Há anos, J. Cole sabia que a queda era inevitável, então ele decidiu rimar sobre isso em ‘The Fall-Off’
Álbum duplo funciona como celebração de carreira e despedida de quem aceitou que não consegue mais estar no topo
Kadu Soares (@soareskaa)
Todo artista passa pelo mesmo ciclo. Começa como sonho — garoto no quarto ouvindo fita cassete, escrevendo rimas num caderno, imaginando palcos que ainda não existem. Cresce devagar, ganha reconhecimento em círculos pequenos, faz mixtapes que viralizam no subsolo. Aí vem a fama. O status, auge, prêmios, vendas, respeito e então, inevitavelmente, vem a nova geração. Mais jovem, mais rápida, fazendo som que você não entende completamente, ocupando espaços que eram seus. E você percebe: o ciclo não para em você. J. Cole viveu cada fase disso. The Come Up (2007) foi o sonho. The Warm Up (2009) e Friday Night Lights (2010) foram o crescimento. Cole World: The Sideline Story (2011) trouxe reconhecimento. Born Sinner (2013) consolidou. 2014 Forest Hills Drive foi o auge — platina sem features, adoração crítica, Cole no topo indiscutível. 4 Your Eyez Only (2016) e KOD (2018) mostraram maturidade. The Off-Season (2021) foi tentativa de provar que ainda tinha fome. E agora, The Fall-Off (2026), é aceitação. Dez anos para fazer. Vinte e quatro faixas. Quase duas horas. Álbum duplo que funciona como despedida de quem entendeu que não consegue mais se manter no topo — e tá em paz com isso.
Ao longo dos anos, Cole vinha deixando pistas sobre esse projeto. Em “my.life” do álbum The Off-Season, ele prometeu: “Depois de The Fall Off, eu prometo que vou vender o Wrigley’s“, referindo-se ao estádio de beisebol de Chicago. Na colaboração com Drake em “First Person Shooter”, de 2023, ele declarou: “Estou nomeando o álbum The Fall Off, é bem irônico porque não há queda para mim”. Em “To Summer From Cole (Audio Hug)”, do mesmo ano, com Summer Walker, ele mencionou: “Eles ficam esperando você cair como o álbum que estou fazendo”.
O conceito é simples, mas devastador: duas viagens que Cole fez para Fayetteville, North Carolina, sua cidade natal. Uma aos 29 anos, recém-saído de Nova York, fome ainda afiada. Outra aos 39, casado, pai de dois filhos, carregando bagagem emocional de uma década inteira no topo. E cada uma delas se transformou em um disco (Disco 29 e Disco 39), que funciona como fotografias de um homem que voltou para casa, mas não é mais a mesma pessoa, e que descobriu da pior forma possível: você não consegue mais viver no lugar que te criou quando a fama te transformou em outra coisa.
O tema central atravessa o álbum inteiro: Cole sempre quis ser famoso, mas hoje quer voltar a sentir o que sentia no começo da carreira. A conexão com Fayetteville — carinhosamente apelidada de “the Ville” — se distanciou no meio do caminho. Não por falta de amor, mas porque o sucesso cria esse espaço. Ele volta, mas as pessoas que ficaram não vivem mais a mesma realidade. Os amigos estão presos, mortos, ou olham pra ele como celebridade em vez de Jermaine. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa calcular cada movimento por medo de violência ou de virar manchete. E nada disso é culpa da cidade. É culpa do que ele se tornou. Essa tensão — querer pertencer, mas não conseguir mais — é o motor que faz The Fall-Off funcionar como narrativa completa. E Cole aceitou, e é isso que torna o álbum maduro.
A primeira metade do projeto, o Disco 29, é fome pura. Cole se exalta mais aqui, porque ainda tem algo a provar. “Two Six” abre com energia de mixtape, beat de Omen e T-Minus que bate forte, Cole descrevendo a energia selvagem de Cumberland County sob postes de luz. “Safety” é um dos destaques do projeto inteiro. A canção é formada por mensagens de amigos da cidade, e cada uma é mais devastadora que a anterior. Um amigo atualiza sobre Quay, que morreu de complicações de saúde, e no meio do relato solta homofobia sobre a sexualidade do cara antes de recuar meio envergonhado. Outro fala que a filha se acalma com música de Cole. Outro diz que tá pronto pra “punir” quem fez diss tracks. Endereço de funerária é jogado no meio de conversa casual. Cole não interrompe. Não corrige. Só escuta. E funciona justamente porque ele cala a boca e deixa a Ville falar.
“Poor Thang” vai no oposto: Cole falando sozinho, admitindo que orgulho é peso que ele escolheu carregar. “The Let Out” aborda a paranoia do rapper. Cole no clube, alguém avisa que tem gente tramando contra ele no corredor, e o resto da música é adrenalina pura: achar o carro, sair do estacionamento, ouvir tiros, correr. “Será que eu chego em casa / Só Deus sabe”, canta. E “Bombs in the Ville/Hit the Gas” fecha o primeiro disco com Cole ligando pro próprio eu mais jovem, passando o telefone pros filhos, dizendo “fama é droga, você foi escolhido pra tomar / infelizmente, não dá pra ser sóbrio e grande”. Então ele menciona o álbum pelo nome: “Isso é The Fall-Off, eu tô caindo, como?”.
