RESENHA

AC/DC oferece rock and roll puro e sem truques durante show em São Paulo

Banda australiana mantém o pé no acelerador mesmo diante de limitações físicas e presenteia fãs com performance eletrizante na primeira de suas três apresentações no estádio Morumbis

Igor Miranda (@igormirandasite)

AC/DC em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

Em 24 de fevereiro de 2016, exatamente dez anos antes de receber o AC/DC para o primeiro de seus três shows históricos, o estádio do Morumbi (hoje “Morumbis”) contou com outra lenda do rock que resiste à aposentadoria: os Rolling Stones. Tecer qualquer comparação é ingrata, visto que os Stones contam com vários músicos de apoio e algumas canções mais lentas, mas em comum, além da recusa em sair de cena, há a disposição para entregar uma grande performance mesmo diante das limitações.

Se temos uma diferença vital entre os dois grupos citados, é: enquanto a existência dos Stones pareceu natural conforme o desenrolar das últimas duas décadas, ninguém se surpreenderia com o fim do AC/DC após a turnê Black Ice, que, em 2009, marcou a última visita ao Brasil até então. Em síntese, a seguir, as principais dificuldades enfrentadas pelo grupo formado na Austrália:

  • Em 2014, anunciou o afastamento de seu líder real, o guitarrista Malcolm Young, que faleceria três anos depois por complicações da demência;
  • Em 2015, o baterista Phil Rudd se ausentaria das turnês por estar lidando com acusações judiciais relacionadas a drogas e outros crimes;
  • Em 2016, o vocalista Brian Johnson abandonaria uma excursão devido a um quadro de perda auditiva após estourar seu tímpano em uma corrida de carros;
  • Também em 2016, ao fim da turnê que acumularia duas baixas, Cliff Williams confirmaria que ele, individualmente, se aposentaria, por conta de problemas de saúde.
AC/DC em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

Em dado momento, praticamente só restou Angus com substitutos. Stevie Young, sobrinho dele e de Malcolm, ocupou a segunda guitarra; Chris Slade, membro em parte da década de 1990, assumiu as baquetas; Axl Rose, ícone do Guns N’ Roses, deu uma força para seus ídolos no microfone principal. O Young caçula conseguiu dar a volta por cima quando reuniu Johnson, Williams e Rudd para o álbum Power Up (2020), mas os dois citados seguiram fora das turnês.

Mas Angus não desiste. Recrutou Chris Chaney e Matt Laug, ambos ligados no passado à banda de Alanis Morissette e outros projetos, para baixo e bateria, respectivamente. A turnê de Power Up só começou mesmo em 2024 e é inevitável a sensação entre fãs de que, provavelmente, assistiremos ao AC/DC pela última vez.

O contexto de “volta olímpica” empalidece qualquer eventual crítica à performance, já desnecessária considerando os 78 anos de Brian, os 70 de Angus e a ausência de outros três integrantes essenciais. Mas mesmo os críticos mais rigorosos se surpreenderiam com o que foi mostrado na última terça-feira, 24, pela citada dupla de veteranos. Dentro de naturais limitações, Johnson e o mais jovem dos Young seguem imbatíveis.

The Pretty Reckless

Antes do AC/DC dominar o palco montado no Morumbis, The Pretty Reckless aqueceu o público com um show de 55 minutos. A banda americana capitaneada pela cantora e atriz Taylor Momsen, antes notória por trabalhos na série Gossip Girl e no filme O Grinch, tem feito a abertura de praticamente toda a turnê Power Up, exceção feita a compromissos na Austrália, no fim do ano passado.

Embora tenha sido fundado há quase duas décadas — em 2009 — e lançado quatro álbuns de estúdio, o grupo completo por Ben Phillips (guitarra), Mark Damon (baixo) e Jamie Perkins (bateria) é novidade para muita gente. Pouco surpreendeu, portanto, que a gigantesca maioria do público presente no estádio não soubesse nem mesmo o refrão de “Make Me Wanna Die”, maior hit de Momsen e seus companheiros.

The Pretty Reckless em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)
The Pretty Reckless em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

O hard rock praticado pelo The Pretty Reckless tem pouco a ver com os anfitriões. Seus álbuns bebem pouco do blues e exploram influências distintas, indo do grunge/alternativo ao pop rock a depender da fase. Não é o tipo de som enérgico e dançante: acaba por ser mais contemplativo, especialmente devido à presença de palco magnética de Taylor, uma espécie de “Barbie maligna” que, para além do poderio vocal e timbre rasgado, transborda carisma e sensualidade.

The Pretty Reckless em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)
The Pretty Reckless em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

No set de nove músicas — incluindo “For I Am Death”, single de 2025 tocado pela primeira vez ao vivo na terça, 24 —, destacaram-se a abertura envolvente “Death by Rock and Roll”, a cadenciada e soturna “Witches Burn” (oferecida ao público feminino em português com “cadê as mulheres daqui?”), a citada pop-rocker “Make Me Wanna Die”, a pesada “Going to Hell” e a puramente classic rock “Take Me Down”, cuja base melódica por vezes remete a “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones. Nada marcante, mas certamente serviu como um bom aquecimento.

Setlist — The Pretty Reckless:

1. Death by Rock and Roll
2. Since You’re Gone
3. Follow Me Down
4. Only Love Can Save Me Now
5. For I Am Death
6. Witches Burn
7. Make Me Wanna Die
8. Going to Hell
9. Heaven Knows
10. Take Me Down

AC/DC

Fãs mais curiosos já haviam pesquisado e descoberto que o show do AC/DC, iniciado às 21h, teria duas horas e 15 minutos de duração. Por isso, surpreendeu notar que 17 das 21 músicas já tinham sido tocadas quando o relógio marcava uma hora e meia de performance. Claro que a versão estendida de “Let There Be Rock”, com seus mais de 20 minutos totais — a maioria deles dedicados a solos de Angus Young —, ainda estava por vir; mesmo assim, chama atenção.

