Quem é Chappell Roan, atração do Lollapalooza Brasil 2026
Cantora americana estourou de maneira independente em 2024, após ser largada pela gravadora, e suas músicas lidam com temas LGBTQ+
Pedro Hollanda (@phollanda21)
O Lollapalooza Brasil 2026 traz algumas das maiores estrelas da música pop na programação. Uma delas é Chappell Roan, cantora que desafia as convenções sobre aparência, gênero e sexualidade no pop. Ela é a headliner do segundo dia do festival, sábado, 21 de março.
A história de Chappell Roan
Nascida Kayleigh Rose Amstutz, a artista cresceu no estado americano de Missouri, um ambiente descrito pela própria como cristão e conservador. Sua família frequentava a missa três vezes por semana. Ela fez parte de colônias de férias religiosas enquanto criança e adolescente.
Em entrevista à Variety, Chappell explicou como crescer assim lhe afetou. A cantora se via numa situação na qual queria agradar a todos, mas sentia vontade de fugir:
“Eu queria me sentir como uma boa pessoa, mas parte de mim queria muito escapar disso. Eu queria gritar. Eu saía escondido direto, mas ainda ia à igreja três vezes por semana. Era essa dicotomia de quere ser uma boa garota, mas querer tocar fogo em tudo.”

A artista atraiu a atenção das gravadoras quando começou a postar vídeos fazendo versões cover de músicas famosas no YouTube. Ela assinou com a Atlantic Records em 2015. No ano seguinte, adotou a alcunha Chappell Roan.
A origem desse nome é familiar. Seu avô materno, Dennis Chappell, faleceu em 2016, vítima de um tumor cerebral. Em homenagem, ela combinou o sobrenome com uma palavra de canção preferida dele, a tradicional “The Strawberry Roan”.
Em seus primeiros anos na indústria, Chappell abriu shows para artistas como Vance Joy e Declan McKenna, mas nenhum sucesso comercial de fato. A cantora ainda morava com seus pais em Missouri, voando para Los Angeles ou Nova York apenas quando necessário.
Quando finalmente se mudou para Los Angeles, em 2018, ela passou por um momento de revolução pessoal. Morar na Califórnia, especialmente tão longe dos pais, lhe proporcionou a oportunidade de viver abertamente com relação à sua sexualidade. Chappell é lésbica e boa parte de suas canções trata sobre crescer num ambiente desconfortável com pessoas LGBTQ+.

Fracasso antes do sucesso
O primeiro indício de abraçar sua sexualidade na própria música veio no single “Pink Pony Club”, de 2020. A canção conta a história de uma garota que se muda do Tennessee para Los Angeles, atrás do sonho de ser dançarina num bar gay. Entretanto, a composição não foi um sucesso imediato e a Atlantic a dispensou no mesmo ano.
Erro da gravadora. “Pink Pony Club” aos poucos ganhou força durante a pandemia — atingiu 10 milhões de streams no Spotify em agosto de 2022 —, mas a esse ponto Chappell Roan não tinha contrato de gravadora ou um parceiro musical. Seu produtor até ali, Dan Nigro, também trabalhava com outra cantora de sucesso: Olivia Rodrigo. Após o hit desta artista, “Driver’s License”, Nigro preferiu concentrar seus esforços no álbum Sour (2021), o primeiro da ex-atriz da Disney.

Enquanto isso, Chappell sobrevivia como podia. Ela se mudou de volta ao Missouri e arrumou emprego numa lanchonete. O plano era ser uma artista independente. Após conseguir um acordo de distribuição com a Sony em 2022, convenceu Nigro a retomar a parceria.
A cantora teve a oportunidade de atingir um público maior logo em seguida, graças ao convite para abrir uma turnê de Olivia Rodrigo. Seus singles independentes eram elogiados pela crítica e os shows, inspirados por espetáculos drag, atraíam cada vez mais pessoas.
Uma turnê solo trouxe cada vez mais atenção para a cantora, que lançou o álbum The Rise and Fall of a Midwest Princess em setembro de 2023. O trabalho foi um sucesso de crítica, mas o momento de estouro veio meses depois, com o single “Good Luck, Babe!”.
A cantora vinha de uma apresentação viral durante o Coachella 2024 e a nova canção se aproveitou dessa atenção toda — além de um empurrão do TikTok — para virar um hit. O single logo chegou à 4ª posição nas paradas americanas e estabeleceu Chappell como uma estrela. Vale ressaltar, 100% independente.

