Como o Gorillaz se reconectou e criou seu melhor álbum em anos
Damon Albarn e Jamie Hewlett discutem o luto através da música, a vida na era das bandas de desenho animado e arte com inteligência artificial
Simon Vozick-Levinson
A primeira voz que você ouve no nono álbum de estúdio do Gorillaz, The Mountain — a ser lançado em 27 de fevereiro —, é a de Dennis Hopper, falando suavemente sobre uma vibrante sonoridade indiana. Ouvintes atentos reconhecerão os vocais do falecido ator como uma sobra do álbum Demon Days, obra-prima de 2005 da banda de desenho animado.
“Eu simplesmente pensei: se vamos falar sobre o tema da morte, preciso de algumas pessoas que já morreram para me ajudar a falar sobre isso”, diz Damon Albarn, sentado ao lado do colaborador visual Jamie Hewlett em uma chamada de Zoom do sudoeste da Inglaterra. “De alguma forma, eles sabem mais sobre isso do que eu.”
Eles criaram este álbum após grandes perdas pessoais e uma viagem crucial à Índia, que os inspirou com novas ideias para os personagens animados Russel (bateria), Murdoc (baixo), Noodle (guitarra) e 2-D (vocal). Ao vasculharem seus arquivos, a lista de faixas cresceu e passou a incluir uma notável gama de colaboradores póstumos — o ícone do afrobeat Tony Allen, o grande nome do soul Bobby Womack, o pioneiro do rap Dave Jolicoeur (De La Soul), o vocalista pós-punk Mark E. Smith (The Fall) e muitos outros — juntando-se a lendas vivas como a cantora Asha Bhosle (92 anos), o rapper argentino Trueno (23 anos) e Black Thought (The Roots).
No fim, The Mountain se destaca como o álbum mais gratificante e substancial do Gorillaz em mais de uma década. “É como se fosse o próximo álbum depois de Plastic Beach, na verdade. É um universo à parte”, diz Albarn, referindo-se ao aclamado lançamento de 2010 que reuniu Lou Reed, Snoop Dogg e metade do The Clash.
No final deste mês, nos dias 22 e 23 de fevereiro, eles darão vida a esse universo em dois shows especiais no Hollywood Palladium, Estados Unidos, apresentando The Mountain na íntegra. Poucos dias depois, em 26 de fevereiro, eles trarão sua exposição imersiva House of Kong para Los Angeles, após uma temporada de sucesso em Londres. Eles insinuam que pode haver mais shows do Gorillaz nos EUA durante o outono do hemisfério norte.
Albarn também está compondo a trilha sonora e as músicas de Artificial, o próximo filme de comédia dramática do diretor Luca Guadagnino sobre a ascensão da tecnologia de inteligência artificial. “Eu tenho a oportunidade de compor música para o Elon Musk”, diz ele, antes de cantarolar a Marcha Imperial de Star Wars e rir.
Este promete ser um ano agitado para um grupo que recentemente celebrou seu 25º aniversário, mas Albarn e Hewlett parecem energizados enquanto conversam sobre música, luto, colaboração intercultural e muito mais.
Entrevista com Damon Albarn e Jamie Hewlett — Gorillaz
Por que vocês acham que este álbum ficou tão coeso?
Albarn: É porque passamos mais tempo juntos. Depois de Plastic Beach, Jamie mudou de vida drasticamente e se mudou para a França, o que foi um grande choque para o nosso relacionamento na época. Mas conseguimos nos reencontrar completamente. E acho que a viagem à Índia foi o ápice disso: Jamie e Damon, Parte Dois. Reconciliação e renovação dos votos.
Hewlett: Nos encontramos em uma sintonia muito parecida. O pai de Damon faleceu e o meu faleceu 10 dias depois. Pensamos: “OK, os temas deste disco estão começando a se apresentar para nós com bastante clareza.”
Damon, você nunca tinha ido à Índia antes, certo?
Albarn: Não. É interessante, sendo inglês, ir para lá. Além de toda a história colonial, alguém como eu cresceu em uma casa geminada no leste de Londres, ao lado de uma família indiana. A cultura indiana, seja hindu, muçulmana ou sikh, faz parte da essência de ser inglês. Com certeza, eu ouvia Ravi Shankar mais do que os Beatles quando era criança.
Como foi estar lá enquanto você estava de luto? Você achou inspirador?
Hewlett: Só a visita a Varanasi já foi uma experiência e tanto, ver as piras funerárias. Damon nadou no Ganges.
Albarn: Você não esquece isso tão cedo. É algo lindo, porque fica imediatamente imerso em milhares de anos de atividade espiritual, rituais, nascer e pôr do sol. Você simplesmente deixa tudo te envolver, e talvez parte disso te absorva e parte te assombre.
Quando surgiu a ideia de incluir todas essas vozes de pessoas que perdemos?
Albarn: No rascunho original, o Manifesto original do Gorillaz, escrito em 1999 por mim e pelo Jamie quando dividíamos um apartamento, o personagem Russel era capaz de evocar as vozes de músicos falecidos.
Hewlett: Ótima ideia. Levou 25 anos para realmente usá-la.
Vocês recentemente tocaram os três primeiros álbuns do Gorillaz ao vivo em Londres. Gostaram de revisitar esses materiais?
Albarn: Não sinto nenhum prazer em olhar para o passado.
Hewlett: Estamos muito focados no que vem a seguir. O que vem a seguir é empolgante.
