Gilsons sobre novo álbum: ‘Ele nasceu do lugar de atravessamento, mas também de esperança’
Nos estúdios da Rolling Stone Brasil, o trio conta detalhes de ‘Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão’
Kadu Soares (@soareskaa)
dos Tem momentos na vida em que a música deixa de ser sobre criar e passa a ser sobre sobreviver. José, João e Francisco Gil, os Gilsons, sabem disso. Quatro anos depois de Pra Gente Acordar (2022) — álbum de estreia que encheu o repertório de show e abriu diversas portas —, o trio voltou com um trabalho que não nasceu de planejamento estratégico ou sessão de brainstorming com a gravadora. Nasceu de um 2025 difícil, marcado por luto, turnês intensas e a necessidade de encontrar alguma luz no meio de tudo que estava acontecendo.
Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão (2026) tem nome comprido que mais parece frase que você repete para si mesmo quando tudo aperta. E é exatamente isso. São dez faixas, com participações de Arnaldo Antunes, Narcizinho (Olodum), Julia Mestre, Sona Jobarteh e a família Veloso (Caetano, Moreno e Tom), expansão sonora com cello e beats que os Gilsons nunca tinham explorado antes. Mas, antes de tudo, é um disco sobre atravessar.
“Criar esse álbum foi como atravessar tudo o que a gente viveu e, ainda assim, continuar”, resume o trio em entrevista à Rolling Stone Brasil. “O disco nasce desse lugar de atravessamento, mas também de esperança. É um projeto que traz um otimismo um pouco mais denso, porque não ignora a dor, não passa por cima do que foi vivido. É sobre olhar pra tudo isso com luz, mesmo quando a escuridão existe”, contam.
Uma sequência necessária
O segundo disco sempre vem carregado de expectativas, diferente do primeiro. Se Pra Gente Acordar foi o começo dos Gilsons, o que vem depois traz outro tipo de pressão. “Para o artista que está começando, o primeiro disco é aquele passe de entrada. Você consegue finalmente preencher um repertório de um show com músicas suas, que era uma coisa que a gente ansiava muito”, explica Francisco.
O show ganhou consistência. Vieram anos de muita estrada, muitos palcos, muito aprendizado. E foi isso que acabou distanciando o segundo álbum do primeiro. “A gente acredita que teve bastante tempo entre um e o outro mesmo, e isso é um baita privilégio, no final das contas. A gente poder ter tido tempo para deixar chegar esse momento.” Quando chegou — com força, em 2025 — abraçaram a ideia.
Mas aí mora um dilema clássico: repetir a fórmula que funcionou ou arriscar algo completamente novo? “A gente fica nessa lacuna: ou a gente vai para um lugar que a gente sabe que funciona, que vai agradar os fãs, mas ao mesmo tempo corre o risco de parecer repetitivo, de parecer sem inspiração. Ou você faz uma coisa que é muito diferente e aí você aliena as pessoas que já gostavam do seu som”, conta João.
A solução foi o meio do caminho. Fazer um som que ainda tem a cara dos Gilsons — violões, harmonias, identidade já consolidada — mas que ao mesmo tempo apresente assuntos novos, sonoridades novas, explorações além do que foram os lançamentos anteriores. “A partir do momento no qual as canções apareceram, que a gente viu o que ia ter ali para trabalhar em termos de assunto, em termos de letra, a produção acabou fluindo de uma forma bem constante.”
João vê como evolução, não revolução. “É como se a gente tivesse expandido esse campo sonoro que a gente já tinha. Ele tinha um tamanho antes e, agora, ele já tá um pouquinho maior”.
Consequência das vivências
A expansão sonora se deve, claro, à estética, mas também muito mais como consequência das vivências. “Tanto da vivência com as cordas, das vivências pessoais de cada um, que eram também compartilhadas em família. Então muitas canções vêm dessa energia como um todo de 2025”, explica João.
O ano de 2025 foi especialmente difícil para Francisco, que perdeu a mãe, Preta Gil. Foi nesse período — entre hospital e estúdio, entre luto e música — que nasceu “Visão“, a faixa que abre o disco e contém o verso que viria a se tornar o título.
