CRÍTICA

Kid Laroi se perde na própria dor em ‘Before I Forget’

Rapper australiano descarta álbum inteiro após término com Tate McRae e entrega projeto melancólico que repete a mesma fórmula

Kadu Soares (@soareskaa)

The Kid Laroi
Foto: Alberto E. Rodriguez/Getty Images

The Kid Laroi estava apaixonado quando começou a gravar seu segundo álbum de estúdio. O projeto, provisoriamente intitulado Watch This!, transbordava romantismo — até que um término mudou tudo. O rapper australiano de 22 anos descartou o disco inteiro e passou três meses gravando Before I Forget (2026), trabalho marcado pela melancolia. O rompimento com a cantora Tate McRae serve de pano de fundo para faixas que exploram arrependimento e mágoa.

O álbum transita entre pop alternativo, R&B nostálgico dos anos 2000 e elementos de rock. A produção valoriza a vulnerabilidade emocional e há momentos interessantes em que Laroi demonstra comando vocal e presença artística, especialmente quando aborda a exposição pública do relacionamento e as pressões externas que contribuíram para o fim — como em “A Perfect World” ou “Thank God”.

Mas os problemas surgem quando Charlton (nome real do artista) parece desconfiar da própria autoridade artística. Quando encontra os momentos que melhor lhe servem — como o groove luminoso de “Private” ou a urgência emocional de “Rather Be” —, há relutância em investir neles de forma mais profunda. Como consequência, o álbum tenta abordar muitos estilos e emoções diferentes sem se aprofundar o suficiente em nenhum deles e se torna disperso. A repetição temática esgota a paciência do ouvinte ao longo das 15 faixas. “5:21AM”, “The Moment” e “Never Came Back” dissecam o mesmo material sob perspectivas unidimensionais que não justificam suas existências no tracklist.

O álbum tenta recuperar fôlego criativo nos momentos finais, mas já é tarde demais. As melhores faixas tornam as piores ainda mais evidentes, revelando um projeto que captura apenas a dor do momento — sem mostrar evolução ou direção artística futura. Laroi entrega performances superiores quando resiste à derrota, mas parece ter se cansado de lutar no decorrer do disco.

Os momentos altos provam que Laroi tem talento para mais. Isso torna as escolhas conservadoras e repetitivas ainda mais frustrantes.

A ironia cruel de Before I Forget é que Tate McRae já respondeu musicalmente. Para ela, a questão já está resolvida. “Tit for Tat” veio como resposta ao single “A Cold Play” e mostra que a cantora já seguiu em frente, enquanto Laroi não.

Por fim, se o descartado Watch This! estava cheio de músicas apaixonadas sobre uma realidade com a qual ele não se relaciona mais, Laroi não pode ser culpado por não querer performá-las no próximo ano. Mas ao substituí-lo por um disco preso no mesmo loop de lamentação, o rapper corre o risco de afundar na própria dor sem encontrar saída criativa convincente.

Before I Forget é mais polido que The First Time (2023), mais vulnerável e com letras melhores, mas o álbum de estreia ainda soa superior. Aquele tinha hits evidentes e certezas que faltam neste segundo trabalho. Aqui, uma ou outra faixa chama atenção e merece revisitas, mas não se trata de um disco memorável. Quando os próximos lançamentos do ano chegarem, é provável que Before I Forget seja esquecido na pilha de projetos de término que saturam o pop contemporâneo.

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Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.
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