Cypress Hill anuncia álbum inédito em espanhol e promete conquistar novos fãs no Lollapalooza
Eric Bobo fala em entrevista exclusiva sobre volta ao Brasil após quatro anos, versão orquestrada de “Insane in the Brain”, fusão de hip hop com rock e novo material com “tudo novo”
Kadu Soares (@soareskaa)
Quatro anos. Foi o tempo que o Cypress Hill ficou longe do Brasil desde a última passagem, em 2022. Agora, em 2026, o grupo retorna ao país pro Lollapalooza 2026 em meio à turnê do álbum Black Sunday Live At The Royal Albert Hall (2025) — o projeto que revisitou clássicos gravados ao vivo e com uma orquestra. Mas a banda não vem só revisitar o passado. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Eric Bobo, percussionista do grupo, revela que acabaram de completar um álbum inédito, todo em espanhol, previsto para os próximos meses. “Tudo novo”, ele reforça.
Mas antes disso, o show! A expectativa é clara: reencontrar o público brasileiro que sempre recebeu a banda com energia absurda, e conquistar quem ainda não viu o Cypress Hill ao vivo. “Todos os shows que fizemos no Brasil, a multidão foi incrível. Foi muita energia e espero que seja assim”, diz Eric. “O que eu espero é ver muitos rostos novos, pessoas que nunca viram o Cypress Hill antes, provavelmente ouviram falar através de seus irmãos mais velhos ou talvez até de seus pais”.
A banda foi a primeira atração do Lollapalooza 2026 a anunciar shows paralelos no Brasil. Mas a agenda brasileira da banda passou por mudanças significativas pouco mais de um mês antes das apresentações. O show marcado no Rio de Janeiro, em 22 de março, foi cancelado sem comunicado oficial detalhado. Na mesma data, foi anunciada nova apresentação em São Paulo. Em Porto Alegre, a performance do dia 17 de março saiu da KTO Arena e foi transferida para o Opinião, na mesma data. E perguntado sobre toda essa confusão, Bobo explicou: “Acho que foi uma decisão da organização. Sabe, estamos prontos o tempo todo, sabe, para fazer o nosso trabalho. Mas, sim, foi meio novidade para nós também”.
“Temos que ser nós mesmos”
Quatro anos é tempo suficiente pra mudar. Não drasticamente, mas o bastante pra perceber que algumas coisas ficaram pra trás. Eric Bobo é honesto quando perguntado sobre o que mudou nele desde 2022: “Eu não vou a tantas festas pós-show”. O estilo de vida da estrada cobra seu preço. E com o tempo, as prioridades se ajustam. Menos festa, mais cuidado. “Eu me cuido um pouco melhor em termos de saúde”.
Mas o que não mudou — e provavelmente nunca vai mudar — é o amor pela música. “Meu amor pela música e por me apresentar não mudou. Eu realmente gosto de estar em casa e relaxar e ainda trabalhar”.
O Lollapalooza é território desafiador. Público diverso, gerações misturadas, gente que vai ver um headliner mas acaba descobrindo outras coisas pelo caminho. E o Cypress Hill sabe que nem todo mundo ali vai conhecer a discografia completa. Muitos talvez só conheçam um ou dois hits. Alguns podem estar ali por curiosidade. Como conquistar essa multidão?
Eric tem a resposta mais simples possível: “Nós apenas temos que ser nós mesmos”. A banda já esteve em situações parecidas antes — festivais onde se perguntavam internamente: “Por que estamos aqui? Deveríamos estar aqui?” Festivais onde precisaram conquistar plateias céticas, públicos que não eram naturalmente seus. E sempre conseguiram. “Nós somos o Cypress Hill. Fomos capazes de nos apresentar na frente de qualquer gênero e ainda sentimos que podemos fazer isso”, explica.
A versatilidade do Cypress Hill é rara. Conseguem se encaixar num festival de rock, num festival de reggae, num evento de música clássica. A fusão que criaram entre hip hop, rock e elementos latinos sempre foi seu diferencial. E continua sendo. “Mesmo que seja um festival todo de rock, todo de reggae, ou algo clássico, nós podemos nos encaixar”. Eric não tem dúvidas: “Estou ansioso pra conquistar os novos fãs porque sei que vamos conseguir”.
