MÃOS À OBRA

Kirk Hammett prepara álbum solo e tem 767 riffs prontos para o próximo disco do Metallica

Logo após lançar um novo livro, guitarrista reflete sobre a carreira, parcerias e o próprio futuro em entrevista ao podcast Rolling Stone Music Now

Por Brian Hiatt, da Rolling Stone

Publicado em 24/03/2025, às 18h28
Kirk Hammett (Foto: Mariano Regidor/Redferns)
Kirk Hammett (Foto: Mariano Regidor/Redferns)

Artigo publicado em 23 de março de 2025 na Rolling Stone. Para ler o original em inglês, clique aqui.

Kirk Hammett está trabalhando duro em seu primeiro álbum solo completo e, ao contrário do EP solo de estreia, Portals (2022), contará provavelmente com vocalistas convidados. O detalhe foi revelado pelo próprio músico no novo episódio do podcast Rolling Stone Music Now. O guitarrista também tem uma coleção enorme de riffs novos para o próximo álbum do Metallica, no qual ele espera que a banda comece a trabalhar no próximo ano, logo após o fim de sua turnê atual.

Hammett publicou um novo livro, The Collection: Kirk Hammett (ainda sem previsão de lançamento no Brasil), que mostra sua impressionante coleção de guitarras vintage, e para marcar a novidade, ele se sentou para uma nova entrevista que abrange toda a carreira. Aqui estão alguns destaques da discussão:

Kirk Hammett não sabe quantas guitarras possui: “Há muito tempo eu fiz questão de não contar”, ele diz. “O número me desanima, porque não consigo tocar todas. E então, ao longo dos anos, tenho tentado diminuir essa quantidade porque me deixa louco saber que há guitarras guardadas em caixas que nunca são tocadas. Tenho uma coleção principal de cerca de 40 a 50 guitarras que tento tocar o tempo todo. Essas são minhas favoritas e a maioria delas está no livro.”

Ele guardou um número impressionante de novos riffs para o próximo álbum do Metallica: "Tenho 767 novos para o próximo álbum. É um pesadelo passar por isso também. Sou o responsável por tudo isso, e não consigo dar conta... Não prevejo que comecemos o próximo álbum por pelo menos mais um ano, porque ainda estamos terminando a turnê 72 Seasons. Assim que finalizarmos completamente a turnê e formos para todos os lugares distantes, como Ásia, Austrália e Nova Zelândia, acho que vamos fazer uma pequena pausa, não muito longa, e então vamos voltar direto para o próximo disco."

Metallica (Foto: Kevin Winter/Getty Images)
Metallica (Foto: Kevin Winter/Getty Images)

Um álbum solo está em andamento: “Estou apenas reunindo ideias ativamente para meu primeiro álbum solo”, diz. “Acho que a melhor maneira de descrever é que será uma fusão de todos os tipos de estilos... De repente, estou escrevendo progressões clássicas, e então, me vejo escrevendo coisas mais pesadas e depois algo como funk... Haverá vocais porque as músicas que escrevi clamam por isso dessa vez. Eu penso: 'Quem vai fazer os vocais?' Não sei. Espero que não seja eu mesmo — já tenho muito o que fazer no palco. Também tenho uma peça instrumental que para mim parece ter 2.000 anos, chamada 'The Mysterion'. É baseada em todas essas coisas que tenho lido, os textos gregos antigos, e é incrível para mim porque eu não teria esse instrumental se não tivesse começado a ler esses textos antigos.”

Ele está intrigado com a sugestão de que o Metallica poderia voltar para o som dos anos noventa: “Quem sabe? Podemos apenas dizer: 'Ok, vamos voltar à década de 1990 novamente. Não é uma má ideia! Ainda não dissemos isso um ao outro. E é interessante porque quando Load and Reload (1997) saiu, houve muita reação negativa. Mas hoje em dia eu encontro fãs e eles amam aquela época. Tocamos 'Fuel' e as pessoas enlouquecem. Tocamos 'Until It Sleeps' e as pessoas sabem cada palavra. É como quando eu era adolescente, ouvia todos os álbuns do Zeppelin, exceto Zeppelin III (1970), porque era mais acústico e eu só queria as coisas agressivas de alta energia. Mas com o tempo eu comecei realmente a abraçar o Zeppelin III e o quão maravilhoso ele é.”

Ele tem boas lembranças de festas com a falecida Marianne Faithfull, que cantou em “The Memory Remains”: “Lars [Ulrich, baterista do Metallica] e eu amávamos Marianne e saíamos com ela. Uma vez, saímos para jantar com ela e Anita Pallenberg, a primeira esposa de Keith Richards. E cara, que jantar foi aquele. As histórias que ouvimos. Anita e Marianne realmente gostavam de sair com a gente, porque nós as acompanhávamos. Cada bebida, cada fala, tudo. Nós usamos muitas drogas naquela noite. Marianne foi incrível, cara. Ela nunca diminuiu o ritmo.”

