Bemti: ‘Eu sou o meu primeiro ouvinte, e o mais chato’
O cantor mineiro, que se apresenta no Blue Note SP pela Rolling Stone Sessions em abril, contou detalhes da produção de seu novo álbum, “Adeus Atlântico”
Giovana Laurelli (@gii_laurelli)
O cantor e compositor Bemti disponibilizou seu terceiro álbum de estúdio, Adeus Atlaântico, no dia 22 de fevereiro. Mesclando o indie, o alternativo e a MPB, o artista utiliza a viola caipira e de modo experimental e innovador. Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Bemti comentou sobre o processo de composição das 10 faixas, participações especiais do projeto, planos para o futuro musical e seu show no Blue Note SP pela Rolling Stone Sessions, em 15 de abril.
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Sabemos que a viola caipira é a sua marca registrada, mas agora você está trazendo uma viola guitarra exclusiva para o palco! Eu quero saber como foi inventar, ou trabalhar, com esse instrumento.
Bom, a minha história com a viola caipira é bem grande, bem tortuosa. Eu nasci em uma fazenda, no interiorzão de Minas. Tem essa história que os meus avós tocavam viola caipira em Folia de Reis, mas quando eu era adolescente eu tocava violão e guitarra, não ligava para a viola. Só quando eu estava aqui em São Paulo, fazendo cinema, que no meu TCC eu dirigi um documentário e resolvi fazer a trilha com viola capira. Aí que a viola entrou na minha vida. Eu falei: “Nossa, caramba, é um instrumento muito versátil! Eu quero fazer isso de compor o tipo de música que eu escuto, que puxa mais pro alternativo, para a MPB, mas usando a viola como base”. Então os dois primeiros discos têm a viola caipira ali na essência de um jeito mais clássico, mas para esse disco surgiu esse “agravante” a mais. O novo disco tem muito efeito, tem muito pedal de drive, tem vários elementos ali que adicionam ao som da viola caipira. E para isso, euu já estava com a ideia fixa de que eu precisava de um instrumento novo. Eu acompanho faz um tempo alguns testes que a galera faz com a viola caipira, mas eu cheguei nessa. É um luthier incrível de BH que fez, o Sanzio Brandão, e talvez seja a única no mundo desse modelo, que é um híbrido de viola caipira e guitarra Les Paul. Para mim está sendo genial tocar ela! A estreia ao vivo desse instrumento foi no show de lançamento, que foi agora no SESC 14 Biz, e para mim é uma delícia poder executar ao vivo as coisas que eu já estava experimentando no estúdio. Tudo isso de adicionar efeitos na viola, e de ter uma pegada mais indie rock mesmo, mais rock and roll, mas com a viola caipira!
Que legal! O que esses instrumentos entregam de diferente para quem está acostumado a fazer o tradicional?
No caso da viola, o que me cativou desde o início na viola caipira é que realmente o timbre dela é muito bonito. É um instrumento que, por mais que ele tenha “caipira” no nome, não tem nada qe impeça você de usar esse instrumento em qualquer outro contexto, é qualquer outro. Por ele ter dez cordas, ele tem muito mais harmônico do que um violão tradicional. Às vezes um acorde que você faz no violão você vai fazer de um jeito muito mais cheio na viola caipira. No disco novo, tem uma música, que é “Lua em Libra”, que eu faço um riff na viola caipira sem efeito nenhum e é super grunge. Para mim traz uma coisa meio anos 90, grunge, e é só pela quantida de harmôniico que a viola têm. Então é isso, tem tipo uma dúzia de pessoas no Brasil que tem esse fardo de ‘vamos levar a viola caipira para um outro lugar sonoro!’, e eu sou uma dessas pessoas. Estamos nessa luta.
A questão do timbre da viola caipira é que quem conheçe instrumentos, etc., vai sacar que tem alguma coisa diferente. Quem é leigo talvez não perceba. Isso é uma coisa muito importante para mim, eu não quero que quem escute a minha música tenha um conhecimento gigante de quais são os instrumentos brasileiros. Acho muito legal que essa coisa que é um pouco diferente talvez vaze mesmo para quem é leigo, porque aí mesmo quem é leigo vai falar: “Nossa, tem alguma coisa diferente aqui que eu não sei muito bem o que é”.
