Leall fala sobre a busca por unir rap e jazz: ‘Isso já tem tudo a ver, mas eu quero trazer isso mais pra minha música’
À Rolling Stone Brasil, rapper carioca detalha Você Precisa do Álibi, fala sobre liberdade e revela influências que vão de Conductor Williams a Marcelo D2
Kadu Soares (@soareskaa)
Há um túnel que corta o Rio de Janeiro ao meio — não apenas geograficamente, mas simbolicamente. De um lado, Marechal Hermes, Zona Norte, origem. Do outro, Botafogo, Zona Sul, chegada. Entre os dois, o Túnel Rebouças, passagem obrigatória para quem transita entre mundos que a cidade insiste em manter separados. Para Leall, esse túnel é mais que concreto e asfalto — é metáfora viva de sua trajetória.
“Quando eu era menorzão, minha mãe trabalhava em Botafogo como técnica de enfermagem. Ela sempre falava sobre dirigir o carro no Túnel Rebouças”, conta o rapper, que transformou essa memória na faixa de abertura de Você Precisa do Álibi, seu novo EP. Não por acaso, o projeto inteiro funciona como travessia — entre territórios, sonoridades e identidades. Entre quem Leall foi, quem é e quem continua se tornando.
Após Esculpido a Machado (2021) e Eu Ainda Tenho Coração (2022), dois álbuns que consolidaram o rapper de Marechal Hermes como um dos nomes mais importantes do rap nacional contemporâneo, Você Precisa do Álibi marca uma guinada experimental. São seis faixas que misturam drill, jazz, samba e boombap. Colaborações com MC Luanna e o londrino Blanco. E, acima de tudo, uma pergunta que ecoa em cada verso: quantas vezes um jovem negro e periférico precisa justificar sua presença, seu sucesso, sua própria existência?
A resposta de Leall é simples e poderosa: a arte é o álibi. Não uma justificativa, mas uma afirmação de liberdade. E em conversa nos estúdios da Rolling Stone Brasil, ele detalha os bastidores da EP, revela que está começando a produzir seus próprios beats, fala sobre a busca por música mais orgânica para o terceiro álbum e explica por que nasceu para a arte — e para ser relevante.
O álibi e a travessia
Todo trabalho de Leall carrega uma declaração política, mesmo quando não está fazendo política diretamente. Você Precisa do Álibi não é exceção — talvez seja sua afirmação mais direta até agora. O título, que antecipa seu próximo álbum completo, surgiu durante as sessões de Eu Ainda Tenho Coração. Naquele momento, o rapper processava uma realidade que pessoas negras e periféricas conhecem bem: a necessidade constante de provar inocência, de justificar que não estão no lugar errado, que fazem as coisas certas.
“Acredito que toda pessoa negra em algum momento precisa provar sua inocência”, ele diz, pausado. “A arte e a música foram o meu álibi.” Não um esconderijo, mas uma afirmação. Uma forma de mostrar ao mundo — e a si — que o caminho escolhido é o certo, que sua presença em espaços historicamente negados é legítima, que não há justificativa necessária além da própria existência.

Mas por que uma EP, e não um terceiro álbum completo? A decisão foi estratégica e criativa. Pela primeira vez na carreira, Leall queria testar sonoridades sem o compromisso de um disco longo. Curiosamente, Esculpido a Machado, seu álbum de estreia, ia ser originalmente uma EP — mas cresceu organicamente, faixa após faixa, até virar um trabalho completo. Desta vez, manteve o formato enxuto de propósito.
“Lancei dois discos, meu último disco deu bom. Então pensei: vou lançar um EP pra testar versatilidade, ver o que o público acha de algumas sonoridades”, explica. É uma espécie de aquecimento pro terceiro álbum, um laboratório sonoro onde cada faixa funciona como experimento independente, mas todas conversam entre si.
É nas músicas que o conceito da EP se revela completamente. “Túnel Rebouças”, a abertura, é a travessia literal e simbólica. Aquela imagem da mãe de Leall atravessando o túnel pra trabalhar em Botafogo ficou gravada nele desde criança. Agora, ele próprio faz essa travessia — mas como MC, como artista em ascensão, como jovem negro acessando espaços que a burguesia carioca não espera que ele ocupe.