É uma característica indiscutível das apresentações do grupo australiano: muito som e pouca enrolação. Canções são tocadas em sequência, sem tantas seções mirabolantes para esticá-las ou momentos forçados de interação. Brian Johnson fala pouco com a plateia e chega ao ponto de dizer entre a abertura “If You Want Blood (You’ve Got It)” e a clássica “Back in Black” logo após: “viemos tocar rock and roll pra vocês — e já é o suficiente de conversa.”

AC/DC em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

De longe o mais velho da formação, o vocalista é, também, quem mais se diverte. Vibra com a plateia, transmite uma vibe de “vizinho caminhoneiro super boa gente” e interpreta de modo despojado as curiosas letras escritas por seu saudoso antecessor Bon Scott. Vez ou outra até dá uma leve risadinha quando deixa de atingir alguma nota aguda que, anos antes, tiraria de letra. Rock and roll não foi feito para ser perfeito.

Angus Young, por aqui trajado com uniforme escolar na cor verde e chapéu com as cores da bandeira do Brasil, é a prova disso. Em alguns momentos engole uma ou outra nota na guitarra; mais perceptivelmente na introdução de “Thunderstruck”, tocada de modo desacelerado e comprovando como ele e seus colegas não usam metrônomo ao vivo (assim como em estúdio), mas ninguém liga. Diferentemente do que alguns vídeos em redes sociais levam a crer, o músico acerta muito mais do que erra. Pode ser que poupe energia no início ou simplesmente precise de aquecimento, entretanto, passados os primeiros 30 minutos de set, engrena de vez. E não para. Mesmo.

O trio que acompanha os protagonistas não decepciona e segue à risca a cartilha de seus antecessores: apenas oferecer sustentação sem roubar os holofotes. Deles, Stevie Young talvez esteja mais abaixo do músico o qual substitui — seja pelo ataque limitado na mão de palhetada ou escolha de timbres —, mas Malcolm é único na história do rock. Chris Chaney reproduz com fidelidade a abordagem de Cliff Williams, enquanto Matt Laug chega a tocar um pouco mais forte que Phil Rudd, embora o swing característico do grupo fique mantido.

Entre as 21 músicas executadas na noite de sexta, 24, há mais representantes da fase Bon Scott (onze) do que da era Brian Johnson (dez). Dos discos de Bon, clássicos eternos como “Highway to Hell” (com Angus usando chifrinhos de diabo), “Whole Lotta Rosie” (sem a presença da Rosie inflável de outras turnês no palco) e “TNT” dividem espaço com escolhas de repertório pouco usuais, a exemplo da insana “Riff Raff” (jamais tocada em show com Brian até 2023), a peculiar e muto bem recebida “Jailbreak” (estava fora dos setlists desde 1991 quando foi resgatada em novembro último) e a já citada abertura “If You Want Blood (You’ve Got It)” (ausente após 2003 antes de retornar aos sets três anos atrás). São canções que se encaixam melhor na voz atual de Brian.

AC/DC em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

Dos álbuns com o vocalista ocupante da vaga desde 1980, segue a escolha de tocar metade do multiplatinado disco Back in Black — com destaque para a climática “Hells Bells” e a paulada “Shoot to Thrill” —, a recém-resgatada ao set “Stiff Upper Lip”, o irrevogável encerramento “For Those About to Rock (We Salute You)” e duas canções de Power Up: “Demon Fire” e “Shot in the Dark”, ambas recebidas de modo acanhado pela plateia. Talvez façam falta números como “Rock ‘n’ Roll Train” e “Who Made Who”, mas nada capaz de gerar uma crise.

Aqueles interessados pela parte mais visual do espetáculo podem se decepcionar com a já mencionada ausência da Rosie inflável, o tamanho aparentemente mais modesto do sino de “Hells Bells” e o discretíssimo uso de pirotecnia em “Highway to Hell”. Apesar de não ter havido economia no papel picado durante o extenso solo de “Let There Be Rock” — disparado quando Angus está tocando deitado no chão —, a versão atual do show é, mesmo, um pouco mais enxuta em estrutura na comparação com outras turnês.

Todavia, o principal segue lá: o som. Fica difícil dispensar o clichê “o AC/DC deu aula de rock and roll no Morumbis”. As eventuais imperfeições em nada atrapalham o resultado final. Angus, Brian e companhia poderiam estar até realizando um show mais curto, abaixando afinação para obter tons mais graves, dando mais pausas entre músicas ou estender suas durações, usando faixas pré-gravadas para engrossar o som, recorrendo a metrônomo, apostando no lado estético do show… mas quem disse que precisa? Está perfeito do jeito que é. E que siga perfeito enquanto dure.

AC/DC — setlist:

1. If You Want Blood (You’ve Got It)
2. Back in Black
3. Demon Fire
4. Shot Down in Flames
5. Thunderstruck
6. Have a Drink on Me
7. Hells Bells
8. Shot in the Dark
9. Stiff Upper Lip
10. Highway to Hell
11. Shoot to Thrill
12. Sin City
13. Hell Ain’t a Bad Place to Be OU Dog Eat Dog OU Givin the Dog A Bone OU Jailbreak
14. Dirty Deeds Done Dirt Cheap
15. High Voltage
16. Riff Raff
17. You Shook Me All Night Long
18. Whole Lotta Rosie
19. Let There Be Rock
Bis:
20. T.N.T.
21. For Those About to Rock (We Salute You)

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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