Bruno Mars entrega um disco água com açúcar em ‘The Romantic’
Álbum solo após década é reconfortante, bem produzido e seguro demais
Kadu Soares (@soareskaa)
Água com açúcar. Você provavelmente já ouviu esse termo em alguma conversa ou leu em uma crítica. Sabe aquele filme bobinho, tranquilo, geralmente uma história de amor que não tem muita profundidade, mas te faz sorrir? Aquela série que você coloca depois de um dia cansativo, que não exige tanto de você. Não te dá sono, mas também não te anima — tirando um ou outro capítulo. The Romantic é assim. Não é ruim, não é excepcional, é só… agradável, suave. Reconfortante.
O primeiro álbum solo de Bruno Mars em dez anos é a água com açúcar musical da mais alta qualidade. Ainda é cedo para dizer se o disco vai ser esquecível ou se vai revelar hits escondidos com o tempo, mas uma coisa já dá para afirmar: é um álbum bom, bem produzido, totalmente com a cara de Bruno Mars — e essa familiaridade é tanto o charme quanto a limitação.
O álbum abre com “Risk It All” e “Cha Cha Cha”, que trazem uma sonoridade tropical diferente, inspiradas na terra natal do Bruninho. Trompetes de mariachi brilham, percussão latina pulsa, guitarras remetem aos anos 70. A primeira joga com romantismo clássico sobre base acústica decorada com metais que poderiam estar em qualquer festa de quinceañera. “Cha Cha Cha”, por sua vez, intensifica a energia, com Mars cantando sobre o quão apaixonado ele está. É a partir da terceira faixa que o disco revela sua forma definitiva — mistura dessas latinidades com elementos de Silk Sonic, tudo embalado pela voz única do cantor, que continua sendo o ponto mais forte de qualquer coisa que ele faça.
“I Just Might” foi o único single do álbum, estreou em #1 em 11 países e é um dos principais destaques, principalmente pelo refrão que gruda na cabeça desde a primeira audição. Mas essa pegada não se mantém no restante do álbum. É engraçada, direta, totalmente charmosa — exatamente o tipo de coisa que Bruno domina.
A partir daí, o disco se acomoda numa zona de conforto: faixas como “Why You Wanna Fight”, “On My Soul” e “Something Serious” seguem a mesma pegada romântica e suave, sem picos de energia ou mudanças bruscas de direção. Tudo isso, embalado pela produção de D’Mile, parceiro fixo de Bruno desde Silk Sonic, e à escolha de Gabriel Roth para a engenharia dos metais, que trazem esse ar de sofisticação.
O disco encerra com “Dance With Me”, com cara de fim de festa e um pedido de última dança vindo do cantor. Depois de 32 minutos, fica claro que o projeto funciona, mas tem seus tropeços, especialmente nas letras genéricas. E, acima de tudo, o maior ponto aqui (podendo ser interpretado como problema ou virtude, dependendo de como você olha) é que não há um ponto alto. Todas as nove músicas existem no mesmo nível de qualidade elevada. Não tem nenhuma faixa fraca, mas também nenhuma que entre na prateleira junto das canções já consolidadas do cantor.
The Romantic é Bruno Mars aos 40 anos, completamente confortável com quem ele é e o que faz melhor. É o disco mais coeso da carreira dele, mas também o mais seguro, típico daquele filme água com açúcar que você tanto gosta.
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