Borges procura sua nova voz em ‘O Sol Também Chora’
O artista, que conquistou a internet com hits de ostentação, agora busca profundidade e significado, provando que transformação no rap brasileiro é possível quando há coragem de arriscar
Kadu Soares (@soareskaa)
Quem diria que aquela faixa em Diamantes Lágrimas e Rostos pra Esquecer (2025), de BK’, seria o começo de uma das mudanças mais significativas do rap brasileiro recente. Em “Abaixo das Nuves”, Borges apareceu diferente, mais sóbrio e reflexivo, como se algo tivesse clicado. O cara que fez a internet dançar com “AK do Flamengo” e “Iphone Branco”, que estampou a Times Square em 2021 com hits sobre ostentação e vida de patrão, decidiu que queria dizer algo maior. Meses depois, O Sol Também Chora confirma: Borges não só mudou de som — mudou de propósito. E acertou.
A coragem de largar a fórmula que funciona para tentar algo novo merece respeito. Borges poderia ter passado a carreira inteira fazendo variações de “Loucura”, acumulando views e grana, surfando na onda do funk melody que ele ajudou a popularizar. Mas escolheu arriscar. O Sol Também Chora é rap consciente, discurso político, reflexão sobre negritude e desigualdade. Ele cita Malcolm X, Martin Luther King, Nelson Mandela, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Mano Brown — referências pesadas que exigem responsabilidade. E ele assume de peito aberto, construindo um disco que usa o Sol como metáfora: poder e sacrifício, brilho e queimadura. É ambicioso. E funciona muito melhor do que tinha direito vindo de alguém fazendo essa transição pela primeira vez.
As colaborações são outro ponto forte que reforça a seriedade do projeto. Emicida, BK’, Teto, Duquesa, Ryu The Runner, cada nome carrega peso, cada participação adiciona camada. BK’ abriu a porta com “Abaixo das Nuves” e retorna como padrinho da mudança. Teto representa a nova geração que também experimenta além do trap. E Emicida… bom, Emicida é a validação máxima. Quando um dos maiores nomes do rap consciente brasileiro embarca no seu projeto, é porque você tá fazendo algo certo.
“Rei da Noite” mostra que ele já domina esse novo território mais do que muita gente esperava. O beat tem presença, Borges navega no flow com segurança, e a letra equilibra autoafirmação com consciência do peso de ocupar certos espaços. É rap de visão bem executado, sem forçar barra, sem soar como imitação. “Vendaval” também brilha, a produção é forte, a estrutura prende do começo ao fim, e Borges entrega com naturalidade.
E então tem “Vença”, com verso de Emicida, que é obra-prima — uma homenagem à cena inteira, um lembrete de que o rap brasileiro sempre foi sobre resistência. Mas o que impressiona não é só a qualidade do verso (esperada vindo dele), é a generosidade do veterano em deixar espaço pro mais novo crescer. E Borges cresce. Esbarra em clichês? Sim, mas consegue segurar a onda, entregar presença, mostrar que consegue dividir palco com uma lenda sem se perder.
Algumas faixas ainda carregam aquele ar de quem tá aprendendo a linguagem do rap consciente, testando referências, encontrando o tom. Mas isso não é problema. Borges tá construindo vocabulário, expandindo arsenal lírico, e cada tentativa, mesmo as imperfeitas, mostra evolução. Ele não tá fingindo dominar território que acabou de pisar. Tá sendo honesto sobre a jornada.
Sonoramente, não é um dos destaques do ano — tem beats que soam genéricos, tem momentos que arrastam, tem faixas que não grudam. Mas intencionalmente? Aí, sim, é um dos mais importantes. E isso importa mais que produção impecável. Você sente nas escolhas, na curadoria, na forma como ele constrói cada verso. Tem convicção. E convicção é o que separa experimento de transformação.
Ele ainda tá encontrando a voz definitiva nesse novo espaço, a execução ainda vacila aqui e ali, mas a direção tá certa. E no rap brasileiro atual, onde tanta gente se acomoda na fórmula, só a coragem de tentar já merece reconhecimento. O Sol pode chorar, mas continua iluminando. E Borges, com todas as imperfeições, ilumina de verdade.
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