ENTREVISTA

Dream Theater fala à RS sobre shows no Brasil, ‘Parasomnia’, ‘A Change of Seasons’ e futuro

Banda prog americana realiza seis shows no país em maio; James LaBrie aproveita ocasião para revelar seu top 4 de álbuns do grupo

Igor Miranda (@igormirandasite)

James LaBrie, vocalista do Dream Theater, em 2025 (Foto: Per Ole Hagen / Redferns)
James LaBrie, vocalista do Dream Theater, em 2025 (Foto: Per Ole Hagen / Redferns)

James LaBrie garante ficar surpreso sempre que vem com o Dream Theater ao Brasil. E olha que as visitas são constantes: em 2026, a importante banda americana de metal progressivo realizará sua décima segunda turnê nacional, com seis shows ao todo. Porto Alegre (03/05), Curitiba (05/05), Brasília (07/05), São Paulo (09/05), Rio de Janeiro (10/05) e Belo Horizonte (12/05) receberão o grupo desta vez, em uma turnê comemorativa de seus 40 anos de existência.

“Sinto que toda vez que vamos aí, parece que tudo só cresce e melhora”, conta o vocalista, em entrevista à Rolling Stone Brasil, destacando o constante crescimento do público por aqui. Em seguida, ele aponta a diversidade etária. “Quando olho para o público daí, vejo muita gente muito jovem, de 15 a 20 anos. Daí vai direto para, sei lá, pessoas de 60 a 70 anos. É loucura. Mas também é inspirador porque vemos que os jovens começando a se interessar por nós e realmente amando a música. É o que todo artista quer.”

Dream Theater (Foto: Divulgação)
Dream Theater (Foto: divulgação)

Nesta nova rodada de apresentações — a segunda em território nacional desde a volta do baterista original Mike Portnoy, ausente entre 2010 e 2023 —, o quinteto completo por John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo) e Jordan Rudess (teclados) oferece um repertório de quase três horas, dividido em três atos bem específicos:

  1. O show se inicia com a execução integral do álbum mais recente, Parasomnia (2025);
  2. No meio, sons de vários momentos da carreira são executados, a exemplo de “As I Am”, “The Enemy Inside”, “Peruvian Skies”, “The Dark Eternal Night” e “Take the Time”;
  3. Ao fim, um atrativo para os fãs mais dedicados: a performance completa da épica música de 23 minutos “A Change of Seasons”, em celebração ao seu 30º aniversário.

Ato 1: Parasomnia

James LaBrie define Parasomnia como um álbum “temático, até conceitual”, pois as letras todas se conectam com o conceito por trás dos distúrbios de sono. Por isso, faz todo o sentido tocá-lo por completo ao vivo, dos singles “Night Terror” e “A Broken Man” à longa conclusão “The Shadow Man Incident”, com seus 19 minutos e meio.

“No palco, [Parasomnia] assume uma dimensão totalmente nova. Para mim, é dez vezes mais épico e intenso, porque realmente consigo sentir cada elemento que buscamos. Você sente isso porque está no momento, sabe? Também sinto que os fãs estão entendendo as músicas de uma nova forma. Quando, por exemplo, ouvi ‘Dead Asleep’ pela primeira vez, achei uma música legal, mas quando ouvi ao vivo, fiquei tipo: ‘meu Deus’, sabe? Ganhou um significado novo para mim.”

A reação do público a esta parte do repertório, segundo LaBrie, transcende a contemplação natural a músicas que ainda não entraram no imaginário popular. O cantor garante que os fãs demonstram envolvimento completo, com direito a rodinhas de moshpit — algo pouco comum em shows do Dream Theater — durante a pesada faixa “Midnight Messiah”.

“Essa música é pesada, ‘na cara’ mesmo, tem um groove ótimo. Muito contagiante desde o começo. E é muito parecida com ‘As I Am’, ‘Pull Me Under’ e ‘Home’. As pessoas se soltam na rodinha e nós adoramos isso. Quer dizer: eu fico feliz por estar em cima do palco e não lá embaixo na rodinha. [Risos]”

Ato 2: O miolo do set

A parte central do repertório é a que permite mais variações. Canções como “As I Am”, “Pull Me Under” e “Peruvian Skies” quase sempre estão presentes, mas vez ou outra podem surgir outras pérolas. A função de definir o setlist voltou a estar nas mãos de Mike Portnoy e isso pode garantir aos fãs algumas surpresas, conforme explicado por James LaBrie.

“A maioria das músicas permanece dentro do repertório para toda a turnê, mas sempre haverá pequenas mudanças sutis aqui e ali. Mike Portnoy voltou para a banda e reassumiu a liderança na criação do setlist. Ele é extremamente metódico e analítico na elaboração: ele olha para a última vez que estivemos em qualquer cidade ou país: ‘O que tocamos lá da última vez? Ok, então vamos variar’.”

James LaBrie e John Petrucci do Dream Theater em 2025 (Foto: Anne-Marie Forker/Redferns)
James LaBrie e John Petrucci do Dream Theater em 2025 (Foto: Anne-Marie Forker / Redferns)

Nesta seção do espetáculo, é praticamente garantida a presença de ao menos uma música dos cinco álbuns gravados com Mike Mangini, baterista que substituiu Portnoy durante sua ausência de 13 anos. Normalmente a escolhida tem sido “The Enemy Inside”, mas no lugar dela, “Barstool Warrior” também pode aparecer. Sobre os trabalhos registrados com Mangini, LaBrie declara:

“Tenho muito orgulho dos álbuns que fizemos com Mike Mangini. Ele fez um trabalho soberbo, ele é um ótimo baterista, tem um estilo único: e ter uma identidade própria é o que faz qualquer baterista interessante e intrigante. Eles têm algo que pode ser sutil, mas são todas aquelas nuances e inflexões que criam com seu instrumento que fazem eles quem são. Tocar músicas da era Mike Mangini é importante e necessário porque é parte de quem somos. É Dream Theater, com outro baterista.”

