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Korn: gigantes e felizes como nunca [ENTREVISTA]

Banda pioneira do nu metal desfruta de nova onda de popularidade com show em estádio no Brasil e crescimento global orgânico enquanto vivencia um raro momento de paz interior

Igor Miranda (@igormirandasite)

Korn em foto exclusiva para Rolling Stone Brasil (Foto: Jonathan Weiner)
Korn em foto exclusiva para Rolling Stone Brasil (Foto: Jonathan Weiner)

“Faz tanto tempo assim?” Os quatro integrantes atuais do Korn deram essa mesma resposta quando perguntados sobre a expectativa para o próximo show no Brasil, o primeiro em nove anos. Com Spiritbox, Seven Hours After Violet e Black Pantera como atrações de abertura, a banda americana de nu metal composta por Jonathan Davis (voz), James “Munky” Shaffer (guitarra), Brian “Head” Welch (guitarra) e Ray Luzier (bateria) se apresenta no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 16 de maio. A realização é da 30e.

O retorno ocorre em patamar bem diferente daquele testemunhado em 2017, ano da visita anterior para shows na capital paulista, Curitiba e Porto Alegre. Se desta vez eles ocuparão um estádio com capacidade para até 50 mil fãs, as performances anteriores foram realizadas em casas fechadas com lotação entre 5 mil e 8 mil pessoas. “Não foi a maior turnê que fizemos, um dos shows foi para umas 4 a 6 mil pessoas, mas foi incrível”, relembra Head.

Korn E-D: Brian “Head” Welch, Ray Luzier, Jonathan Davis, James “Munky” Shaffer (Foto: Jonathan Weiner)

Por outro lado, há algo em comum entre as turnês de 2017 e 2026: a ausência de Reginald “Fieldy” Arvizu, baixista, membro original e peça fundamental para a sonoridade do grupo. Na visita passada, ele esteve fora de modo apenas temporário “devido a circunstâncias imprevistas” e foi substituído por Tye Trujillo — filho de Robert Trujillo, baixista do Metallica, que à época tinha apenas 12 anos de idade. Welch conta: “Robert viajou conosco e o filho dele é um prodígio! É um garoto tão bom, capaz de tocar qualquer coisa”. Agora, a situação é mais profunda, pois Fieldy encontra-se em “hiato” da formação há 5 anos e seu posto é ocupado desde então pelo chileno Ra Díaz, ex-Suicidal Tendencies.

“Nos últimos 6 anos, tenho lidado com alguns problemas pessoais que, por vezes, me fizeram recair em alguns maus hábitos e causaram tensão com as pessoas ao meu redor”, explicou Arvizu em comunicado publicado em 2021. “Sugeriram que eu tirasse um tempo para me curar. Vou respeitar o que me pediram e aproveitar esse tempo.” Durante entrevistas posteriores, o baixista garantiu não estar envolvido com drogas. Ao podcast Shady Characters, chegou a dizer que se distanciou do grupo em meio à pandemia, pois não queria se vacinar e os colegas buscavam retomar atividades — não à toa, o álbum Requiem (2022) nasceu neste período.

Falar sobre a ausência de Fieldy é tópico delicado, especialmente para Jonathan, que recorre a respostas curtas e protocolares ao ser perguntado sobre o tema. “Não estamos tentando substituir o Fieldy, mas tem sido uma dinâmica diferente e divertida com Ra — isso é tudo o que posso dizer”, afirmou o cantor sobre a mudança na formação. “Não tenho atualizações sobre ele, as coisas são como são. Ele está fazendo as coisas dele. Eu o amo e desejo o melhor para ele.”

Fieldy em show com o Korn em 2019
Fieldy em show com o Korn em 2019 (Foto: Miikka Skaffari / FilmMagic)

Munky, mais completo em sua resposta, conta que é difícil imaginar Fieldy na banda hoje, especialmente no que diz respeito à criação. De acordo com o guitarrista, o colega esteve desligado do processo autoral durante os álbuns The Nothing (2019) e Requiem. “Ele pareceu ter perdido o foco e acho que perdeu também a ambição. Ele não parecia feliz como músico profissional na época. Acontece. Não ficamos bravos com ele. Ainda uso a palavra ‘hiato’, pois acho que ele só precisava de uma pausa devido à nossa rotina intensa de trabalho e ele tinha questões pessoais”, afirma Shaffer, único ao lado de Davis a estar presente em todas as formações do grupo.

