Hiato de Manon (Katseye): Integrantes negras de grupos femininos merecem mais
Enquanto Manon Bannerman se afasta temporariamente do Katseye, artistas que já estiveram em sua posição formaram um grupo de apoio que reflete um problema no mundo pop
Larisha Paul
A escolha de Manon Bannerman para o Katseye parece quase obra do destino. Mais de 120 mil pessoas se inscreveram para a Dream Academy, o programa de treinamento que formou o grupo de seis integrantes. A formação final veio de 20 finalistas cujas jornadas foram registradas pela Netflix em um reality show onde provar o próprio valor — tanto para os colegas quanto para os fãs que assistiam em casa — era fundamental. A diretora de elenco Michelle Kim descobriu Bannerman nas redes sociais e a convidou para uma audição. Ela não tinha nenhum treinamento prévio ou experiência profissional, mas ninguém podia negar que a garota tinha algo especial.
Por pura sorte, destino ou alinhamento dos astros, Bannerman embarcou em uma experiência que apenas uma porcentagem ínfima de pessoas compreende. Ela foi descoberta na Suíça e lançada ao cenário mundial ao lado de Daniela Avanzini, Lara Raj, Megan Skiendiel, Sophia Laforteza e Yoonchae Jeung. É evidente que, para o grupo, existe um conforto inerente à adaptação conjunta a essa realidade atípica. Elas vivenciaram um aumento no ódio e nas ameaças de morte desde a estreia em 2024, mas seria ainda mais difícil suportar isso como artistas solo.
Mesmo assim, Bannerman enfrenta um isolamento específico por ser a única integrante negra do Katseye. Nesse sentido, as pessoas que mais compreendem sua experiência sequer fazem parte da mesma banda.
No último fim de semana, a HYBE e a Geffen Records anunciaram que Bannerman se afastaria temporariamente do Katseye “para se concentrar em sua saúde e bem-estar”, de acordo com um comunicado publicado no Weverse. Em uma mensagem separada para os fãs, a cantora de 23 anos explicou a situação, escrevendo: “Estou saudável, estou bem e estou cuidando de mim mesma… Às vezes, as coisas acontecem de maneiras que não controlamos totalmente, mas confio no panorama geral”. Enquanto os fãs interpretaram as entrelinhas e especularam sobre se essa foi uma decisão amigável, um grupo de apoio emocional formado por mulheres se uniu em torno de Bannerman.
“Nós te vemos”, escreveu Melody Thornton, das Pussycat Dolls, no Instagram, onde compartilhou uma foto de Bannerman, que curtiu a publicação. Durante os momentos mais difíceis de Thornton em seu próprio grupo, ninguém disse o mesmo para ela. “A única coisa que eu sempre tinha em mente era: ‘Você não pode errar. Você tem que se manter firme porque você é a garota negra. As pessoas sabem disso, as pessoas veem isso e querem te ver vencer, então você precisa superar qualquer adversidade – seja ela qual for’”, disse à Essence em 2024. “Eu nem sempre sabia se estava sendo vista.” Em certo momento, ela começou a ter ataques de pânico e desenvolveu inseguranças por ser rotulada como o “elo mais fraco” do grupo. Mesmo assim, Thornton não revelou suas dificuldades para ninguém, disse, “porque eu não queria que ninguém dissesse que eu era preguiçosa ou que estava inventando coisas”.
A declaração é quase exatamente o que Bannerman disse ao The Cut há algumas semanas. “Ser chamada de preguiçosa, especialmente sendo uma garota negra, não é justo”, disse, comentando sobre as críticas que vem recebendo desde o Dream Academy, onde perdeu ensaios por estar doente. “Agora sinto que preciso sempre me esforçar mais para provar algo, mesmo que na verdade não precise.”
Bannerman perdeu apenas um show da turnê de estreia da banda, que terminou em dezembro. No próximo mês, o Katseye tem apresentações marcadas em três edições do Lollapalooza, incluindo no Brasil, em 22 de março, antes de sua estreia no Coachella em abril. Mesmo que a saída de Bannerman do grupo seja apenas temporária, a repercussão em torno de sua ausência pode deixar marcas.
“Os grupos são formados e cada membro é escolhido porque tem algo especial a oferecer e porque todos os membros juntos criam um equilíbrio, então acho que vai ser interessante navegar sem ela por enquanto”, disse Makhyli Simpson, integrante do grupo feminino Boys World, que teve vida curta, em uma recente live no TikTok.
“Só espero que ela esteja bem, seja qual for a decisão que tomar daqui para frente. Sei de toda a pressão que isso representa, especialmente por ser a única mulher negra do grupo, e sinto que ninguém sabe como é isso até estar na pele dela.” O Boys World se separou em 2024, cinco anos depois de a KYN Entertainment ter descoberto as cinco integrantes nas redes sociais. “Aceitamos que existem coisas que estão fora do nosso controle”, disse o grupo na época. A declaração reflete o que Bannerman compartilhou.
No fim das contas, qualquer grupo formado por uma empresa de entretenimento acaba sendo tratado como os produtos que deveriam vender. O Katseye ainda nem lançou seu álbum de estreia, mas já foi posicionado como um verdadeiro outdoor ambulante para tudo, desde Fendi, Pandora, GAP, Glossier e Laneige até Erewhon, State Farm, Takis e a rede de fast-food Jollibee. Elas não estão vendendo discos. Estão vendendo uma imagem — uma imagem que não se sustenta sem Bannerman.