Você já tocou em festivais, e no dia 15 de abril você vai fazer o Rolling Stone Sessions lá no Blue Note. Eu queria saber como é transpor o seu trabalho em um ambiente de festival, com várias pessoas, e também nesse ambiente mais fechado do Sessions.
Eu fiquei muito feliz com o convite para fazer parte do Rolling Stone Sessions. Eu gosto muito do Blue Note, é um lugar que eu frequento bastante. Para mim vai ser muito legal estar lá tocando pela primeira vez, ainda mais por ser esse show novo. Eu gosto muito desse tipo de show com caráter mais intimista! Tem outra relação com o público, acho que tem essa coisa ali do olho no olho que tem muito a ver com a minha música. Eu gosto de pensar que a minha música é tipo eu cantando no seu ouvido [risos], então as letras são bem intimistas, são letras muito pessoais. Alguns dos melhores shows que eu fiz na vida foram shows que eu realmente estava ali olhando muito no olho as pessoas, então para mim é sempre uma emoção.
Você está preparando alguma surpresa?
Para esse show? Sim, pior que tô! Eu nem falei com o meu produtor ainda, ele que se vire! [risos]
Então eu estarei lá esperando, aguardem os meus stories! O Adeus Atlântico foi produzido em três países. Eu queria saber o porquê que isso acabou acontecendo.
É, foi uma reflexão muito do que eu estava vivendo. O Logo Ali saiu no final de 2021, que é o meu disco anterior. Ele tinha muito daquela rebarba da pandemia e tudo mais, então 2022 em diante foram alguns anos de colocar minha cara no mundo, realmente. Eu escrevi mais de 30 músicas desde que saiu até agora. Adeus Atlântico é um recorte dessas minhas jornadas desses últimos anos, e que reflete muito essa minha experiência de estar no mundo de novo, reaprendendo a viver e conhecendo pessoas, conhecendo artistas. Sobre como esses artistas começaram a me influenciar também, nesse processo todo. Então não só tem as músicas que eu escrevi quando estava morando em Portugal, quando eu passei um tempo na Inglaterra também, mas mesmo aqui no Brasil. Eu fiquei muito tempo no Rio, muito tempo na Bahia, e tem todo o clichê do mineiro obcecado pelo mar que OK, eu sou assim mesmo. Isso influenciou muito também, isso está nas letras também. As letras citam nominalmente essas jornadas. O disco começa e termina com uma gravação do som ambiente na orla do Rio Tejo, então tem vários detalhezinhos. Fora as participações, que tem participações de vários lugares.
Defendo a sua apreciação pelo mar, é realmente fascinante e assustador. E é uma paz terrível, né? Enfim, você disse que escreveu cerca de 30 músicas, é muita coisa. Eu queria entender: o processo de escrita para você é uma coisa natural? Como você tem esse processo?
Para mim é muito diferente o processo de escrita para o meu trampo autoral, do que é, por exemplo quando eu escrevo… Eu tenho esse background do audiovisual, então eu faço trilha sonora também, tem a coisa de escrever para outras pessoas, é muit diferente. Escrever para um job, você senta e executa aquele trabalho. Quando eu faço roteiro também é assim. Agora, para o meu trabalho autoral, eu deixo 100% para o universo. Tanto é que eu gosto muito de viajar para escrever, porque o processo de viajar traz muita inspiração para mim. Mas é sempre de um lugar muito abstrato, o meu trabalho autoral eu sempre deixo para o universo deixar essas fagulhas. Tem as músicas que vem muito em uma tacada só, tem as músicas que eu fico anos trabalhando em cima, então é bem diferente. Mas a diferença é essa. No meu trabalho autoral eu meio que deixo para o universo me trazer essas inspirações, e as vezes as coisas vem dos lugares mais inesperados.
Tem que ter muita paciência às vezes, né?
Sim.
Você se considera uma pessoa paciente?
Sim, eu sou editor! [Risos] Editor e roteirista, se você não tiver paciência não executa. Musicista também, né? Você precisa de uma paciência gigantesca.
