhe o mundo, tenha versões diferentes. Pessoas que não conheciam o nosso trabalho possam conhecer”.
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Miklos concordou e traçou um paralelo com seu trabalho recente em Coisas da Vida, álbum em que regravou clássicos como “Não Existe Amor em SP” e “Evidências”: “A música toma outra dimensão, vai ser redescoberta e gerar novas discussões. Percebo como é potente esse deslocamento das canções”.
Já Nando Reis recorreu aos stories de sua página no Instagram para comentar o principal assunto da música brasileira na semana. O cantor, baixista e compositor relembrou como ele, Arnaldo Antunes e Sérgio Britto criaram a canção. Em meados dos anos 1980, antes do primeiro disco de estúdio, os outros integrantes estavam em estúdio fazendo uma demo. Do lado de fora, estavam os três conversando, quando viram uma barata sair do ralo.
Com esse acontecimento inusitado, ficaram inspirados a fazer a música sem instrumento, só cantando. No fim, a canção ficou fora dos dois primeiros álbuns de estúdio dos Titãs porque ela seria censurada. Então, foi parar na tracklist de Cabeça Dinossauro, o terceiro da discografia do grupo. E 40 anos depois, a obra ganhou o cover da Anitta, que vem sendo criticado duramente por público e crítica, mas Reis discorda:
A versão da Anitta é maravilhosa, completamente diferente. E isso que é a graça — é uma outra versão, outro aspecto da música, outra batida e pegada. O clipe é maravilhoso, genial.
Atualmente, os Titãs estão em turnê comemorativa dos 40 anos de Cabeça Dinossauro — iniciada em março — e se apresentam no C6 no Rock em 22 de agosto, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, tocando o álbum na íntegra, com a versão original de “Bichos Escrotos”.
Anitta, por sua vez, além de assinar a regravação, também integra o elenco de Corrida dos Bichos como narradora, um thriller de ação que imagina um Rio de Janeiro futuro em que o jogo do bicho virou uma competição mortal, transmitida como entretenimento para a elite.
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