Com ou sem Fieldy, o show tem que continuar. E, em São Paulo, o espetáculo deve ser focado no catálogo mais antigo do Korn — os clássicos das décadas de 1990 e 2000 —, com algum espaço para músicas selecionadas de Requiem e, talvez, algo diferente. “Head e eu conversamos sobre tocarmos ‘No Place to Hide’, ‘Need To’, ‘Lies’ ou ‘Word Up’ (cover do Cameo), que é uma música grande no Brasil; algumas coisas que não tocamos há um tempo”, compartilha Munky.

Só não espere um set extenso. Em média, o Korn toca por 90 minutos. “Não dá pra fazer um show muito longo”, explica Davis. “Eu queria poder tocar três horas, mas não consigo. Outras bandas de metal, como o Metallica, têm solos, partes instrumentais, então o cantor tem a chance de respirar. Do jeito que nossa música é estruturada, não tenho tempo para me recuperar.”

Para além do palco, há movimentação em estúdio. Com exclusividade à Rolling Stone Brasil, os integrantes confirmaram estar gravando canções inéditas. O material deve sair no formato de um novo álbum — o décimo quinto da carreira — entre o fim deste ano e o início do próximo. Um single, “Reward the Scars”, foi lançado em abril como parte da trilha sonora do game Diablo IV: Lord of Hatred.

“Essas novas músicas são o próximo passo da carreira”, afirma Davis ao ser convidado a compartilhar como elas estão soando. “Não direi ‘oh é mais pesado’, ‘oh é melhor’, pois sempre falamos isso. Posso apenas dizer que esta é a melhor música neste momento em nossas vidas.” De acordo com Munky, o frescor da dinâmica entre Díaz e Luzier tem guiado o processo criativo. O baterista, aliás, celebra: “Estou na banda há mais tempo do que o baterista original [David Silveria]. Não sou mais o ‘cara novo’ após quase duas décadas”.

Welch, por sua vez, reflete sobre o grupo ter, pela primeira vez na carreira, levado mais do que três anos para lançar um disco: “Fico feliz por estar levando esse tempo. Veja essas grandes bandas. O Tool é um exemplo dramático demais, mas bandas como Metallica e Avenged Sevenfold demoram mais e criam expectativa. É minha opinião, não a dos outros no Korn, mas o tempo todo eu pensava estar lançando álbuns cedo demais. Gosto de levar mais tempo. E sem lançar nada, a banda só cresceu — não só o Korn, todo o rock”.

“Mudamos o mundo”

A popularidade do Korn pode ter crescido recentemente — ainda que com amparo de seu catálogo —, mas a relevância nunca foi discutida. Poucos gêneros e subgêneros da música têm seu pioneiro tão bem definido quanto o nu metal, praticamente fundado pelo grupo da cidade americana de Bakersfield, Califórnia, como seu fundador, por meio da demo Neidermayer’s Mind (1993).

Com este material e o álbum de estreia homônimo de 1994, Jonathan, Head, Munky, Fieldy e David Silveria reorganizaram o mapa do metal. Exploraram guitarras de sete cordas de um jeito até então inédito. Apostaram em letras bem diretas sobre abuso, angústia e saúde mental. Deixaram o lado percussivo falar mais alto, especialmente pelo baixo de som seco que muito se assemelha a uma bateria. Adotaram elementos do hip-hop e da música eletrônica de uma forma também única. Criaram até mesmo uma estética visual própria, trazendo para este nicho o uso de trajes urbanos e esportivos como tracksuits, peças oversized e tênis Adidas. Seja na mensagem ou nas roupas, era menos fantasia e mais realidade.

