Aquiles Priester fala à RS sobre reunião com Angra, W.A.S.P. e Andre Matos
Baterista referencial no power metal detalha seus planos de carreira para 2026 e explica circunstâncias que levaram aos dois shows com a banda que o projetou
Igor Miranda (@igormirandasite)
Aquiles Priester tem um ano de 2026 bem cheio. Ao conversar com a Rolling Stone Brasil, o baterista brasileiro, referência mundial no power metal, estava no meio de uma turnê com All Metal Stars, projeto que dedicou o mês de março para prestar tributo a Andre Matos em várias cidades do país. Priester, hoje radicado nos Estados Unidos, segue por aqui em abril para dois shows de reunião com o Angra e três junto do Hangar, incluindo passagens de ambos pelo festival Bangers Open Air 2026. Em maio, realiza uma excursão nacional de bateria celebrando o 25º aniversário de Rebirth. Entre junho e outubro, é a vez de viajar pelo mundo com o W.A.S.P., grupo americano do qual faz parte desde 2017.
Nesta entrevista, Aquiles relembrou as circunstâncias que levaram ao seu retorno pontual ao Angra para apresentações no Bangers (26/04) e Espaço Unimed (29/04), ambas em São Paulo. Também discutiu a relevância de Andre Matos, celebrou a oportunidade de excursionar com o guitarrista Edu Ardanuy no All Metal Stars e adiantou: o W.A.S.P. está em processo de criação de novas músicas, as primeiras com o brasileiro na formação. Hangar foi o único tópico não abordado neste bate-papo por uma boa razão: o grupo deve conceder uma entrevista própria ao veículo.

Confira, a seguir, os destaques em texto da entrevista de Aquiles Priester à Rolling Stone Brasil, bem como a versão em vídeo. Trechos foram editados e condensados para leitura mais fluida.
Aquiles Priester — entrevista à Rolling Stone Brasil
A turnê All Metal Stars
Aquiles Priester: Fiquei surpreso com a quantidade de gente nos shows e o quanto as pessoas se comovem em ouvir aquelas músicas mais uma vez. Edu Ardauny sempre foi muito reverenciado como guitarrista muitos do power metal sempre quiseram vê-lo tocar esse estilo. Ele nunca quis, mas Thiago [Bianchi, vocalista do projeto] o convenceu — ele é muito bom em convencer as pessoas. Um dos motivos para aceitar fazer a turnê foi a presença do Dani Matos, irmão do Andre. A família está envolvida. No show em São Paulo [15/03], tivemos a presença da mãe do Andre, a dona Sônia, no show. O Dani disse que ela dificilmente sai de casa e tinha os dois lados: ela poderia ficar muito feliz, mas também sofrer muito. Mas foi lindo de ver. O próprio Dani chorou no palco.
O legado de Andre Matos
AP: Para mim, é muito legal poder fazer uma homenagem para o cara que é simplesmente o criador do power metal no Brasil. O disco Theatre of Fate (1989), do Viper, trouxe muitas coisas que depois apareceram revisitadas no Angels Cry (1993), álbum de estreia do Angra. No Theatre of Fate, você percebe algumas coisas de música clássica e nota que o cara estava realmente à frente. Fazia algo que não existia naquela época. Sem falar da história dele na banda que me projetou mundialmente. Neste show, eu não gravei nenhuma das músicas em estúdio, mas já toquei tanto algumas delas que criei arranjos diferentes dos que estão nos discos. É uma “Aquilizada”.
Edu Ardanuy, padrinho de power metal
AP: Edu Ardanuy foi meu padrinho no power metal. Depois que montei o Hangar, meu primeiro trabalho grande foi o Tritone, que tinha o Edu Ardanuy, o Frank Solari e o Sérgio Buss, à época engenheiro de áudio e guitarrista do Steve Vai. Eram três guitarristas poderosíssimos. Fiquei nervoso no primeiro ensaio, fizemos alguns shows. E aí na feira da música de 2000, fui para São Paulo com os CDs que tinha gravado. No estande em que o Edu estava, entrei e tinha outro guitarrista junto: Kiko Loureiro. Edu falou: “Kiko… vocês estão procurando um batera para o Angra, né? Esse cara toca dois bumbos para car#lho”. Mostrei o CD do Hangar, ele se lembrou de termos feito a abertura de um show em Porto Alegre. Daí tirei o Nomad, do Paul Di’Anno, que eu também gravei. Ele disse: “Então você que é o batera de dois bumbos que as pessoas estão falando que gravou com o Paul Di’Anno? Me dá teu número, vamos bater um papo”. A partir dali, a história toda foi vivida. Se não tivesse sido o Edu Ardanuy, possivelmente eu não teria essa chance. Ele me tirou do final da fila e me colocou como primeira opção para o Angra.