“Tiveram momentos em que a música foi mais sobre acolher do que criar. Estar junto, cuidar um do outro, respeitar os silêncios. Esse disco nasceu muito desse lugar de afeto, de entender que seguir também é um gesto de amor”, conta Fran.
Não foi sobre fingir que está tudo bem. Foi sobre reconhecer que a escuridão existe, que 2026 ainda traz situações bizarras — pandemia no retrovisor, guerras enroladas, tudo que tá acontecendo no mundo. “A gente não consegue fechar os olhos para o que tem de errado, o que tem de ruim, mas ao mesmo tempo o que tem de bom também tá aí. E é mais o quanto a gente escolhe olhar”, conta João.
O mantra
Como Francisco contou, “Visão” nasceu nesse momento difícil — e o verso que dá nome ao álbum acabou se tornando um dos mais chamativos do disco inteiro. “É uma das frases que já bate diferente. É uma parada que você fica repetindo. Um mantra mesmo. Porque quando a gente fala de luz, é um conceito que se dissolve em vários lugares do disco. É um disco em que a gente acaba falando muito disso, da coisa do ciclo natural das coisas e da dualidade das coisas também.”
O nome do disco funciona como bom condutor. Quando você pega e amarra todas as canções numa estrutura, ele consegue sintetizar. “A gente foi feliz nesse sentido.” Não foi planejado com antecedência — tipo “vamos fazer um disco sobre isso e a partir daí escrever as músicas”. Pelo contrário. Quando viram o conjunto das músicas, quando começaram a entender as interseções de assunto, essa música saltou aos olhos. “Ela meio que dá título a um assunto que é bastante recorrente e que se dilui no álbum em outras canções e de outras formas.”
É um conceito em que Gilsons acredita bastante: reconhecer a escuridão como algo presente, como algo que está aí. “Esse mundo escancara isso para a gente o tempo inteiro.” Mas escolher onde colocar o foco. Escolher, dentro do possível, olhar à luz.
Preservar e expandir
Musicalmente, o disco se constrói a partir de dualidade complementar. De um lado, canções que abraçam a identidade já reconhecida dos Gilsons — violões, harmonias solares, raízes profundas na MPB. De outro, faixas que apontam para novos territórios, com texturas eletrônicas sutis, beats, camadas rítmicas.
“A gente nem trouxe tantos elementos novos em relação a sonoridade, justamente pra preservar um pouco do que a gente até acredita mesmo. Por sermos três, é muito importante essa unidade, uma interseção de gostos também, que os três gostem de alguma coisa”, explica João. A gente se encontra muito nesse lugar, nessa estética que tem hoje. “E era do nosso gosto preservar essa estética, expandi-la.”
As aventuras acontecem dentro desse campo expandido. “A gente se aventura ali, bota um pé num lugar que a gente não tinha: uma sonoridade, um arranjo de naipe mais completo, um pife que a gente não tinha trazido, algumas texturas, algumas instrumentações diferentes, cello, que era uma coisa que a gente não tinha trabalhado”.

José, assinando a produção musical, descreve o processo: “A gente quis dar um passo à frente sem perder a nossa gênese. Continuar apostando no toque humano, no que é gravado no estúdio, mas somando os beats, entendendo a concepção rítmica e expandindo esse universo.” João completa: “O projeto foi se formando a partir dessas intenções. Às vezes é o cello que puxa, às vezes o trompete abre um caminho pro arranjo. Tem faixas que são pura animação, quase uma celebração da felicidade, e outras que pedem silêncio”.
E essa experimentação também se faz presente nas participações ao longo do álbum. Enquanto Pra Gente Acordar não tinha nenhuma — já que o trio “queria realmente solidificar o trabalho como grupo e garantir a identidade” —, para o segundo disco havia desprendimento maior. Mais liberdade para aceitar as parcerias.
“Bem Me Quer“, parceria dos Gilsons com o Narcizinho, surgiu nesse período entre um disco e o outro, quando o cantor de Salvador — que também participou da composição de “Várias Queixas” — mandava composições para o trio. “A gente se conectou muito com o Narcizinho. Ele mandava sempre músicas, a gente falou: ‘Pô, vamos gravar uma música com ele, vamos perpetuar essa história, vamos nessa’.”