Brian "Head" Welch, guitarrista do Korn (Foto: Ismael Quintanilla III)
Brian “Head” Welch, guitarrista do Korn (Foto: Ismael Quintanilla III)

Como resultado, veio não apenas o sucesso comercial refletido em 40 milhões de discos vendidos e turnês globais, como também o reconhecimento no segmento. Limp Bizkit, Slipknot, Linkin Park e o DJ Skrillex são apenas alguns dos vários nomes que citam o Korn como referência. Até mesmo o Sepultura, maior banda brasileira de metal da história, se inspirou no grupo americano — depois de, curiosamente, ter servido de influência para eles.

Munky conta: “O Sepultura teve enorme influência em nossa banda no início. Quando o álbum Beneath the Remains (1989) foi lançado, pensamos: ‘Que p*rra é essa?’. Com Chaos A.D. (1993), o mesmo. Na época, acabamos refazendo muita coisa nossa por pensarmos que aquele era o patamar a ser atingido. Também víamos fitas VHS deles e do Mr. Bungle tocando em festivais. Até hoje eles arrasam”.

Em entrevista de 2016 à Metal Hammer, Davis revelou ter ficado incomodado quando ouviu Roots (1996), álbum mais popular do Sepultura, e considerou que os brasileiros haviam “copiado” o som do disco de estreia do Korn. Usaram até o mesmo produtor, Ross Robinson. Mas ele, que participou do disco em questão com vocais em “Lookaway”, reconhece: os colegas sul-americanos serviram de inspiração primeiro para seu grupo. Arte inspirando arte, no fim das contas.

“Acho que quando falei sobre meu ‘eu mais jovem’ não conseguir compreender essa situação do Sepultura, eu estava tendo um dia muito ruim e apenas estava descontando — faço isso muito”, confidencia o cantor. “Sepultura é incrível! Amo tudo o que eles fizeram. Gosto pra car*lho de Arise (1991), Chaos A.D. (1993) e Roots (1996). São artistas incríveis e pessoas incríveis. Tenho muito respeito pelo Max [Cavalera, vocalista e guitarrista]. Fico feliz com o caminho que ele tomou com Soulfly, Nailbomb, o projeto com o irmão [Iggor Cavalera, baterista] e tudo o mais.”

O Korn é tão único que nem mesmo Ray Luzier teve vida fácil ao se juntar à banda em 2008, no posto deixado por Silveria. Nascido na Pensilvânia em 14 de junho de 1970, o baterista acumulava um currículo de peso antes de ter a oportunidade: havia gravado e/ou excursionado com David Lee Roth (vocalista original do Van Halen), Army of Anyone (projeto com músicos do Stone Temple Pilots e Filter), Jake E. Lee (guitarrista de Ozzy Osbourne) e Steel Panther. Ainda assim, a reflexão que ele faz é um tanto brutal: “Mesmo que eu tenha sido um camaleão, você não simplesmente ‘entra’ em uma banda como o Korn”.

Luzier tem origens no hard rock e heavy metal tradicional. Desenvolveu apreço pelo grunge no início da década de 1990. Mas não deixou de admirar o Korn logo no início. “Eles são muito poderosos”, reflete. “Na época, havia bandas grunge como Stone Temple Pilots, Soundgarden, Alice in Chains e Nirvana, mas o Korn se negou a soar como eles e apostou em um som próprio. Eles abriram caminho. Não soavam como nenhuma outra banda. Lembro de ouvir e adorar tudo desde o início.”

Ray Luzier, baterista do Korn (Foto: Nathan Zucker)
Ray Luzier, baterista do Korn (Foto: Nathan Zucker)

Nem mesmo o longo currículo e a formação em música por meio da conceituada Musicians Institute — onde também deu aulas — frearam críticas a Ray. “Fui massacrado porque não sou o baterista original — e eu entendo, odeio quando trocam integrantes na minha banda favorita. As pessoas têm o rosto de David Silveria tatuado no corpo. Korn é um estilo de vida. Levou anos até que os fãs me aceitassem.”

Seja com Silveria ou Luzier, o Korn é detentor de um legado poderoso e que transcende o metal, o rock ou a música. Chega ao ponto de músicas como “Freak on a Leash” e “Y’all Want a Single?” terem viralizado no TikTok, em tempos recentes, devido a desafios de dança promovidos organicamente por usuários. “É legal ver uma nova geração descobrir uma música como ‘Freak on a Leash’, mas se isso acontecesse há 20 anos, eu poderia não ter gostado — agora estamos em um momento diferente”, admite Munky.