O trabalho com o W.A.S.P. — e planos de novo álbum
AP: Não parece, mas em 2027 faz 10 anos que estou tocando com o W.A.S.P. Isso é engraçado, porque as pessoas, geralmente, me ligam mais ao Angra, mas já estou no W.A.S.P. há mais tempo do que fiquei no Angra — entre dezembro de 2000 até 2007. Existem planos para um novo álbum. A banda já esteve trabalhando em material novo. Mas como o Blackie [Lawless, líder] fala: tem uma hora certa para tudo. As músicas estão fortes, o embrião está ali. Dá para ver que aquilo é W.A.S.P., mas ainda tem que amadurecer um pouco mais. O Blackie tem uma visão muito certeira sobre o que é o W.A.S.P. Então, ele é o cara certo para falar que chegou o momento de registrar algo novo. Mas sendo bem realista: se eu gravar um disco com o W.A.S.P., não vai ser o Aquiles Priester que grava com o Hangar e o Angra: vou ter que me adequar ao estilo da banda.
Reunião com o Angra para dois shows
AP: Fomos almoçar pela primeira vez em 19 anos: eu, Rafael [Bittencourt, guitarrista], Felipe [Andreoli, baixista] e Edu [Falaschi, vocalista]. Faltou o Kiko [Loureiro, guitarrista] porque quando ele estava aqui, eu estava em Los Angeles e tinha um compromisso lecionando na Los Angeles College of Music. E o Kiko também não poderia ficar mais uma semana até eu chegar. Foi um desencontro. A última vez que eu havia me sentado com aqueles quatro caras foi quando teve uma votação e me tiraram da banda. E agora, quando sentei ali na mesa, não teve nada do passado que foi falado ou levantado. Estamos falando de coisas a partir de agora. Vou te contar como aconteceu: Márcio Sinzato — à época envolvido no comando do festival, proprietário da Consulado do Rock e meu parceiro de merchandising desde 2003 — trouxe o W.A.S.P. para a edição 2025 do Bangers Open Air. Fiquei mais alguns dias no Brasil após o show e quando estava voltando para os Estados Unidos, o Márcio pediu para passar na casa dele antes de ir ao aeroporto. Ele disse: “só para você saber, também convidei o Edu para essa reunião”. Já pensei: “aí tem coisa”. Quando cheguei, ele nos fez a proposta: “O que vocês acham de fazer um show com o Angra da formação Rebirth? Porque aquela foto que vocês postaram [reunindo Aquiles, Edu e Felipe nos bastidores do Bangers 2025]… olha o que que essa foto fez, cara. Comoveu o público. A gente tem que fazer esse show”. A negociação partiu do Márcio. Edu e eu fizemos uma proposta parecida. Mas aí falei: “também quero que você aceite a proposta que te mandei para o Hangar tocar”. O Hangar entrou junto como parte do meu acordo de tocar com o Angra. Quando o Márcio levou para o Paulo Baron, que é empresário do Angra, a pergunta dele foi: “mas o Aquiles e o Edu aceitaram?”. Eles falaram: “com o Aquiles e o Edu já está tudo certo”. Ele se surpreendeu.
As pessoas certas envolvidas
AP: Acho que a reunião só aconteceu pela forma como aconteceu. Como eu e o Edu sempre nos demos bem com o Márcio, foi mais fácil para ele nos convencer de fazer. E ele sempre se deu muito bem com o Paulo e o Angra. Nesse meio tempo, o Márcio se desligou do festival e quem assumiu a negociação e cumpriu todo o combinado foi a Damaris Hoffman — que já foi assessora de imprensa do Hangar, trabalhou mais de 10 anos com o Paulo Baron e se dá muito bem com o Edu. Foram as pessoas certas para aquele momento. Se você me perguntar assim: “acha que se fosse uma proposta do próprio Angra, ou se vocês levassem essa proposta para o Angra, acha que iria acontecer?” Não faço a menor ideia. Tivemos muitas coisas não resolvidas naquela época. Talvez fosse mais difícil. Mas atravessamos esse portal com pessoas muito amigas e que iriam cumprir o combinado.