Trabalhar com Lou Reed em Lulu foi uma experiência profunda: “Aquele álbum significa muito para mim por uma série de razões”, diz Hammett. “As letras são incríveis. É poesia de faixa para faixa. Sou um grande fã de Lou Reed. Poder sair com ele e trabalhar com ele musicalmente significou muito. E a faixa 'Junior Dad' — não consigo ouvi-la, cara. Me faz chorar. Lembro-me de quando Lou disse: 'Tenho uma música para você e quero que ela esteja no álbum.' E ele tocou para James [Hetfield, vocalista do Metallica] e eu. No final da música, olhei para James, ele olhou para mim e nós dois tínhamos lágrimas nos olhos. Então Lou Reed entrou e nos viu chorando na cozinha. Ele estava sorrindo e disse: 'Eu peguei vocês, não peguei?'”

Reed não era fã de solos de guitarra: “Lembro que comecei a fazer algumas coisas usando o efeito wah-wah e ele simplesmente foi até o microfone e disse: 'Não'”, lembra Hammett. “Eu fiquei tipo, 'O quê?' E ele disse, 'Nada de solos de guitarra'. Então eu lembro que em um ponto eu fui para uma frígia dominante, uma espécie de escala de som oriental. Ele foi até o microfone e disse: 'Nada de música de dança do ventre'.”

Kirk Hammett e Lou Reed (Foto: Kevin Mazur/WireImage)
Kirk Hammett e Lou Reed (Foto: Kevin Mazur/WireImage)

Aos 62 anos, Hammett ainda está criativamente animado: “Tenho 62 anos, e muitos artistas, quando têm essa idade estão encerrando as coisas. Sinto que ainda estou escalando o cume. Ainda não cheguei ao topo da montanha. Não cheguei ao topo da pirâmide. Estou subindo, cara. Sinto que estou melhorando e ainda tenho muito ímpeto criativo e energia em mim.”

O processo criativo é puramente espontâneo agora: “As coisas em que não penso geralmente são as melhores porque simplesmente vêm a mim. E se simplesmente vêm a mim de uma forma natural, então há uma espécie de sentimento orgânico nisso. E é assim que eu invento tudo hoje em dia. Eu apenas sento com meu violão e vejo o que acontece. Me recuso a trabalhar duro em qualquer coisa. Apenas analiso e tento dizer: 'Se eu mudar esta nota e isso tem que funcionar com aquilo.' Parece que estou fazendo álgebra. Eu não quero isso. Eu fui reprovado em álgebra dois anos seguidos. Não vou querer fazer cálculos quando se trata de música.”

Ele acredita que o Metallica pode continuar indefinidamente, desde que se mantenham saudáveis: “Muito disso tem a ver com saúde pessoal”, diz. “Acho que todos nós somos muito saudáveis ​​e estamos em forma. E às vezes eu esqueço a idade que tenho porque não me sinto como se tivesse 62 anos. Sinto que ainda estou em algum lugar na casa dos trinta e, você sabe, eu saio e surfo, ando de bicicleta, corro, caminho e faço todo tipo de loucura fisicamente. Ainda consigo fazer tudo. Faço ioga todos os dias, medito todos os dias. Não sinto que estou diminuindo o ritmo. Na verdade, as coisas estão melhorando ao meu redor. E sei que não sou o único membro da banda que se sente assim. Lars também está em ótima forma. Enquanto tivermos saúde e mente, acho que podemos continuar.”

Ele tem opiniões sobre o guitarrista do Polyphia, Tim Henson, e define a técnica tradicional de guitarra solo de "boomer bends". "Eu amo isso", ele diz. "Mas você sabe, ele vai chamar Eddie Van Halen de guitarrista boomer [termo usado para se referir a pessoas mais velhas e geralmente saudosistas]? Eu realmente gosto do estilo de Henson. É realmente único, e em termos de técnica, é incrível. Mas aí vem aquela pergunta antiga: quão acessível isso é? É legal ouvir umas três ou quatro vezes. Você consegue realmente se conectar? Às vezes, as pessoas só querem ouvir música e não se sentir desafiadas. Às vezes, as pessoas só querem sentir uma emoção crua. Ele está buscando essa emoção crua? Não. É muito complicado. É uma emoção muito distinta que ele está tentando alcançar. É acessível apenas para quem gosta ou consegue entender isso.”

Rolling Stone Music Now é um podcast semanal da Rolling Stone apresentado por Brian Hiatt. Você pode conferir entrevistas (em inglês) com nomes como Robert Plant, Liam Gallagher, Eddie Van Halen e Snoop Dogg nos principais agregadores de podcasts.

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