E por isso, se cria mais um desafio: montar uma setlist que reflita essa confiança e equilibre as expectativas. “Definitivamente haverá alguns clássicos, mas talvez algumas músicas diferentes ou também talvez fazer algumas músicas mais novas. Se é algo que gostamos, acho que a multidão também vai gostar”.
“Insane in the Brain” é uma que não pode faltar. Não importa onde seja — pode ser numa arena gigante, pode ser num festival, pode ser num clube pequeno. A reação da plateia é sempre a mesma. Mas, depois de tocar a música milhares de vezes ao longo de décadas, será que ainda rola alguma emoção especial?
Eric é honesto sobre a dualidade. Quando a música toca aleatoriamente em alto-falantes de algum lugar — um bar, uma loja, um aeroporto — a sensação é meio de cansaço. “É tipo: ah, cara, de novo. Sinto que estou no trabalho”. É compreensível. Quando você vive com uma música por tanto tempo, ela pode virar automática.
Mas ao vivo é completamente diferente. “Quando estamos tocando e apresentando, é ótimo porque a multidão reage como se fosse uma música nova. Como se tivessem acabado de ouvi-la. Quando você tem pessoas novas indo te ver e nunca viram você fazer aquela música ao vivo, é uma coisa grande”.
Então a filosofia é clara: tratar cada performance de “Insane in the Brain” como se fosse a estreia. “Temos que apresentá-la como se tivesse acabado de sair, como se fosse o novo single”. E isso não vale só pra essa música. Vale pra todo o repertório. “Todas as músicas, você tem que fazer assim. Porque se você faz meio sem vontade, acho que a multidão vai perceber”. É uma questão de respeito. De profissionalismo. De entender que as pessoas compraram ingresso, se deslocaram, investiram tempo e dinheiro pra estar ali. Elas merecem a melhor versão do show. “A multidão quer ver um show, eles não querem ver você fazer pela metade”.
Em 2022, o Cypress Hill lançou Back in Black (2022), álbum que marcou seu retorno depois de anos. Mas foi em 2024 que veio a grande surpresa: a versão orquestrada de algumas das músicas mais icônicas da banda, incluindo faixas de Black Sunday. Ouvir “Insane in the Brain” através de uma orquestra completa pela primeira vez foi revelador até pra quem criou a música.
“Muita da nossa música pode se adaptar a um tipo de coisa orquestral, mas ouvir algumas daquelas músicas feitas assim foi incrível”, Eric conta. A estrutura das composições do Cypress Hill — apesar de aparentemente simples na superfície — tem camadas que se prestam bem a arranjos mais complexos. E quando uma orquestra entrou na jogada, essas camadas ganharam nova dimensão. “Deu uma vida diferente. Foi mais completo, os arranjos foram incríveis”.
Músicas que já existem há décadas de repente soavam frescas, expandidas, cheias de detalhes que antes estavam implícitos e agora explodiam.
Novo álbum em breve!
Mas além da turnê orquestrada que traz ao Lollapalooza, há novidade no horizonte. O Cypress Hill acabou de completar um álbum novo — previsto para os próximos meses — que promete surpreender. É todo em espanhol. Todo. “Tudo novo”, Eric reforça.
A banda já tinha explorado o idioma antes. Los Grandes Éxitos en Español (1999) trouxe versões traduzidas de clássicos. Foi um projeto interessante, mas era basicamente adaptar o que já existia. Este álbum novo é diferente. “Este é todo material novo, tudo novo”. Faixas inéditas, compostas em espanhol desde o início. Letras pensadas no idioma, não traduzidas depois. É uma diferença fundamental.
O Cypress Hill sempre teve forte conexão com a cultura latina — afinal, B-Real e Sen Dog são de ascendência mexicana e cubana, respectivamente. “Estamos animados com isso”, Eric diz. E dá pra sentir a empolgação genuína.
Quatro anos depois da última passagem pelo Brasil, o Cypress Hill volta pra mostrar que continua relevante, criando, evoluindo. De rostos novos na plateia a material novo em espanhol, a mensagem é clara: autenticidade vence. “Temos que ser nós mesmos”.
No Lollapalooza, vão tocar “Insane in the Brain” como se fosse novo single. Vão performar clássicos com a mesma energia de sempre. Vão criar aquela jornada musical que só décadas de estrada ensinam a fazer. E depois, quando a poeira baixar e a turnê terminar, vem o álbum em espanhol — prova de que, mesmo depois de tudo, ainda há muito pra dizer.
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