E ser artista, né? Independente das facetas, tem vários momentos. Tem pré-produção, tem pós-produção, tem divulgação, tem o palco. Eu queria saber se você tem um momento favorito, um momento que você se sente completo. Se você gosta de todas as fases de um processo de um álbum, e tudo mais.
É engraçado, porquê eu acho que tem um lado meio transtorno obsessivo-compulsivo que o meu momento favorito é escutar ela pronta e saber que a música está pronta. Eu também sou muito chato na parte de pós, e eu que faço a edição de áudio. Então eu geralmente trabalho com o Luis Calil, que também é meio produtor geral, um mixador incrível. A gente trabalha muito bem junto, e aí é muito da minha cabeça de editor. A música pode ter 25 versões ou três versões, mas eu vou entender que ela está pronta, seja na terceira versão, seja na vigésima quinta. Então quando ela tá pronta eu falo: “Uau, é exatamente isso aqui”. Isso me deixa muito feliz, porque depois disso eu meio que me desprendo, eu consigo escutar a música como se eu fosse um ouvinte de fora. Eu falo: “Ah, nossa, que legal, agora eu posso só aproveitar isso aqui”. Eu sempre falo que eu sou o meu primeiro ouvinte, e o mais chato. Então quando passa pelo meu crivo, eu falo: “Não, agora tá muito legal”. Mas óbvio que a parte de estar ali no ao vivo, principalmente depois do show. Depois do show eu acho uma delícia, porque as pessoas vêm falar o quê as músicas representam para elas. E eu já fiz tanto isso como fã, de ficar lá esperando: “Ai, Björk, eu te amo tanto!”, não, isso nunca aconteceu! mas você ter aquela troca direta, isso humaniza muito também. Isso adiciona muitas camadas também.
Nos lugares onde você se apresentou, muito no SESC, muito em teatro, lugares mais intimistas, ele proporciona muito mais do que um grande festival, um grande palco. Apesar de ser bom também, o grande palco. Eu tenho muito essa sensação, comecei a ir para shows mais velha. As vezes quando o artista sai do palco você se sente meio órfão, né? Dá uma saudade disso. E falando de fãs, das pessoas que consomem o seu trabalho, como que é as ua relação com elas? Elas receberam bem o seu último álbum?
Eu inclusive fiz uma ação super interessante, que eu nunca tinho visto ninguém fazer. Acabou que foi uma maluquice tão grande esses últimos meses que eu não consegui postar quase nada sobre. Mas teve uma seleção de fãs que escutaram o disco, que saiu em janeiro, essas pessoas escutaram o disco no finalzinho do ano passado em um café. Eu na frente da pessoa, e ela escutando pela primeira vez na minha frente. Então as primeiras pessoas que me deram feedback do disco foram fãs escutando na minha frente. E nossa, foi muito legal. Foi bem Marina Abramovich, de me colocar em uma lugar muito vulnerável. Mas a pessoa também estava em uma lugar vulnerável. As reações foram muito bonitas. Por exemplo, a última música do disco, que é a “Adeus Atlântico”, que dá nome ao disco, quase todas as pessoas choraram nela, e cada uma chorou por um motivo diferente. Teve a pessoa que falou: “Nossa, me lembrou a minha mãe que eu não vejo há cinco anos, que eu estou muito longe dela”. “Ah, lembrou esse ex que eu ainda sinto alguma coisa por ele”. Então pra mim, óbvio, depois que o disco sai vêm toda essa recepção de imprensa, que tá muito legal também, recepção dos outros fãs. Mas para mim foi muito bonito ter essa primeira recepção de uma forma tão íntima, tão vulnerável.
Você disse que esse seu trabalho escolhe a leveza, e não a melancolia. Em um mundo onde a gente parece viciado no snetimnto forte ou no hiperestímulo, como foi o exercício consciente de buscar um som mais calmo, e um som até mesmo dançante?