Para Davis, a grande mensagem deixada pelo Korn é, basicamente, uma paráfrase de “My Way”, sucesso de Frank Sinatra: “Quero que saibam que fizemos do nosso jeito”. O vocalista reconhece que sua banda foi “muito difícil de se trabalhar”, pois ele e seus colegas nunca ofereceram concessões à indústria musical. “Tínhamos nossa visão, fizemos da nossa forma… e mudamos o mundo”, aponta o cantor.

A essa altura, nem dá para dizer que Jonathan está “se achando”. “Não estou sendo nada pretensioso: eu não sou tudo isso, nós não somos tudo isso, só amo a inegável marca que deixamos na música pesada”, reflete. “Mudou a trajetória da música pesada. Eu sei que mudou. Fico tão feliz por ter ajudado as pessoas a passarem por momentos difíceis, tocado a vida das pessoas de maneira positiva. Eu não sabia que minhas letras tocariam tantas pessoas. Head e Munky não sabiam que fariam algo tão inovador quando pegaram guitarras de 7 cordas.”

“Quem está rindo agora?!”

De um jeito curioso, o mercado da música se tornou mais afeito aos artistas de legado — como o Korn — nos últimos tempos. Há tantas explicações para isso que, ao mesmo tempo, nenhuma parece servir, mas passa pelo crescimento da busca por músicas de “zona de conforto” no período da pandemia, valorização do espetáculo verdadeiramente ao vivo na era pós-pandêmica — em especial por parte da geração Z, os nascidos entre 1997 e 2010 que prezam pela experiência para além da arte —, compreensão da indústria de como é importante explorar o catálogo de bandas clássicas, entre outros motivos.

Como consequência, o quarteto sente que, ao menos quando o papo é show, o grupo nunca esteve tão grande. “De um modo geral, acho que não dá para superar a década de 1990 em termos de popularidade, com a MTV e tudo o mais”, pondera Brian “Head” Welch. “Estávamos no mainstream, misturados com artistas modernos, como Eminem, Blink-182, Dr. Dre, Snoop Dogg, Britney Spears e Backstreet Boys. Mas em relação a shows e números, somos maiores agora.”

James “Munky” Shaffer tem o mesmo sentimento. “Há uma nova geração nos descobrindo e as redes sociais têm um papel nisso”, destaca o guitarrista. “O mundo passou por uma grande fase de música eletrônica — nós também. Agora, as pessoas parecem ter apetite por música ao vivo e redescobrir bandas que têm legado ou impacto cultural.”

James "Munky" Shaffer, guitarrista do Korn (Foto: Anthony Scanga @ras_visual)
James “Munky” Shaffer, guitarrista do Korn (Foto: Anthony Scanga @ras_visual)

Head aponta para algo nem sempre notado quando se fala de Korn: o espírito festivo de sua música. “Estamos focados em diversão e energia e criamos músicas que soavam como uma festa — mesmo se o tema seja muito intenso e sombrio —, pois as pessoas reagem com dança, se mexem, balançam a cabeça e gritam”, pontua. “Nada contra o pop ou hip-hop, mas temos um elemento humano que talvez a geração atual esteja querendo. Talvez eles sintam que perderam isso, pois a criação da música se tornou computadorizada, perfeita e falsa.”

Para além da atenção geral às bandas de legado, há uma movimentação nostálgica inclinada para a década de 1990. Linkin Park, Limp Bizkit, System of a Down e Slipknot se apresentaram em estádios no Brasil ao longo dos últimos anos. “Todos os meus colegas da época estão trabalhando novamente”, comemora Munky. “É incrível vender tantos ingressos novamente. Não há muitos artistas que chegam a esse nível, nem 1% deles. Somos um em um bilhão.” Jonathan Davis também olha para aqueles que ficaram pelo caminho: “Vi tantas bandas surgirem e desaparecerem. Fomos e somos muito abençoados pelo fato de que todos nos damos tão bem e ainda amamos compor juntos. A química ainda está lá”.

