ENTREVISTA

Jéssica Falchi fala à RS sobre novo EP ‘Solace’, música instrumental e futuro

Em projeto próprio, guitarrista enfim mergulha na música instrumental após passagem pela banda de death metal Crypta: ‘estou sem amarras’

Igor Miranda (@igormirandasite)

A guitarrista Jéssica Falchi (Foto: César Ovalle)
A guitarrista Jéssica Falchi (Foto: César Ovalle)

Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? Aos 31 anos de idade e com um tempo considerável de carreira, Jéssica Falchi — que antes assinava como Jéssica di Falchi — pode responder a esta pergunta com “semana passada”.

A guitarrista nascida em Monte Alto (SP), reconhecida mundialmente por seu trabalho em redes sociais e passagem recente pela banda de death metal Crypta, lançou na última sexta-feira, 23, seu primeiro trabalho solo, sua estreia no formato instrumental e suas primeiras composições próprias. Solace está disponível em todas as plataformas de streaming sob o nome de uma banda: Falchi.

“Nunca tive a ambição de ter uma banda que levasse o meu nome”, conta Jéssica em entrevista à Rolling Stone Brasil. “Tanto é que uso apenas meu sobrenome, para pessoas que nem me conhecem associar Falchi ao nome de uma banda”, complementa a musicista acompanhada por mais de 385 mil seguidores no Instagram e mais de 105 mil no YouTube.

Com produção de Jean Patton (ex-guitarrista do Project46), o material de quatro faixas surgiu aos poucos, por acaso, após sua saída da Crypta, anunciada em março do ano passado. A primeira música finalizada, “Moonlace”, surgiu após um trabalho conjunto com o intuito de executá-la no EMGtv, canal de YouTube da fabricante de captadores de guitarra EMG. “No fim, acabei não tocando no EMGtv pois voltei ao Brasil para tocar com o Tool no Lollapalooza [também em março de 2025]”, explica.

Falchi contou que, por meio do EP, busca apresentar suas “várias facetas dentro do universo rock e metal”. Ela, que foi acompanhada nas gravações por João Pedro Castro (baixo) e Luigi Paraventi (bateria), detalha:

Solace tem thrash metal, algumas coisas mais progressivas e pitadas modernas. Estou sem amarras. Tenho 31 anos e ter demorado para lançar algo meu dá uma sensação de estar mais confiante. Recebo comentários do tipo: ‘poxa, mas vem vocal?’. Mesmo assim, sinto que as pessoas abraçaram.”

“Música não só para guitarrista”

Ciente de que o público da música instrumental é nichado, Jéssica Falchi expôs um objetivo importante ao compor o material: “fazer música não só para guitarrista ou só para músico”. Como obter êxito? Criando “melodias fortes que ficassem na cabeça das pessoas”.

“A música instrumental traz muito essa fama de que é ‘música para músico’. Não quis isso. Optei pelo simples, para ficar mais cantarolável, como se substituísse o vocal. Por várias vezes, compus pensando em estrutura de verso e refrão, com a guitarra substituindo a voz.”

Outro meio para chegar a este fim é a diversidade de referências dentro e fora do segmento instrumental. Nomes mais recentes como Polyphia, Intervals, Vola e Night Verses servem de influência assim como os veteranos da guitarra Kiko Loureiro (“lembro de ir à feira de música Expomusic e ficar horas na fila para entrar no workshop dele”, diz), Steve Vai, Joe Satriani e Frank Gambale. Há ainda pitadas mais pop (como na já citada “Moonlace”, criada após acompanhar um festival com bandas emo a exemplo de Simple Plan) e progressivas (notada em “Sunflare”, composição em que Falchi se inspira em David Gilmour e até City and Colour).

O convidado especial

Junto de “Moonlace” e “Sunflare”, o tracklist de Solace conta com uma música, “Sweetchasm”, dividida em duas partes. A primeira carrega influências que vão do prog ao jazz e conta com a participação de Aaron Marshall, líder do Intervals e um dos grandes ícones da guitarra contemporânea. Já a segunda soa como um thrash metal despojado, com riffs pesados se entrelaçando a barulhos curiosos.

A estrutura da composição nasceu “muitos anos atrás”, segundo Falchi, e foi retomada após sugestão de João Pedro Castro, um dos autores da ideia original. Exercendo a função clássica de produtor, Jean Patton separou o material por enxergar duas músicas em potencial. O fato de a primeira delas ter contado com a participação de Aaron é algo que Jéssica, fã de carteirinha, define como algo inimaginável.

“Não sei se dá para definir essa música como progressiva, mas te leva para outro lugar. No meio acontecem coisas e é onde entra a participação do Aaron, de quem sou fã há muito tempo. Lembro de levar músicas do Intervals para o meu professor de guitarra me ajudar a aprender. E o Aaron conseguiu colocar as características dele nessa música. No fim do solo, tem uma parte meio baião, meio ‘brasilidade’, onde acabaria o solo dele. Mas ele queria somar com a banda e fez algumas dobras nessa vibe Brasil.”

Futuro de Jéssica Falchi

Jéssica Falchi garante não enxergar o Falchi como um projeto esporádico. Após um show de estreia no Amplifica Fest, em São Paulo, no fim de 2025, a guitarrista quer levar a banda — complementada ao vivo pelo guitarrista Guilherme Carvalho — para mais palcos. Um dos próximos compromissos já foi anunciado: servirá como atração de abertura do Katatonia no Cine Joia, também na capital paulista, no dia 21 de março.

“Eu me dediquei muito para lançar esse EP junto de muitas pessoas envolvidas. Preciso colocar isso para o mundo mesmo da melhor forma possível. Quero seguir lançando mais coisas. Mesmo se alguma banda me chamar para participar, o meu projeto vai rodar sempre, sabe? Sempre estaremos na ativa com ele, pois gostei bastante do processo de compor e de gravar com os amigos. Não tem razão para estacionar.”

*Solace, novo EP da banda Falchi, está disponível nas plataformas de streaming em onerpm.link/Solace.

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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