Não é paranoia, é realidade. A simples presença de um rapper de Marechal Hermes em ambientes da Zona Sul carrega tensão, desconfiança, olhares de lado. “Túnel Rebouças” documenta essa tensão e, ao mesmo tempo, a recusa em aceitar que aquele não seja também seu lugar.
Logo na sequência, “Noites Traiçoeiras” amplia a discussão. Com participação de MC Luanna — feat que Leall queria fazer há tempos e finalmente se concretizou —, a faixa fala da pressão de se manter no caminho certo quando você é de onde não esperam que saia. É sobre a responsabilidade de não cair nas tentações que a vida oferece, de não dar motivos pra sociedade dizer “eu avisei”. É sobre provar, sempre provar.
Mas o EP não é só tensão. “Mulher Brasileira”, com o londrino Blanco, quebra esse clima pesado com uma vibe mais festiva. Blanco esteve no Rio, fez sessão com Leall, voltou pra Londres, voltou de novo pro Brasil. Quando finalmente gravaram juntos, a química foi imediata. “O moleque é gente boa, fala português, desenrola”, Leall comenta com um sorriso. Ele já era fã do trabalho de Blanco antes, e agora são amigos que trocam ideia sobre música — exatamente o tipo de conexão internacional que o rap brasileiro vem construindo nos últimos anos.
E por que era importante ter esse respiro no meio do projeto? Por equilíbrio. “Um pouco de droga, um pouco de salada”, Leall diz, usando uma metáfora perfeita. Você não pode manter a tensão o tempo todo — precisa deixar o ouvinte respirar, fisgar públicos diferentes, mostrar versatilidade. É uma lição que ele aprendeu entre Esculpido a Machado e Eu Ainda Tenho Coração. O primeiro é um disco conceitual, onde as faixas funcionam em conjunto, contando uma história linear. O segundo já foi pensado pra ter músicas que funcionam sozinhas e também juntas.
“As faixas têm que fazer sentido juntas, mas precisam funcionar sozinhas também”, ele explica. É o dilema de todo artista que quer fazer trabalhos coesos sem perder o impacto de singles. Com Você Precisa do Álibi, Leall sente que encontrou esse equilíbrio, seis faixas soltas o suficiente pra respirarem, mas que conversam entre si, formando um painel das inquietações de um jovem negro em trânsito.
O EP termina onde muitos trabalhos modernos evitam ir: na desaceleração. “Era Digital” trata exatamente disso — a dificuldade de parar, de respirar, de desacelerar num mundo que cobra velocidade constante. A faixa traz um monólogo que sintetiza o que Leall estava sentindo durante a criação do projeto. “Traduzia bastante do que eu queria falar na música”, ele conta. Não era sobre adicionar um discurso — era sobre ilustrar um sentimento.
Do drill ao jazz: laboratório sonoro
Em “Era Digital”, há uma escolha importante: Eduardo Farias, músico carioca, gravou teclado de forma orgânica. É o primeiro passo na direção que Leall quer seguir no próximo álbum — mais instrumentos reais, menos samples, uma aproximação com o jazz que não seja apenas conceitual, mas literal. Com El Lif, o beatmaker, eles estão testando essa sonoridade mais madura.
O que vem por aí aponta pra uma direção surpreendente: música cada vez mais orgânica, com instrumentos ao vivo, arranjos de banda e, principalmente, jazz — gênero que Leall vem estudando e quer trazer com mais força pro rap brasileiro. “Rap e jazz já têm tudo a ver, mas eu quero trazer isso mais pra minha música.” Não é apenas admiração teórica. Ele está aprendendo a produzir seus próprios beats, estudando produtores como The Alchemist e Conductor Williams — este último com quem trocou mensagens recentemente sobre beats.
Mas suas principais referências nessa jornada rumo ao jazz são brasileiras: Criolo e, especialmente, Marcelo D2. “O D2 é referência máster na procura da batida perfeita”, diz Leall com reverência. O último álbum de D2, que mistura samba com graves de trap, é exatamente o tipo de fusão que ele quer explorar. “Pegar uma parada daqui, outra dali e criar uma parada nova — é isso que me interessa.” Amadurecer a música, adicionar camadas de complexidade sem perder a identidade do rap de rua — isso move Leall agora.