Ato 3: “A Change of Seasons”

Antes da turnê atual, o Dream Theater não tocava “A Change of Seasons” na íntegra com Mike Portnoy desde 2004 — e nunca havia rolado no Brasil. Em anos seguintes, o épico havia sido revisitado com Mike Mangini em 2017, mas executá-lo com o baterista original é, nas palavras de James LaBrie, como “voltar para casa”.

O cantor, que se juntou à banda em 1991 — ou seja, após o lançamento do álbum de estreia, When Dream and Day Unite (1989) —, conta que “A Change of Seasons” foi uma das primeiras músicas que gravou junto dos colegas. O lançamento se deu apenas em 1995, num EP homônimo, porém o planejamento era disponibilizar a longa faixa em Images and Words (1992), disco que se tornaria o grande sucesso comercial do grupo.

“Essa é uma das primeiras músicas que gravei com o Dream Theater. Muitos não sabem, mas ‘A Change of Seasons’ foi originalmente planejada para estar no Images and Words. Mas era o nosso primeiro álbum com a Atco/Atlantic (gravadora), então eles disseram algo como: ‘sentimos que esse álbum deveria ter apenas músicas concisas, mesmo que algumas fossem longas’. Acharam que seria demais incluir uma música de quase 25 minutos no álbum. Na época, o Dream Theater ainda não tinha se consolidado, não éramos conhecidos antes de Images and Words. Éramos quase insignificantes. Embora When Dream and Day Unite tenha recebido certo reconhecimento da crítica, ainda éramos muito underground.”

Fato é que, para James, “A Change of Seasons” foi amor à primeira escutada. Ao ouvir a faixa, o vocalista canadense logo traçou um paralelo com o Rush, ícones do rock de seu país e, não por acaso, idolatrados pelos instrumentistas do Dream Theater.

“Lembro da primeira vez que ouvi essa música. Achei incrível. E me lembrou bastante o Rush. Há muita influência forte do Rush ali. E eu amo Rush. Cresci ouvindo Rush desde que eu tinha uns 11 anos. Lembro logo do primeiro álbum, homônimo, e depois ouvir Fly by Night (1974), Caress of Steel (1975), 2112 (1976), A Farewell to Kings (1977) e Hemispheres (1978). Enlouqueci com essa banda, por isso pensei ‘uau’ ao ouvir ‘A Change of Seasons’. Poder tocar isso ao vivo mais uma vez com o Mike — que tem o feeling dele e consegue ler isso de forma magistral — é lindo.”

Ato 4: O futuro — e os favoritaços de James LaBrie

Pela forma como James LaBrie elaborou sua resposta, o Dream Theater deve concluir a atual turnê mundial no Brasil, já que, segundo ele, os compromissos vão até maio. E depois disso? Será que eles já pensam em um novo disco de inéditas para suceder Parasomnia? “Já temos cinco álbuns compostos e faremos mais ainda!”, responde o cantor, aos risos, antes de falar sério:

“Um novo álbum é a intenção. Mas sempre que abordamos um novo álbum, é sobre como nos sentimos em relação ao momento atual da vida. O que está nos afetando ou inspirando? E, mais importante, o que sentimos que deveria ser o próximo capítulo do Dream Theater? Geralmente fazemos essa transição aos poucos, quando sabemos que vamos entrar no estúdio. É aí que começamos a ter as conversas: ‘ei, o que vocês acham de talvez um álbum desse tipo?’. Independentemente disso, cada um chega com sementes de ideias. Dito isso, agora o foco é na turnê mundial. Estaremos em turnê mundial até… meados de maio, se não me engano. Depois, vamos dar uma pausa. Provavelmente no final de 2026 ou início de 2027, vamos começar a escrever e gravar um novo álbum. Esperamos que no final de 2027 ou início de 2028 a gente volte a planejar a nova turnê. Nada disso é concreto, mas parece ser essa a ideia neste momento.”

Como a turnê atual celebra o 40º aniversário do Dream Theater, a pergunta final obrigou James LaBrie a olhar em retrospecto: quais os três melhores álbuns da banda na opinião dele? Na resposta, o cantor citou quatro.

“Para mim, obviamente Images and Words está lá no topo, assim como Scenes from a Memory (1999). E então [no terceiro lugar] há uma disputa difícil entre Six Degrees of Inner Turbulence (2002) e Octavarium (2005). E os motivos para esses álbuns é porque acho que eles simplesmente representam o Dream Theater. Os épicos estão lá. As sutilezas. São álbuns ecléticos. Acho que cada um não apenas representa aquele período específico de nossas vidas e carreiras, como também mostra uma evolução imensa. Continuamos crescendo, aprendendo uns com os outros, nos desafiando e mantendo tudo com frescor, de forma que sentimos oferecer algo não apenas intrigante para nossos fãs, mas que também mantém o nosso interesse. É o jeito que eu descreveria.”

Dream Theater no Brasil em 2026

  • 03/05: Porto Alegre (Auditório Araújo Vianna) — ingressos via Fastix
  • 05/05: Curitiba (Live Curitiba) — ingressos via Fastix
  • 07/05: Brasília (Dois Ipês / antigo Opera Hall) — ingressos via Clube do Ingresso
  • 09/05: São Paulo (Vibra São Paulo) — ingressos via Clube do Ingresso
  • 10/05: Rio de Janeiro (Vivo Rio) — ingressos via Clube do Ingresso
  • 12/05: Belo Horizonte (BeFly Hall) — ingressos via Fastix

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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