David Gilmour, 80 anos: o guitarrista da genialidade descomplicada
De sucessor de Syd Barrett a inimigo mortal de Roger Waters, músico tomou para si o Pink Floyd e é reverenciado em seu instrumento sem jamais ter sido um virtuose
Guilherme Gonçalves (@guiiilherme_agb)
Na obra de David Gilmour, as notas têm tanta importância quanto a ausência delas. O uso do silêncio é tão vital quanto o som. A genialidade opera em modo descomplicado, fazendo do guitarrista britânico quase um plebeu aos olhos da aristocracia do rock progressivo.
Não é raro, por exemplo, vê-lo subjugado perante Steve Howe (Yes), Robert Fripp (King Crimson) e Steve Hackett (Genesis) em discussões acaloradas sobre quem detém o trono da guitarra no prog. O tema pode até ser sedutor, mas, para além da subjetividade inerente, empalidece se admitirmos que Gilmour transcende, mais do que qualquer um deles, as fronteiras do gênero.
David Gilmour: de substituto a protagonista
Ao entrar para o Pink Floyd em 1968, David Jon Gilmour, nascido em Cambridge a 6 de março de 1946, deveria apenas preencher a lacuna do então errático Syd Barrett, que fisicamente ainda era parte da banda, mas mentalmente já não estava mais lá. Ele, no entanto, foi além.

Apesar de Roger Waters ter sempre a rédea criativa no que se refere às letras e ao tema central dos discos, a partir de Meddle (1971) Gilmour se insere cada vez mais como parte fundamental na engrenagem floydiana. Contribuiu em diversas frentes: compondo, cantando, solando e idealizando arranjos em músicas decisivas no repertório da banda, tais como “One of These Days”, “Echoes”, “Breathe (In the Air)”, “Time”, “Wish You Were Here” e “Comfortably Numb”.
Se o Pink Floyd furou a bolha do prog e arrebatou em grande escala o público geral do rock, muito se deve à guitarra cativante e ao vocal mais acessível de Gilmour. Das cinco canções mais ouvidas da banda no Spotify, três são cantadas exclusivamente por ele: “Wish You Were Here” (2º), “Money” (4º) e “Breathe (in the Air)” (5º). Já em “Another Brick in the Wall, Pt.2” (1º) e “Comfortably Numb” (3º), divide o microfone com Waters.
Ostentando obras-primas como The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977), o Pink Floyd ajudou a moldar o cânone do que hoje se convencionou a chamar de classic rock, algo que engloba não apenas som, mas também estética e costumes. E Gilmour, por sua vez, se tornou o arquétipo do guitarrista idolatrado por homens brancos, cisgêneros e heterossexuais, juntamente com Eric Clapton e Jimmy Page.
O Pink Floyd liderado por David Gilmour
No entanto, a relação entre as duas forças criativas da banda azedou na segunda metade dos anos 1970 e se rompeu de vez na década seguinte. Com a saída de Roger Waters em 1985, David Gilmour tomou para si o Pink Floyd e nunca mais olhou para trás. Entre erros e acertos, o grupo lançou mais três álbuns — A Momentary Lapse of Reason (1987), The Division Bell (1994), The Endless River (2014) — e manteve vivo o legado.

Em carreira solo, lançou cinco trabalhos de excelente qualidade, com destaque para o disco de estreia de 1978 que leva apenas seu nome, About Face (1984) e o mais recente, o belíssimo Luck and Strange (2024).
Mestre do feeling, da emoção e de recursos como bend (esticar a corda para elevar seu tom) e sustain (capacidade da nota ressoar e permanecer audível por mais tempo após ser tocada, com auxílio do equipamento), David Gilmour costuma fazer com uma ou duas notas o que outros guitarristas precisam de uma escala inteira para conseguir. Algo que, conforme revelou em entrevista de 2002 ao The Telegraph, surgiu como uma espécie de mecanismo de defesa, já que não tinha tanta agilidade para tocar e jamais foi um virtuose:
“Eu simplesmente não tenho uma coordenação muito boa entre a mão esquerda e a direita. Meus dedos são muito lentos. Eu não conseguia fazer o que todos esses outros guitarristas conseguiam, então tive que fazer algo diferente. Eu não tinha o dom de uma velocidade enorme na guitarra. Houve anos, quando eu era mais jovem, em que pensei que conseguiria isso se praticasse o suficiente. Mas isso simplesmente nunca iria acontecer.”

Com essa solução, desenvolveu a capacidade de deixar as notas praticamente suspensas no ar, vide os solos antológicos e dilacerantes de “Confortably Numb”, “Dogs”, “Time” e “Pigs (Three Different Ones)”, dentre outros.
Roger Waters reconhece a genialidade
O que, infelizmente, também acabou dilacerada foi a amizade com Roger Waters. Ambos se tornaram inimigos mortais, com direito a troca de farpas constantes, seja em entrevistas ou pelas redes sociais. Nesse âmbito da internet, a esposa de Gilmour, Polly Samson, entrou na briga e não é raro vê-la atacando o ex-baixista e vocalista do Pink Floyd para defender o marido.
Waters, embora tenha limado partes da guitarra de Gilmour em sua versão “redux de The Dark Side of the Moon, lançada em 2023, manteve o bom senso ao comentar nas redes sobre os solos do ex-parceiro e atual desafeto:
“Eu adoro os solos de guitarra de Dave no The Dark Side of the Moon, todos os solos, e em Wish You Were Here, Animals, The Wall e em The Final Cut. Na minha visão tendenciosa, os solos de Dave nesses álbuns constituem uma coleção de alguns dos melhores solos de guitarra da história do rock and roll.”
Difícil discordar, Roger. Do alto de seus agora 80 anos, David Gilmour tem uma longa ficha corrida de serviços prestados à música, a qual jamais se apagará. O guitarrista da genialidade descomplicada faz o sofisticado parecer simples, num falso prosaico que, na verdade, é a constante banalização da excelência.
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