Pra fazer Você Precisa do Álibi, ele trabalhou com três produtores: CHF, que manda beats remotamente em quantidade industrial (às vezes 10 de uma vez); Beat do Ávila e Mahai, com quem fez sessões presenciais intensas na Rock Danger, às vezes duas, três vezes por semana, durante quase um ano.
“Gosto dessa parada de ir pro estúdio com o produtor ali, criar uma coisa na hora, sugerir mudanças”, ele conta. É nessa dinâmica que surgem os imprevistos criativos, as viradas que transformam uma ideia boa numa faixa memorável. Leall gosta de descobrir talentos novos também — como o engenheiro de som que fez a pré-mix do EP, um “moleque novo” que deu “um tapa” na finalização do projeto.
Leall não está sozinho nessa jornada de redefinir o rap brasileiro. Ele faz parte de uma geração que está ampliando as fronteiras do gênero. Quando cita nomes como Maui, que lançou um disco com várias sonoridades diferentes, ou Nanda Tsunami, que descobriu recentemente e está curtindo “pra c*ralho”, fica claro que há uma cena efervescente acontecendo. E não só no mainstream — o underground também está criando, buscando coisas novas.
“A molecada tá sempre querendo buscar alguma parada sua também. Isso é bom pro movimento”, ele observa. É uma geração que não aceita fórmulas prontas, que quer experimentar, que vê o rap como campo aberto pra inovação. Leall se inclui nesse grupo — e, de certa forma, é um dos veteranos dessa turma, mesmo com apenas dois álbuns na bagagem.
Nasci pra arte: família, futuro e liberdade
E o terceiro álbum? Ainda é um mistério, inclusive pra ele (ou pelo menos é o que a assessora quer que ele diga). “Tô procurando ainda o que vai ser”, admite com honestidade. Mas algumas coisas já estão claras: vai ter música mais orgânica, instrumental, banda, arranjos diferentes. E vai ter beat do próprio Leall — pela primeira vez, ele aparece como produtor no próprio disco. É um passo novo, assustador, mas necessário.
Como todo artista perfeccionista, Leall sabe que o disco só fica pronto no último segundo. “Até dois dias antes do lançamento, tu fica: ‘pô, dava pra mudar isso, dava pra mudar aquilo’.” É o tormento criativo de quem leva a sério cada detalhe, cada escolha, cada palavra.
Mas uma coisa não muda: a importância da família nessa trajetória. Leall é o primeiro músico da sua linhagem. Pros mais novos, ele é espelho — a prova de que dá pra seguir esse caminho. Pros mais velhos, é motivo de orgulho. Ver o filho, o sobrinho, o primo tocando em festival, aparecendo na TV, sendo reconhecido na rua — “isso é sem palavras”, é o que, segundo ele, os familiares dizem.
E é justamente esse reconhecimento cotidiano que mais emociona Leall. Não os grandes palcos, mas o primo que fala “cara, tava tocando tua música ali em tal lugar”. É estar no shopping e ser reconhecido. É saber que sua música tá circulando, que tá fazendo sentido pra vida das pessoas. É a prova de que a arte funciona como álibi — não pra se justificar, mas pra existir plenamente.
Quando perguntado qual verso do EP resume tudo, Leall não hesita: “Nasci pra arte, nasci pra ser relevante.” Sete palavras que carregam uma filosofia inteira. Não é sobre provar nada a ninguém. É sobre entender que a arte é o destino, que a relevância não é busca, é consequência. Que um jovem negro de Marechal Hermes pode atravessar o Túnel Rebouças — e ocupar qualquer espaço que quiser, sem pedir licença, sem dar explicações.
No dia 7 de março, Leall sobe no palco do Circo Voador pra provar tudo isso ao vivo. Você Precisa do Álibi não é só um EP — é uma declaração de liberdade. O direito de ir e vir, de criar e se reinventar, de ser profundo e ser festa, de misturar drill com samba, de trazer Blanco pra uma faixa e citar João Nogueira na outra. É o direito de não precisar de álibi nenhum além da própria arte.
E se a arte é o álibi, Leall já provou seu caso.
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