Chappell Roan é drag ou não é?
Ao longo dos anos, Chappell Roan sempre foi bastante aberta sobre o papel da cultura drag na sua persona artística. Em entrevista ao programa Q with Tom Power (via G1), ela mencionou a influência de uma queen chamada Crayola para ela perceber esse fato:
“[Crayola] me viu me arrumando e disse: ‘Amor, você não está só passando maquiagem. Você é uma drag queen’. E isso mudou muita coisa, e eu levei isso como uma identidade. Foi muito libertador pensar em Chappell Roan como meu projeto drag.”
Entretanto, essas declarações causaram polêmica na comunidade por causa de alguns praticantes que não acreditam na possibilidade de mulheres drag queens. Isso porque para essas pessoas, a prática na sua essência trata-se de uma performance do gênero oposto ao seu.
Em entrevista ao G1, Douglas Ostruca, transformista, pesquisador e editor do projeto Grafia Drag, discordou desse conceito. Segundo ele, a chave do drag está na montação, o processo de aplicar maquiagem, roupas e elementos para assumir outra persona. Nesse aspecto, Douglas é categórico:
“Chappell tem a sua montação. E se ela se afirmar como drag queen, ela é uma drag queen. Não legitimar isso pode ser um argumento machista.”

Em 2025, Chappel Roan recebeu talvez o maior apoio possível dentro da comunidade. A cantora apareceu como jurada na 10ª temporada de RuPaul’s Drag Race All Stars.
Direitos de artistas
Ao aceitar o prêmio de Artista Revelação na 67ª edição do Grammy, em fevereiro de 2025, Chappell Roan chocou a indústria musical ao fazer um discurso sobre a realidade de ser artista. Antes de fazer sucesso, ela precisou de empregos temporários para arcar com as contas enquanto não tinha gravadora, e por isso desafiou os executivos presentes na cerimônia a considerar pagar um salário aos artistas, para que consigam viver exclusivamente de sua arte enquanto sob contrato.
Em resposta a esse discurso, o executivo Jeff Rabhan escreveu um artigo de opinião para The Hollywood Reporter no qual chama Roan de ingênua sobre a realidade da indústria musical. Segundo ele, as gravadoras não têm responsabilidade com artistas além de adiantamentos e royalties. Além disso, desafiou a cantora a ela mesma fazer algo a respeito.
Chappell então desafiou Rabhan a igualar uma doação dela de US$ 25 mil destinada a artistas sem contrato. O executivo recusou, com o argumento que não era sua responsabilidade, mas sim dos artistas.

Nova turnê e álbum
Em março de 2025, Chappell Roan lançou o single “The Giver”, que chegou ao 5º lugar nas paradas americanas. O mês de julho do mesmo ano foi a vez do compacto “The Subway”, cujo pico foi a 3ª posição.
Desde então, a cantora não lançou material novo. Em entrevista à Rolling Stone EUA, Chappell afirmou que talvez demore cinco anos para o sucessor de The Rise and Fall of a Midwest Princess sair:
“O segundo projeto ainda não existe. Não há álbum. Não há uma coleção de músicas… Levei cinco anos para escrever o primeiro, e provavelmente vai levar pelo menos cinco para escrever o próximo.”
Enquanto isso, Chappell está na estrada. Ela embarcou na turnê Visions of Damsels & Other Dangerous Things em junho de 2025 — e esse será o espetáculo que vem para o Lollapalooza Brasil 2026.
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