Albarn: Acho que se as pessoas começam a dizer o quão incrível você era, é porque está faltando alguma coisa na sua vida. Entende o que quero dizer?
Albarn: Eu me vesti de padre para o Demon Days. Gostei muito.
Hewlett: Ele deveria ser o Padre Merrin de O Exorcista. Achei que seria um bom visual para o Damon.
Albarn: Eu adorei. Eu faria isso todas as noites, para ser sincero.
Falando em bandas de desenho animado, algum de vocês já viu K-Pop Demon Hunters?
Hewlett: Vou assistir. Meu filho mais velho fica me dizendo: “Você tem que assistir, pai”. Mesmo com 30 anos, ele gosta de animação.
Albarn: Eu achei que precisava ter filhos para assistir isso. Acho que não dá para assistir sozinho. É muito estranho.
Mas é engraçado, não é? Vocês tiveram essa ideia maluca de uma banda de desenho animado anos atrás, e agora isso é a maior coisa do mundo.
Albarn: [Risos secos.] Entre isso e aquele maldito show de hologramas do Abba, não sobrou nada das nossas ideias. Todas foram apropriadas e monetizadas de forma extrema.
Hewlett: Acho que o fato de sermos uma banda de desenho animado ajudou um pouco. Os jovens dizem: “O que é isso? Adorei a animação. Deixa eu ver.” Aí eles ouvem a música e dizem: “Nossa, adorei.” E isso atrai um público novo.
E os personagens nunca envelhecem, né? A Noodle começou criança e virou adulta, mas desde então, eles são eternos.
Hewlett: Bom, a gente não sabe o que vai acontecer depois. Estou trabalhando em algo.
Albarn: Eles precisam virar cubistas.
Hewlett: Ah, isso seria ótimo. Nossa.
Albarn: O Murdoc vira um retângulo verde [risos].
O que vocês dois acham do uso de IA na arte?
Hewlett: Bem, pessoalmente, eu não usaria no meu trabalho. Mas, ao mesmo tempo, a IA, se usada no mundo da arte, é uma ferramenta. Assim como quando o Photoshop surgiu. O que realmente importa é o que você faz com ela.
Albarn: Eu não sei como usá-la, então não tenho esse problema.
Hewlett: Já vi artistas que a usam muito bem. Mas tem muita gente que sabe digitar um comando no computador e obter uma imagem, e se considera artista, o que, para mim, é um pouco exagerado… Parte do motivo pelo qual você se apaixona pela obra de um artista é porque é a obra dele. É a visão dele, a história dele, e um computador está apenas coletando informações do mundo inteiro. Então não é a mesma coisa, né? Você não pode se apaixonar por isso. Não é como olhar para uma pintura de Van Gogh ou de David Hockney e se emocionar até às lágrimas.
Albarn: Acho que é cedo demais para dizer se podemos nos apaixonar por isso. É como Mao, quando lhe perguntaram sobre a Revolução Francesa, ele disse: “É cedo demais para dizer”.
Damon, é verdade que você nem sequer tem um celular?
Albarn: É verdade. É fácil. Você simplesmente perde um dia e não compra outro.
E quanto ao streaming? Você ouve música dessa forma?
Albarn: Nunca usei streaming na minha vida.
Considerando o panorama geral, vocês dois têm sido vozes eloquentes em prol do entendimento intercultural ao longo dos anos. Vocês acham que o mundo está caminhando na direção certa atualmente?
Hewlett: Tivemos a sorte de viajar bastante, então vimos o mundo e vivenciamos outras culturas, e isso nos beneficiou enormemente. Você cresce como ser humano ao aceitar as crenças e culturas de outras pessoas… Acho que a resposta é que estamos um pouco preocupados, mas tentando ser positivos em relação a isso. Especialmente neste novo álbum, a experiência de trabalhar com tantas culturas se unindo para criar um disco tão bonito — não seria tão bonito se fossem apenas dois caras ingleses com seus amigos.
Isso sempre foi uma parte importante do Gorillaz, unir diferentes pontos de vista, não é?
Albarn: É a essência, na verdade. Quer dizer, para mim, quando mudei do mundo do Blur para o Gorillaz, o que foi uma mudança de rumo bastante drástica… era tudo sobre isso. Tinha que ter essa comunidade, porque estamos obscurecidos pelos desenhos animados. A única maneira de haver uma verdadeira sensação de interação humana era com as pessoas com quem trabalhamos.
Todos esses anos depois, o Blur consegue fazer shows enormes na Europa, mas o Gorillaz ainda é muito mais conhecido aqui nos EUA. Como vocês se sentem em relação a isso hoje em dia?
Albarn: Sentimos isso no Coachella, quando viemos com o Blur [em 2024], que talvez houvesse um certo descompasso, nós estarmos naquele festival. É meio que a personificação das redes sociais hoje em dia, não é?
Hewlett: É o único festival em que os celulares não estão apontados para o palco, mas para a pessoa que está segurando o celular.
Vocês acham que o Blur voltará a tocar nos EUA algum dia? Já faz muito tempo desde o show que vocês fizeram no Madison Square Garden em 2015, que foi incrível.
Albarn: Algo assim é mais possível, sim. O único problema de tocar no Madison Square Garden, e eu já toquei lá algumas vezes, é que tem um monte de faixas para o… qual é o nome dele mesmo?
Billy Joel?
Albarn: Billy Joel. Qualquer sensação de conquista fica completamente destruída. Eu não aguento.
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