“As pessoas querem ver diversidade”, disse a cantora à Associated Press em 2025. “As pessoas querem se ver representadas na TV, em outdoors. E eu realmente espero que as pessoas em posições de poder vejam isso, percebam que funciona e implementem essa ideia.” Embora a indústria da música possa vê-las como peças e produtos, essas mulheres — que receberam essa responsabilidade ainda adolescentes e jovens adultas no Dream Academy — continuam sendo pessoas.
Os grupos femininos são construídos sobre uma percepção idealizada de união e irmandade que nem sempre é interseccional. Os poderosos nunca souberam muito bem o que fazer com mulheres negras nesses ambientes.
Quando adolescente, Normani entrou para o Fifth Harmony junto com outras quatro garotas que também fizeram audições como solistas no The X Factor. Elas terminaram em terceiro lugar e foram prontamente lançadas como a próxima grande sensação do pop. Normani sempre exalou a mesma qualidade de estrela natural que atraiu os produtores do Dream Academy para Bannerman. Sua presença por si só chamava a atenção. Mesmo assim, ela foi deixada de lado. “Eu não conseguia cantar de verdade no grupo. Eu me sentia ignorada”, disse Normani à Allure em 2021. “Essa ideia foi projetada em mim. Tipo, este é o seu lugar.”
Normani também enfrentou o racismo virulento de fãs do Fifth Harmony e teve até mesmo experiências racistas dentro do próprio grupo: em 2019, posts racistas que Camila Cabello, integrante do grupo, escreveu quando adolescente, ressurgiram na internet. “Foi devastador que isso viesse de um lugar que deveria ser um refúgio seguro e uma irmandade, porque eu sabia que, se os papéis se invertessem, eu defenderia cada uma delas sem hesitar”, disse Normani à Rolling Stone em 2020. No fim, ela afirmou: “Elas não souberam como me apoiar da maneira que eu precisava porque não era a experiência delas, e porque quando elas olham para mim, não me enxergam”. Em meio às especulações sobre o futuro de Katseye, Normani começou a seguir Bannerman no Instagram.
É um pequeno gesto que pode ter levado a uma conversa mais longa nos bastidores, mas a importância da visibilidade não deve ser subestimada. Normani e Leigh-Anne Pinnock, cuja trajetória em competições televisivas a levou ao Little Mix, trocaram a mesma mensagem em 2020. “Eu sou você e você é eu, eu te vejo, mana”, comentou Normani em um vídeo que detalhava a experiência de Pinnock com o racismo na indústria musical. “Aprendi que o sonho de estar na maior girl band do mundo vem com suas falhas e consequências — consequências como saber sobre o racismo latente existente na indústria criativa”, disse na época. Respondendo a uma publicação sobre seguir Bannerman no Instagram, Pinnock escreveu: “Precisamos nos proteger”.
Pinnock, assim como todas as outras mulheres mencionadas aqui, aprendeu a conviver com a constante sensação de que precisa trabalhar dez vezes mais e por mais tempo para conquistar seu espaço no grupo, porque seu talento por si só não é suficiente. Nenhuma delas deveria ter que passar por isso. A ideia de que mulheres negras devem simplesmente seguir em frente com força total ou suportar maus-tratos sob o pretexto de provar seu valor é sistêmica. É um teste perpétuo, criado para que elas fracassem. Espera-se que elas não apenas se esforcem ao máximo para provar seu lugar, mas também que se sintam privilegiadas por estarem ali — e por serem consideradas — de fato. Mas sofrer e lutar nunca é um privilégio.
Bannerman expressou isso ao destacar que cresceu na Suíça com uma compreensão abrangente do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, algo que os americanos muitas vezes rejeitam em favor de uma mentalidade de trabalho incessante e implacável. É essa intensidade que definiu a Motown Records, de Berry Gordy, que influenciou diretamente o modelo moderno do K-Pop. Em 2024, o fundador da JYP Entertainment, Park Jin-young, creditou a gravadora de sucesso como a inspiração para o sistema. Tudo isso, por sua vez, levou à criação do Katseye. A HYBE e a Geffen anunciaram sua parceria como a primeira vez que uma gravadora americana se uniu a uma empresa de K-Pop para desenvolver um novo grupo. Acontece que, na verdade, a parceria pode não ser tão boa assim.
Em novembro, as empresas lançaram a venda de um pacote de produtos que incluía uma página de perguntas personalizada para cada membro da Katseye. Para Bannerman, uma das perguntas era: “O que Manon acha que é sua melhor característica?”. As opções eram: “Seu senso de humor, seu egoísmo, sua preguiça ou sua natureza tranquila”. Até mesmo a formulação da pergunta — o que ela pensa de si mesma — incentiva especulações que não refletem a realidade, mas distorcem sua narrativa.
Keisha Buchanan, do Sugababes, se identifica com isso. Em 2020, ela afirmou que um executivo da gravadora lhe disse que ela estava sendo “usada como moeda de troca” após ser expulsa do grupo feminino em 2009. Quando o primeiro álbum sem ela não fez sucesso, a melhor coisa a fazer foi, de alguma forma, culpar a si mesma. “Embora não tenha sido minha escolha sair, é hora de começar um novo capítulo na minha vida”, disse Buchanan na época. Os fãs de pop aprenderam a viver com medo de que seus grupos favoritos publiquem comunicados oficiais nas redes sociais, especialmente aqueles que incluem a palavra “hiato” e pouca explicação sobre as circunstâncias. “Quando o One Direction se separou, foi muito difícil”, disse Bannerman à revista The Cut. “Não quero que nossos fãs passem por isso. Não quero ser responsável por partir tantos corações.”
Espero que a história não se repita. As integrantes negras de grupos femininos não deveriam ter que continuar passando por isso.
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