Future finalmente decide se abrir em ‘The Real Me’
Depois de décadas construindo uma persona, o rapper escolhe a vulnerabilidade
Kadu Soares (@kadusoares__)
Quando o assunto é trap, não tem como não falar de Future. O rapper de Atlanta é um dos maiores e melhores nomes do gênero, justamente porque construiu um som — e o sustentou — ao longo de décadas. Começou com mixtapes (de Dirty Sprite a Astronaut Status); entre elas, MONSTER (2014), que se tornou referência e consolidou seu estilo. Nos anos seguintes, vieram sucessos como DS2 (2015), o autointitulado de 2017, HNDRXX no mesmo ano e projetos colaborativos com Drake, Juice WRLD e Metro Boomin. Sempre com um som cheio de ego, excessos, festas e toxicidade, raramente mostrou seu lado mais pessoal. Até que ele anunciou The Real Me, projeto de 16 faixas sem nenhuma participação e uma promessa em forma de título — mostrar quem realmente é, sem essa armadura e marra do trap.
The Real Me soa como a confissão de alguém que passou décadas escondido atrás de um personagem. Future fala sobre estar no topo e, ainda assim, sentir um vazio persistente; sobre estar sozinho; sobre o sucesso material não preencher buracos emocionais. De forma hipnótica, somos conduzidos para dentro da cabeça do rapper, que se perde no próprio fluxo de pensamentos em tempo real.
“Build a Bitch” e “No Misery” são os exemplos mais claros dessa abordagem. Na primeira, Future articula a construção de um relacionamento ideal, listando atributos perfeitos: “Bastante amor-próprio, é, e muito potencial / Um monte de confiança”, canta. Em “No Misery“, ele reflete sobre estar no topo materialmente, mas no fundo do poço emocionalmente. Mais à frente, aborda o fascínio por mulheres “exóticas” e viagens do outro lado do globo em “Konnichiwa“; e, em “One Two“, usa canções infantis para catalogar os elementos do trap presentes em sua vida (drogas, mulheres, traficantes, diamantes).
Musicalmente, o disco flutua entre o minimalista e o experimental. Future carrega sozinho o projeto de forma coesa, com batidas sombrias e sintetizadores alienígenas e caóticos, sempre colocando alguns samples mais tranquilos aqui e alguns monólogos para respirar ali. Ainda assim, 16 faixas é demais.
“Alice“, um interlúdio pop que pouco acrescenta, soa deslocada. “2018” é a faixa mais fraca: os vocais agudamente autotunados incomodam, apesar da reflexão interessante sobre estar no auge e, ainda assim, perdido. “Kick” e outras músicas da segunda metade parecem inseridas apenas para completar a tracklist e não agregam à narrativa central. Aos poucos, o disco perde força; a intimidade que Future constrói nos primeiros parágrafos se dissipa. O que começa como uma confissão privada vira um monólogo cansativo.
De toda forma, The Real Me é um trabalho bem feito, sem dúvida. É sólido e bem produzido, tem músicas que devem se tornar clássicas do rapper nos próximos anos, mas o que mais impressiona é o risco que Future correu ao se abrir assim, ao abandonar a fórmula que o manteve no topo por tanto tempo. Ele passou décadas falando de ego, excessos e bens materiais — e entregou tudo isso em alto nível. Mas aqui, em The Real Me, escolheu falar de vazio, de solidão, de relacionamentos quebrados. E fez isso sem perder qualidade, sem soar forçado, ou como se estivesse fazendo por fazer. É um Future diferente, mas ainda Future. Em um ano cheio de bons álbuns de trap, sem dúvida The Real Me merece ser notado.
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