Acho que isso também é um reflexo do que eu estava vivendo geograficamente. Assim como o disco reflete esses lugares que eu estava conheçendo e passando quando eu estava escrevendo as músicas, o disco também reflete anos mais leves que eu tive. Acho que principalmente 2024 e 2025, foram anos muito bons para mim, anos tranquilos. Então por exemplo não é o que eu conseguiria fazer em 2021, quando eu lançei o Logo Ali. Por mais que ele tenha algum otimismo, é um disco sobre aguentar momentos difíceis e chegar adiante, eu não conseguiria fazer um disco feliz no meio da pandemia e tudo mais. Então é o que eu te falei também sobre o meu trabalho autoral, que vem muito do universo, do que o universo tá me jogando. Então, para mim foi um caminho natural nesse sentido. O disco é mais leve porque reflete um momento mais leve também que eu estava vivendo.
Vamos falar de futuro! Quais assuntos você gostaria de abordar em trabalhos futuros? Com quem você gostaria de trabalhar em trabalhos futuros?
Pois é, tem uma coisa para o futuro próximo que tem uns Easter eggs escondidos no disco. Quem for esperto já vai ter notado alguma coisa. Acho que tematicamente, não sei… Tem uma coisa que eu tenho muita vontade de fazer, que é pegar as músicas que eu escrevi quando era adolescente, que nunca gravei em lugar nenhum, e ver quais delas posso fazer um feat comigo mesmo. Tipo eu entrando em uma máquina do tempo, pegando essas músicas e vendo o que posso fazer com isso aqui. Nas parcerias, nesse disco estou realizando um sonho. Para quem olha na tracklist talvez seja uma coisa que passa despercebida, mas tem uma música, que é a “Só Para Ter Você”, que tem participação do Fyfe Dangerfield, que é vocalista do Guilemots, que é uma das minhas bandas favoritas da vida. É uma banda indie britânica que foi muito importante ali nos anos 2000, até o Paul McCartney é fã deles. Sou muito muito fã mesmo, então ter rolado essa parceria… o Fyfe foi muito querido, além da voz ele gravou guitarra, paino, 40 faixas de harmonia. Foi muito, muito legal. Entao infelizmente, às vezes eu sinto uma abertura maior quando converso com essas pessoas de fora do que com ídolos brasileiros, muito velha guarda, etcétera. Então assim, tem vários nomes brasileiros, ídolos que eu poderia elencar, mas que por algum motivo talvez seja mais fácil [risos] fazer parceria com a galera gringa que eu sou muito fã também. Então isso é algo a se pensar. Mas também falando em parcerias brasileiras que eu tenho muito orgulho, poxa, ter gravado com a Fernanda Takai no Logo Ali, o Adeus Atlântico tem parceria com o FBC, que é um artista incrível. Foi muito incrível o processo inteiro com ele. Eu tenho muita sorte de todas as parcerias que eu já fiz. Tem algumas que eu to correndo atrás para o próximo disco, mas também tem essa galera gringa que acho que o Five como exemplo mostrou que ok, é possível também. às vezes você tem um processo legal e as pessoas são muito generosas, mesmo tão longe da sua realidade.
Você me falaria um pouquinho do processo com o FBC, que você disse que foi muito incrível?
Pois é, o FBC participa da “euforia”, que é uma faixa desse disco novo. Desde o começo, quando eu escrevi essa música, eu imaginava ela muito um indie rock classicão anos 2000, com alguma coisa de rap. Então por exemplo Gorillaz, alguma coisa assim. Tem várias referências, The War on Drugs, enfim. E aí, desde o começo para mim era o FBC. Por ele ser mineiro também, por ele curtir vários artistas do alternativo. Ele já gravou com a Letrux, com a Ana Frango Elétrico, eu fiz a música pensando muito nele. Até ele topar e ele gravar de fato foi uma grande jornada, envolvendo estados diferentes e etcétera. Mas quando ele mandou a rima dele eu falei “Nossa, é isso aqui”. Por isso que eu chamei ele, ele sacou super bem a vibe da música, o que a música estava pedindo. Além dele eu também gravei com a Luah, que é backing vocal dele, que é uma artista incrível também. Então no final das coisas o quebra cabeça todo juntou de uma forma muito bonita.
*Entrevista por Giulia Cardoso
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