Virou single de abertura do álbum por um motivo: cumpre o papel de olhar para trás antes de seguir em frente. É agradecimento e ponte ao mesmo tempo. Traz referência direta à música afro-baiana, ao samba-reggae, ao Olodum, à Bahia que pulsa em tudo que fazem. “Ela cumpriu muito bem esse papel de assentar esse agradecimento por tudo o que a gente viveu, essa história importante com o Narcizinho que acaba simbolizando também muita coisa”.
Já “Minha Flor“, segundo single, vem pro lado contrário. “É uma música do João com Arnaldo“, apresenta Fran. E João desenvolve: “Começa sem beat, fica ali um minuto e meio quase sem nenhum beat. Tem uma harmonia um pouco mais diferente, é um pouco mais diferente do que já tinham produzido como Gilsons de forma geral. A gente queria justamente isso, alguma música que fizesse contraponto ao ‘Bem Me Quer‘.”
E aí veio o “aceite” da família Veloso: “Eles curtiram bastante a música, a gente amou a gravação. Vai ser sempre agradecido também a eles por colarem.” Para Gilsons, estar ali com Caetano — “essa figura incrível, de um valor muito forte” — e os meninos também, Tom e Moreno, é de um peso simbólico enorme. “A gente é superfã do Caetano, do Moreno e do Tom. É uma grande realização, e ainda mais sendo de uma composição que é parceria com o Arnaldo Antunes, que é outro grande compositor.”
Estúdio é científico, palco é religioso
Para celebrar juntos esse novo momento, Gilsons embarcam em 2026 na turnê mundial “Eu Vejo Luz”, com mais de 30 shows confirmados no Brasil e no exterior. A rota passa por cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte, além de datas na América do Sul, Europa, Austrália, Nova Zelândia e Portugal.
Mas trazer o disco pro palco é outro desafio. “Esse desafio de transpor toda essa complexidade do disco, desse pensamento com calma, para uma execução ao vivo, para uma execução ali na hora, como uma peça de teatro”, reflete João.

E aí o pai — no caso, Gilberto Gil — soltou uma frase que ficou marcada. “O estúdio é mais científico. O palco é mais religioso.” Francisco repete, João confirma: “Essa frase, vou levar pra vida.” A gente tem a possibilidade de ser mais cientista mesmo no estúdio, botar muitas camadas, pensar muita coisa, ser mais minucioso nos arranjos. O palco, na verdade, é o que se apresenta com os elementos que ali estão, com as mãos possíveis de se tocarem as coisas.
A gente vai se adaptar, vai ensaiar, mas tá muito animado. “A gente adorou esse processo no nosso primeiro disco. Acho que foi um processo que deu certo em relação às nossas propostas de palco, de usar os bits eletrônicos junto com as harmonias tocadas ali na hora e tudo mais, a percussão muito presente no nosso show ao vivo.” De alguma forma isso se mantém. A instrumentação do show vai ser muito parecida nesse sentido, e a partir disso pensar como trazer esse disco pro palco.
E sobre qual faixa eles estão mais ansiosos para cantar? “Zumbido“, dispara João. “Porque ela tem uma complexidade ali em termos de tempo. Ela não é aquele 4 por 4, ela é um 9 por 8.” Então pra tocar ela e cantar ao mesmo tempo é um pouco… tem uns desafios. “Ela é um pouco complexa, mas ela ao mesmo tempo tem uma energia que eu acho que na hora do show vai ser muito bom ver a turma dançando, como a galera vai receber.”
Eu Vejo Luz Em Maior Proporção Do Que Eu Vejo A Escuridão é um disco sobre atravessar a dor sem perder a capacidade de enxergar luz. É sobre transformar luto em música, silêncio em som, escuridão em algo que, mesmo existindo, não define tudo. “A gente tá aqui falando, mas é só escutando mesmo pra entender o que a gente tá dizendo um pouquinho”, finaliza João. E eles têm razão. Tem música que nasce pra curar quem faz e quem escuta. Esse disco veio deste lugar. Um lugar de cuidado, de família, de continuar acreditando na vida. Como quem repete um mantra até ele virar verdade.
Confira a entrevista completa:
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