O nu metal, visto por tanto tempo como um “patinho feio”, se beneficiou de tal reavaliação. O subgênero recebeu críticas quase que em dose similar à aclamação comercial, seja por sua estética masculina — e por vezes machista —, aposta em elementos híbridos e externos à cultura do metal e rápida saturação midiática devido à superexposição. O Korn esteve um pouco imune a isso, mas grupos como os já citados Limp Bizkit, Slipknot e Linkin Park sofreram nesse aspecto.

O desgaste principal ocorreu com a realização do caótico festival Woodstock ’99, que fracassou ao tentar resgatar a vibe “paz e amor” do evento original de 1969 e ainda ficou marcado por casos de crimes sexuais, calor extremo, preços exorbitantes até por água, vandalismo e três mortes. De um jeito difícil de se explicar, o show do Limp Bizkit em meio à programação de quatro dias passou a ser retratado como episódio definidor dos tumultos. A história foi revisitada por meio de dois documentários — Woodstock 99: Peace, Love, and Rage (2021, HBO Max) e Desastre Total: Woodstock 99 (2022, Netflix) — e para Head, tais obras despertaram novo interesse pelo nu metal.

“Antes da pandemia, todos diziam que o rock estava morto. Com o nu metal, era pior ainda — é a ‘parte ruim’ do metal. Então os documentários de Woodstock 99 foram lançados e tentaram falar mal do nu metal, mas tudo o que fez foi elevá-lo. Acho que fizeram a geração mais jovem ficar curiosa sobre as razões de ter sido tão caótico, pois esse foi o momento mais selvagem e enorme para esse tipo de música. O tiro saiu pela culatra.”

O guitarrista relembra que outras bandas se apresentaram no evento, mas o foco negativo sempre esteve direcionado aos representantes do nu metal. “Limp Bizkit recebeu as piores críticas”, explica. “Não vejo as pessoas criticando tanto o Red Hot Chili Peppers, ou até o Metallica. O Metallica não tocou no Woodstock? Eles nem foram mencionados nessa história! Por que não foram mencionados? Por eles terem os advogados mais poderosos dos EUA? Não sei, mas não foi justo e isso voltou como uma reação contra eles. Quem está rindo agora?!”

“Mais feliz do que nunca”

Se tem alguém que está rindo, é Jonathan Davis. Após uma vida marcada por tormento, abuso e conflito, o vocalista e letrista se diz “mais feliz do que nunca” — algo que pode gerar sentimentos dúbios entre os fãs, pois alguns mais fervorosos realmente acreditam que o Korn vivencia seus melhores momentos artísticos quando Davis tem razões para compor músicas angustiantes.

“Estou ótimo, cara”, exclama o cantor. “Estou mais feliz do que nunca. Só leva tempo na vida para isso. Não digo que coisas ruins não acontecem mais comigo, porque sou um ímã para coisas ruins. O azar me persegue! Apenas escolho usar essas experiências para inspirar minhas letras. Coisas felizes não me inspiram.”

Jonathan Davis, vocalista do Korn (Foto: Anthony Scanga @ras_visual)
Jonathan Davis, vocalista do Korn (Foto: Anthony Scanga @ras_visual)

Nascido em Bakersfield no dia 18 de janeiro de 1971, Jonathan Davis enfrentou mudanças no ambiente familiar ainda criança, pois, aos 3 anos de idade, seus pais se divorciaram. Também lidou com problemas de saúde a partir desse período, já que tinha crises graves de asma e era hospitalizado com frequência — a ponto de ter sobrevivido a um episódio mais crítico aos 5. Quem imaginaria que alguém com esse quadro clínico se tornaria… cantor?

A relação com a madrasta foi conflituosa, com relatos de humilhação, a ponto de ele ter composto a música “Kill You” sobre ela. A letra inclui versos como “Tudo que eu quero fazer (você não é a minha verdadeira mãe) (eu vou bater e esfaquear e foder ela) É te matar”. Jonathan também afirma ter sofrido abuso sexual por uma amiga da família, algo retratado na canção “Daddy”. Foi desacreditado pelos pais. “Este demônio me assombra”, diz um dos trechos iniciais.

