'MUITA MÚSICA PARA PROCESSAR'

J. Cole revela por que projeto ‘It’s a Boy’ não foi lançado antes de ‘The Fall-Off’

Rapper nega rumores de cancelamento e garante que álbum ainda será lançado após cronograma da “Fall-Off Era” ser alterado

Kadu Soares (@soareskaa)

J. Cole
Foto: Prince Williams/WireImage

J. Cole finalmente explicou por que o projeto It’s a Boy, anunciado em 2020, não foi lançado antes de The Fall-Off. O esclarecimento veio durante uma sessão de Perguntas e Respostas (do inglês AMA, “Ask Me Anything”) em uma rede social, onde o rapper respondeu diretamente a um fã que questionava se It’s a Boy havia sido descartado definitivamente.

“Não, não foi descartado. Será lançado”, escreveu Cole. “Quase lançamos antes do álbum. Mas com a mixtape Birthday Blizzard (2026) e o álbum de 24 faixas, pensamos que era muita música para processar”, justificou.

It’s a Boy foi anunciado oficialmente no final de 2020 através de um post no Instagram posteriormente deletado, onde J. Cole delineou o cronograma completo do que chamou de “Fall-Off Era”. A ordem estabelecida era: features, depois Revenge of the Dreamers 3 (2019), depois The Off-Season (2021), depois It’s a Boy, e finalmente The Fall-Off (2026). As primeiras etapas foram cumpridas rigorosamente — Cole lançou uma tonelada de features ao longo de 2019, ROTD 3 chegou em julho daquele ano, e The Off-Season saiu em maio de 2021, alcançando o #1 na Billboard 200 e consolidando o rapper como um dos nomes mais consistentes. Porém, após The Off-Season, os fãs ficaram anos esperando It’s a Boy, gerando especulação crescente de que o projeto teria sido cancelado silenciosamente quando The Fall-Off foi finalmente anunciado para 2026 sem menção ao trabalho anterior.

A explicação de Cole sobre o volume excessivo de música faz sentido considerando a ambição de The Fall-Off. O álbum chegou em 6 de fevereiro de 2026 com impressionantes 24 faixas, um projeto massivo que pode marcar o capítulo final da discografia de estúdio do rapper segundo especulações de fãs baseadas em versos que o artista fez ao longo dos anos sobre eventualmente se aposentar de álbums para focar em outras formas de arte. Além disso, Cole lançou a mixtape Birthday Blizzard antes de The Fall-Off, acrescentando ainda mais material novo ao catálogo recente. Lançar It’s a Boy no meio dessa enxurrada de conteúdo poderia diluir o impacto de cada projeto individualmente.

Além disso, durante as perguntas, J. Cole respondeu: “Tenho amor genuíno por música, e bênção de lançar este álbum é que estou altamente inspirado. Não tenho interesse em fazer mais álbuns ‘J. Cole‘, mas minha paixão e empolgação agora está em produzir”, escreveu rapper durante AMA.

Cole continuou explicando nova fase da carreira: “Vou escrever, vou gravar quando me atingir. Lançar música nova se espírito disser para fazer isso. Mas The Fall-Off é projeto que não vou tentar superar. Quero fazer beats, produzir para outros artistas, mesmo que não esteja fazendo beat. Apenas ajudando a criar visão. Essa é grande paixão minha que não consegui focar porque por anos meu foco estava em MIM e minha história. Acho que meu dom é talvez ainda maior quando estou em papel mais altruísta”, revelou em outra resposta, sugerindo transição para papel similar ao que Kanye West ocupou no início dos anos 2000 ou Dr. Dre ao longo da carreira, produtor/mentor que molda som de outros artistas.

Agora que sabemos que o projeto ainda será lançado, é possível ficar tranquilo. Pelo o que parece, rapper não irá se aposentar.

Sobre The Fall-Off

O conceito é simples, mas devastador: duas viagens que Cole fez para Fayetteville, North Carolina, sua cidade natal. Uma aos 29 anos, recém-saído de Nova York, com a fome ainda afiada. Outra aos 39, casado, pai de dois filhos, carregando a bagagem emocional de uma década inteira no topo. E cada uma delas se transformou em um disco (Disco 29 e Disco 39), que funciona como fotografias de um homem que voltou para casa, mas não é mais a mesma pessoa, e que descobriu da pior forma possível: você não consegue mais viver no lugar que te criou quando a fama te transformou em outra coisa.

O tema central atravessa o álbum inteiro: Cole sempre quis ser famoso, mas hoje quer voltar a sentir o que sentia no começo da carreira. A conexão com Fayetteville — carinhosamente apelidada de “the Ville” — se distanciou no meio do caminho. Não por falta de amor, mas porque o sucesso cria esse espaço. Ele volta, mas as pessoas que ficaram não vivem mais a mesma realidade. Os amigos estão presos, mortos, ou olham pra ele como celebridade em vez de Jermaine. Ele frequenta os mesmos lugares, mas agora precisa calcular cada movimento por medo de violência ou de virar manchete. E nada disso é culpa da cidade. É culpa do que ele se tornou. Essa tensão — querer pertencer, mas não conseguir mais — é o motor que faz The Fall-Off funcionar como narrativa completa. E Cole aceitou, e é isso que torna o álbum maduro.

The Fall-Off é um clássico instantâneo, quase perfeito. Com 2014 Forest Hills Drive (2014) e o conceitual 4 Your Eyez Only (2016), forma a tríade definitiva da carreira de J. Cole. É ambicioso. É denso. Tem muita coisa pra digerir. Mas cada audição revela uma nova camada, um novo detalhe, uma nova conexão entre músicas que pareciam soltas, mas, na verdade, estão amarradas. A saída dele da briga Kendrick-Drake não agradou ninguém — tirando ele mesmo. E isso fez bem. Deixou ele focar no que sempre foi melhor: rap introspectivo, honesto, tecnicamente impecável, que não tenta impressionar a indústria, mas sim fazer as pazes com o homem no espelho. Não acredito que The Fall-Off seja o último álbum de Cole. Mesmo assim, se ele estiver falando a verdade, estamos diante de uma obra que tem tudo para envelhecer bem, que será revisitada, estudada e referenciada. Foram dez anos que valeram a pena.

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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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