Pendências resolvidas
AP: Há uns dois anos, o Felipe me ligou para conversar sobre nossos “filhos”: as músicas que fizemos juntos. Uma música minha foi usada no DVD Angels Cry 20th Anniversary Tour, em uma passagem de som, e nunca entrou creditada. Falei que, além do streaming, a pendência do DVD deveria ser acertada. Fomos resolvendo, ficou bom para todos. Nesse meio tempo, ele fez também a ponte com o Edu, para ajeitar a liberação das músicas para o Edu poder lançar o DVD Temple of Shadows in Concert no Brasil. Felipe tem parte importante nisso. No começo éramos eu, Felipe e Edu como novatos, enquanto Kiko e Rafael eram os detentores da marca e do estilo de música que estávamos fazendo, e detinham o respeito de todos.
Aquiles estenderá sua celebração ao Rebirth pelo mês de maio
AP: No começo de maio, depois dos shows do Angra, vou começar uma turnê tocando o Rebirth na íntegra com drumshows. Vou usar a bateria que usei para gravar o DVD do Angra, Live in São Paulo. Paralelamente a isso, faremos uma audição para recrutar pessoas que queiram estudar na Los Angeles College of Music. Terei outro brasileiro junto nessa turnê: Marcelo Bucater, que é chefe de departamento de bateria na Los Angeles College of Music. Foi ele que me chamou para dar aula depois que fiz workshop lá. Ele falou que quando alguém do metal participava de algum evento lá, dava muito mais público de fora. Então, perceberam que tinha espaço para ter até uma classe de heavy metal dentro da faculdade de música. Lá nos Estados Unidos, pesquisamos e vimos que não tem outra faculdade que tenha um curso de heavy metal drumming. Então, tudo se encaixou.
Formato dos shows com o Angra
AP: O repertório já foi definido. Serão três atos: no primeiro, a formação atual; no segundo, a formação Rebirth; no terceiro, as duas formações juntas. Bruno [Valverde, baterista da formação atual] e eu vamos tocar três músicas juntos. Estamos definindo como soltar as trilhas, como será o som do metrônomo, posição de palco, telão, coisas assim.
Aquiles faria mais shows com o Angra?
AP: Cara, não faço a menor ideia. Tudo depende desses dois shows, de como a banda soará ao vivo junto, como nos sentiremos tocando junto nos ensaios. Mas posso falar que o primeiro almoço, o primeiro contato depois de tanto tempo, foi muito legal. Não chegamos a falar sobre isso, mas tenho certeza que todos estavam apreensivos antes desse encontro: você não sabe se aperta a mão, se abraça… então eu fui e abracei todos. Se estamos nesse ponto, é porque os escudos já foram abaixados. Temos que criar um clima bom desde o início.
Problemas não existem mais
AP: Meu problema com os integrantes da banda ficou naquela mesa de reunião em 2007. Falamos tudo que tinha que falar um para o outro, eles me tiraram da banda numa votação, apertei a mão de cada um, disse “adeus” e nunca mais olhei para trás. Se você me perguntar se tem alguma música do Angra que eu tenha gostado depois que eu saí, não vou poder falar, pois a única música que eu tive que ouvir — porque o Edu me convenceu a tocar — foi “Arising Thunder”, gravada pelo Ricardo [Confessori]. Não sei as músicas que o Bruno gravou, porque virei aquela página. Se no caminho que eu estava seguindo, por algum motivo, na internet ou no YouTube, aparecia alguma coisa do Angra, eu olhava para o outro lado. Foi isso que aconteceu na minha vida: eu apaguei o Angra. Não consigo falar nada sobre o que eles fizeram depois porque eu não sei de nada. Fechei aquela porta e segui minha vida. Passaram-se quase 20 anos. Eu mudei e, possivelmente, vou enxergar mudança neles quando começarmos a conviver e a tocar de novo. E até falei para eles: meu maior desejo é acabar o primeiro dia de ensaio e ficar feliz com tudo que aconteceu, incluindo as conversas.
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