Já o Disco 39 é mais calmo, produto do tempo. Cole tá 10 anos mais velho, mais introspectivo, e principalmente: ele está em paz consigo mesmo e com a ideia de que não consegue mais se manter no topo como fez nos últimos anos. Ele tá avisando que tá na descendente, e fez esse álbum pra celebrar a carreira antes de sair. Ele revisita a carreira em “The Fall-Off is Inevitable”, narrando-a de trás para frente, do caixão ao nascimento, igual Nas fez em “Rewind”, mas cobrindo décadas em vez de um dia. “Life Sentence”, produzida por Jake One, é homenagem pra esposa dele, Melissa Heholt, contando a história dos dois desde crush de infância até compromisso. “Fazendo sujeira, mas não tanto quanto eu poderia”. E então tem “I Love Her Again”, a melhor de todas. Cole personifica hip hop como mulher, narra o relacionamento dele com o gênero como se fosse prostituta que ele viu no carro de todo cara quando era novo, perseguiu de Nova York até Atlanta, dormiu, brigou, assistiu fazer cirurgia plástica e se desiludiu, até voltar a amar ela. É engraçado, amargo, mas o argumento é real: ele admite que tentou possuir o rap, manter só pra ele, e a resposta da mãe — “você deveria ter sabido que ela era assim quando conheceu” — é a frase mais verdadeira da música.
As participações são impecáveis. Future aparece duas vezes e entrega precisão cirúrgica — em “Run a Train” ele mantém o flow afiado no refrão, em “Bunce Road Blues” interpola verso clássico de “Nice & Slow” do Usher enquanto harmoniza sobre crescer nas mesmas ruas. Tems também aparece com vocal angelical que só melhora ainda mais a produção do The Alchemist. Erykah Badu em “The Villest” é absoluta — sample de OutKast (“Elevators”), Badu no refrão, Cole relembrando amigo morto chamado James e perguntando “se darwinismo diz que só os mais fortes sobrevivem / por que eu tô aqui quando não sinto que sou tão grande quanto ele?” E Burna Boy em “Only You” é estranha na primeira audição, mas após algumas rodadas faz sentido — pop rap misturado com reggae, homenagem para a esposa, leve e melódico. Não é o melhor momento do disco, mas funciona como respiro.
Muito além dos feats, as homenagens também chamam atenção. Cole constrói The Fall-Off sobre alicerces do rap que o criou. Mobb Deep aparece duas vezes, Nas também, DMX ressurge em “Life Sentence”, Common ganha tributo, Marvin Sapp, The Isley Brothers, James Taylor e muitos outros se fazem presentes aqui.
E tudo isso colabora para o que a figura de Cole representa, especialmente para Fayetteville. Ele não é só rapper que saiu da cidade — ele é o único que voltou. Que comprou terreno. Que abriu estúdio. Que fez Dreamville Festival virar tradição anual. Que vem colocando a próxima geração no mapa. E mesmo admitindo em The Fall-Off que não consegue mais morar lá, que a conexão mudou, que virou estrangeiro na própria terra, ele ainda volta. Ainda investe. Ainda carrega a Ville no nome.
Apesar disso tudo, The Fall-Off ainda apresenta erros, poucos, mas apresenta. “What If” imagina 2Pac e Biggie mandando cartas de desculpas um pro outro, e a intenção é nobre, a escrita é excelente, mas soa demais como compensação pela saída desastrada da treta Drake-Kendrick em 2024, quando Cole respondeu Kendrick com “7 Minute Drill”, deletou a música dias depois e pediu desculpas publicamente. Melhor ter deixado quieto. E tem o Cole cantando em algumas faixas — “Only You” e a bônus “Ocean Way” — que expõe limitações vocais e soa meio cafona. Mas são deslizes pequenos num corpo de trabalho gigante. E mesmo esses momentos mais fracos não matam o fluxo. O disco segue. E isso, por si só, é conquista considerando o tamanho, uma hora e 40 minutos que, por incrível que pareça, não pesam.
The Fall-Off é clássico instantâneo, quase perfeito. Com 2014 Forest Hills Drive (2014) e o conceitual 4 Your Eyez Only (2016), forma a tríade definitiva da carreira de J. Cole. É ambicioso. É denso. Tem muita coisa pra digerir. Mas cada audição revela nova camada, novo detalhe, nova conexão entre músicas que pareciam soltas mas, na verdade, estão amarradas. A saída dele da briga Kendrick-Drake não agradou ninguém — tirando ele mesmo. E isso fez bem. Deixou ele focar no que sempre foi melhor: rap introspectivo, honesto, tecnicamente impecável, que não tenta impressionar a indústria, mas sim fazer as pazes com o homem no espelho. Não acredito que The Fall-Off seja o último álbum de Cole. Mesmo assim, se ele estiver falando a verdade, estamos diante de uma obra que tem tudo para envelhecer bem, que será revisitada, estudada e referenciada. Foram dez anos que valeram a pena.
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