Enquanto adolescente, foi alvo de bullying por suas roupas, uso de maquiagem e gosto musical direcionado à new wave. Vem daí a letra de “Faget”, com gritos de “fagg*t” (expressão ofensiva similar a “vi*do”) e “HIV” em meio a reflexões angustiantes. Já na vida adulta, teve problemas com álcool e drogas — e ao adquirir a sobriedade antes dos 30 anos de idade, desenvolveu depressão agravada pela morte do avô. Sua segunda esposa, Deven Davis, faleceu em 2018, dois anos após a separação deles, em decorrência de uma overdose. Meses antes, sua mãe também partiu.

“Eu poderia fazer algo na comédia, tipo ‘Weird Al’ Yankovic, mas escolho as coisas sombrias que acontecem na vida”, diz o artista, ciente de que tantos eventos trágicos inspiram suas composições. “Essas coisas acontecem com todos: isso se chama vida. No geral, estou melhor do que jamais estive. Tenho alguém na minha vida que me ama e cuida bem de mim — algo que eu nunca tive. Meus filhos estão seguros. Muitas coisas na minha vida mudaram para melhor nos últimos anos. Tirando o fato de estar envelhecendo, estou ótimo.”

Outro integrante que garante estar em um bom lugar no âmbito pessoal é Brian “Head” Welch. Nascido em 19 de junho de 1970 em Torrance, mas estabelecido em Bakersfield, o guitarrista se converteu ao cristianismo no período em que deixou o Korn, no ano de 2005. À época, o guitarrista lidava com o vício em drogas e álcool, além do desgaste pela pesada agenda de compromissos da banda e dilemas com a paternidade. A saída se deu, de acordo com um comunicado, porque ele “escolheu o Senhor Jesus Cristo como seu salvador e planeja dedicar suas atividades musicais a esse fim”.

“Estragamos muitas coisas quando jovens — inclusive nossas vidas com substâncias —, mas não foi tudo assim, pois também houve bons momentos e não estávamos sempre drogados”, afirma Head ao apontar que desfruta do sucesso atual com a mesma felicidade que o passado, mas, claro, de um jeito bem mais consciente e grato nos dias de hoje. “Saí do Korn e me afastei disso por causa do lugar para onde isso me levou. Eu abri mão disso. Então, entenda o tamanho da gratidão que tenho por isso estar de volta, estar com tudo organizado e não haver pessoas problemáticas na nossa banda.”

Qual teria sido o maior aprendizado de Head em seus anos fora do Korn? “Aprender a amar, pois a vida é sobre isso”, responde. “Quando você destrói sua vida com drogas e álcool, vê cada relacionamento se desintegrar. Há uma espécie de auto-ódio, pois você pensa não merecer o bem. Então você se tortura e disfarça isso como diversão. Quando descobri o amor divino, vi que não merecia me torturar. Se eu me amo, consigo amar minha filha e minha família corretamente. E a música é um presente para me conectar com as pessoas. Não se trata de ficar rico e famoso: é sobre os fãs, não sobre mim.”

Dono de uma história similar à de um ícone do rock brasileiro — Rodolfo Abrantes, vocalista do Raimundos que deixou sua banda no auge do sucesso após uma conversão religiosa —, Welch destaca que não é compreendido por todos em seu segmento. Fãs de rock no geral querem distância de temáticas divinas, enquanto religiosos desejam se afastar dele pelo vínculo com a banda. “Sinto como se eu estivesse no meio do caminho. Mas sou eu mesmo. E acho que hoje as pessoas entendem melhor — ainda é um pouco assim, mas está melhor do que costumava ser”, conclui.

Rolling Stone Brasil: revista especial com Korn

À VENDA: O Korn estampa a capa da nova edição da revista Rolling Stone Brasil. Com um show especial no Allianz Parque marcado para 16 de maio, a lendária banda de nu metal narra seus próximos passos — incluindo um álbum que está sendo preparado — e reflete sobre como seus contemporâneos estão mais relevantes do que nunca. Também há entrevistas com Iron Maiden, Black Pantera, Spiritbox, Shavo Odadjian (Seven Hours After Violet), entre outros. Compre no site Loja Perfil.

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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