Geese fala à RS sobre ser ‘salvação do rock’, Brasil e Noel Gallagher
Show solo do vocalista Cameron Winter no C6 Fest é, segundo integrantes, uma missão de reconhecimento antes de uma desejada passagem pelo país
Pedro Hollanda (@phollanda21)
Desde que o rock ganhou o mundo, há quem declare determinados artistas a “salvação” do estilo. O Geese é o exemplo mais recente deste fenômeno. A banda indie nova-iorquina se tornou o nome mais badalado da indústria graças ao seu terceiro álbum de estúdio, Getting Killed, lançado em setembro último.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, três dos quatro integrantes — Emily Green (guitarra), Dom DiGesu (baixo) e Max Bassin (bateria) — exploraram como o sucesso de Getting Killed, eleito o 7º melhor disco internacional de 2025 pela revista, afetou o grupo completo por Cameron Winter (voz e guitarra). Bassin, em especial, aponta a constante discussão sobre a banda na imprensa e redes sociais:
“Acho que no dia a dia, as coisas continuam bem parecidas. Mas tem muita gente falando o tempo inteiro sobre a gente, o que pode ser bom e ruim. Algumas pessoas estão começando a ficar de saco cheio. Eu sei que a gente está de saco cheio. Mas é mais ou menos a mesma coisa. É estranho.”
Apesar do desconforto, há um aspecto dessa fama que os integrantes concordam ser positivo: os shows. Segundo DiGesu, o sucesso de Getting Killed aumentou o perfil do Geese, ao passo que a turnê do álbum será a maior da carreira da banda até agora.
“Estamos fazendo shows maiores. Fazemos mais shows para muito mais gente. E isso é legal.”
Admiradores e detratores do Geese
Grande parte da discussão sobre o Geese é impulsionada por alguns dos artistas mais idolatrados da história do rock. Exemplos:
- Nick Cave se revelou fã numa edição de sua newsletter The Red Hand Files, apreciando em específico a música “Trinidad”;
- Adam Clayton, baixista do U2, elogiou a “atitude radical sem regras” da banda na fanzine oficial do grupo irlandês, Propaganda;
- Patti Smith revelou, num post de Instagram, que o simples ato de ouvir no rádio a canção “100 Horses” lhe fez sentir otimista.
A opinião dos integrantes quanto a esses apoios de famosos difere, ainda que ligeiramente. Max Bassin garantiu não pensar muito sobre isso, enquanto Dom DiGesu e Emily Green mostraram gratidão. A guitarrista afirmou:
“Tem muitos músicos e artistas que escuto há muito tempo, que gosto e pelos quais tenho muito respeito. Ouvir isso deles, essa via de mão dupla de admiração recíproca é bem legal.”
Precisa-se dizer, nem todo famoso demonstrou admiração irrestrita pelo conjunto americano. Pelo Instagram. Courtney Love falou do Geese de maneira ligeiramente desconfiada. Entretanto, a ex-vocalista do Hole deixou claro posteriormente que gosta da música da banda. Só não é “fã” dos fãs.
Entre tantas celebridades, os integrantes do Geese ficaram deslumbrados ao conhecer… Mr. Met. A banda foi apresentada ao mascote do time de beisebol New York Mets – todos os integrantes são torcedores da equipe – após se apresentar no Brooklyn Paramount em novembro. Segundo Max Bassin, o encontro superou até mesmo a experiência de trocar uma palavra com Noel Gallagher durante o Brit Awards 2026:
“Mr. Met sei ao menos que é fã da banda. Não tenho certeza se Noel Gallagher sabe quem a gente é, mas talvez saiba. Talvez ele também estava muito nervoso de me conhecer, o que gosto de imaginar ser o caso.”

Brasil — e Cameron Winter no C6 Fest
Ainda que o Geese ainda não tenha um show marcado no Brasil, um integrante da banda toca no país em breve. O vocalista Cameron Winter é uma das atrações C6 Fest no dia 24 de maio, comandando o palco C6 Lab com espetáculo focado no seu álbum solo, Heavy Metal (2024). Os ingressos para a apresentação já estão esgotados.
Mas e o Geese? Dom DiGesu apontou que uma performance em território nacional é questão de tempo. Há desejo por parte do grupo, então não é uma questão de “se” e, sim, “quando”. Por enquanto, Winter fará um reconhecimento de campo, segundo Emily Green:
“Ele estará numa missão secreta do Geese.”
Turnê atual do Geese
A Getting Killed Tour acabou de encerrar uma passagem pela Europa na qual o Geese chamou atenção por alguns fatores. O primeiro foi a presença de músicas inéditas no repertório.
A banda desenterrou para três shows uma canção conhecida entre fãs sob o título “Here My Angels Come”, que já havia aparecido ao vivo em 2024, mas nunca foi lançada. A faixa era originalmente um space rock delicado ao estilo de bandas como Spiritualized e Spacemen 3, mas apareceu no setlist com um arranjo novo mais lento, similar a baladas de Getting Killed como “Au Pays du Cocaine”.
Entretanto, o público presente para o show do Geese no dia 15 de março no Astra, em Berlim, foi presenteado com a primeira música nova do grupo pós-Getting Killed. A canção, por enquanto chamada “Apollo”, imediatamente se tornou viral entre fãs devido à energia nervosa do arranjo e Winter repetindo a frase “I’m going to the moon” [“Eu vou é para a lua”] repetidamente.
Apesar da resposta positiva dos fãs, os integrantes não se comprometem a nada quando o assunto é o sucessor de Getting Killed. Segundo Emily Green, a banda ainda está no processo de descobrir o que vale a pena ou não:
“A gente, como banda, sempre está compondo e trabalhando em músicas novas. Se algo sai desse processo ou não, ainda fica-se a ver. Mas um show é um ótimo lugar para testar besteiras e ver o que o público pensa a respeito.”
Homenagens locais
Outro aspecto curioso da turnê está relacionado a uma música que não está em Getting Killed. Uma das tradições ao vivo do Geese é fazer uma interpolação no meio da canção “2122”, do álbum 3D Country (2023). Escolhas mais populares ao longo dos anos incluem “Interstellar Overdrive”, do Pink Floyd, e faixas do The Stooges.
Quando o calendário mudou para 2026 e a Getting Killed Tour começou sua expedição fora dos Estados Unidos, a banda resolveu usar esse momento da performance para homenagear o público local de cada parada da turnê. Durante uma apresentação em Fremantle, na Austrália, o Geese arriscou um trecho de “Highway to Hell”, do AC/DC. O Reino Unido, por sua vez, viu a banda incorporar Black Sabbath, Primal Scream, Stone Roses e Spacemen 3.
Quanto ao processo de escolha dessas interpolações, Max Bassin revelou que não existe nada planejado de antemão. A banda geralmente seleciona uma música na manhã do show, tenta aprender e… reza para que não seja um desastre na hora H.
“Acho que depende muito do lugar. Quando eu penso em cada cidade, é em termos de ‘o quão fácil seria para a gente fazer cover dessa música e não soar como um pesadelo?’.”
Isso traz novamente a questão de um eventual show no Brasil. Questionado se o Geese faria uma interpolação com uma música brasileira se tocasse no país, Bassin foi categórico:
“A gente faria uma, 1.000% de certeza. Tem muitos artistas brasileiros que nós todos amamos. Não acho que seria difícil para a gente pensar num cover legal de fazer.”
De quais artistas brasileiros eles são fãs? Bassin não quis revelar. O mistério só será sanado quando o Geese, enfim, vier para cá.
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