Alee e Klisman tropicalizam trap soul em ‘Para: Todas Que Fingi Amar’
Álbum colaborativo de 14 faixas mistura trap soul baiano com honestidade brutal sobre relações tóxicas e cotidianas
Kadu Soares (@soareskaa)
Relacionamentos não são só flores e declarações de amor eterno. Tem isso, claro, mas junto pode existir DRs, mensagens não respondidas, sexo sem sentimento, promessas quebradas e toda aquela parte negativa que nem sempre é lembrada. Mas Alee e Klisman não se esquecem disso, e Para: Todas Que Fingi Amar existe justamente pra contar essa versão que ninguém posta no Instagram. O álbum colaborativo da dupla baiana da NADAMAL, lançado na última terça, 24, traz 14 faixas que vão do trap soul ao R&B e até afrobeat. Cada uma é batizada com nome de mulher e narra um capítulo específico de relacionamentos que raramente veem representados na música. Não é disco de love songs, como explicou Alee em entrevista recente. É um disco sobre relações reais e com tudo que isso implica: toxicidade, futilidade, dependência emocional e, principalmente, a incapacidade de se desprender mesmo sabendo que deveria. Inspirado em Bryson Tiller e seu icônico TRAPSOUL (2015), Alee e Klisman tropicalizam o subgênero, adicionando “tempero baiano” que transforma a referência americana em algo genuinamente brasileiro.
Antes disso, PTQFA recebeu um esquenta ainda em janeiro. O EP SPAM (2026) serviu como prévia e conta com músicas que não entraram no corte final, mas são igualmente interessantes. Com conceito leve e bem-humorado sobre canções que ficaram “presas no spam”, a mixtape também aposta em narrativa romântica e afetiva, marcada por trocas emocionais.
Em relação ao disco em si, ele abre com áudio que estabelece o tom desde o começo: não espere romantização, espere honestidade incômoda. E “Mina”, incrível segunda faixa, entrega exatamente isso. É provavelmente a música que melhor captura o conceito do projeto inteiro: “Sexo, droga e vadias, e vazias / Preenchem minha vida, aumenta a dopamina / Falei que ia sumir, olha eu aqui de novo”, cantam, reconhecendo a futilidade do relacionamento, mas admitindo a incapacidade de sair dele. Não tem redenção. Não tem “vou mudar por você”. Só tem ciclo vicioso de voltar pro mesmo erro sabendo que é erro.
“Clara” e “Diana”, outros destaques, trazem a toxicidade que “Mina” apresentou. Em “Clara”, a confissão é direta: “Aqueci o teu lado da cama com outra / Mas pensando bem eu também sou fútil” e “Deixa eu e meu delírio, baby / E se eu sumir? Não me procure, seu nome na tracklist / E eu não fingi te amar, só fui mais trap nisso”, cantam em cada faixa respectivamente. Ainda cabe espaço para versos de ostentação e críticas sociais, típicos da voz rouca de Alee, e referências metalinguísticas de Jimyy, único feat do álbum.
Além disso, a quinta canção, “Roberta”, muda a energia com batidas secas e Klisman brilhando no refrão, “Juliana” é mais tranquila, contrastando com “Dandara”, que injeta a diversão necessária no disco, provando que relacionamento tóxico não precisa ser sempre dramático — às vezes é só coisa mal resolvida entre duas pessoas que sabem que não vão durar juntas.
Para: Todas Que Fingi Amar é propositalmente menos conceitual que os trabalhos solo anteriores dos dois. Se de um lado a trilogia Caos (2024), de Alee, mergulhava fundo na sua vida, misturando trap com uma narrativa complexa sobre ódio, ambição e sobrevivência, CHTC? (2025), de Klisman, foi uma carta de amor/ódio ao centro histórico de Salvador, documentando cultura de rua e realidade criminal das periferias. Entretanto, aqui, a dupla opta por projeto mais direto, mais comercial — e isso não é defeito de forma alguma! Depois de álbuns densos que exigiam atenção do ouvinte, faz sentido entregar algo mais acessível sem perder identidade. As 14 faixas fluem naturalmente, com produção impecável de nomes como Saboya, DougBeats, Dallass e QualyWav1, que trazem a coesão mesmo com variedade de estilos. E a participação de Jimyy adiciona frescor sem desestabilizar a química dos dois.
A química entre os dois, aliás, é o que sustenta o disco. Alee e Klisman sempre surpreendem e vêm de trabalhos como “Party”, “Pagão” e “São Paulo”. A conexão é natural tanto no palco quanto no estúdio, e dá pra ouvir isso em cada transição de verso, cada refrão compartilhado, cada momento onde um termina a frase que o outro começou.
Além de Tiller, outras referências são perceptíveis. Um vocal semelhante ao The Weeknd (especialmente nos vocais de “Lorena”) e a atmosfera do último projeto de Drake com PARTYNEXTDOOR, $ome $exy $ongs 4 U (2025). Apesar disso, o projeto consegue criar sua própria identidade, principalmente pelas vivências dos dois, pelo toque baiano, pelos beats e a forma como as melodias e versos são montados, que fica quase impossível não se identificar.
Para: Todas Que Fingi Amar é honesto e bem feito. Vale a escuta com certeza. Alee e Klisman entregaram projeto que funciona tanto pra quem quer som bom pra colocar na playlist quanto pra quem precisa de trilha sonora pra processar relacionamento complicado. E no final, talvez seja exatamente isso que trap soul sempre foi: batida boa o suficiente pra dançar, letra honesta o suficiente pra doer.
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