Louis Tomlinson: “Estou me perguntando ‘como cheguei até aqui?’ o tempo todo”
Ex-One Direction fala à Rolling Stone Brasil sobre terceiro álbum, gravação na Costa Rica e a confiança conquistada após cinco continentes de turnê
Kadu Soares (@soareskaa)
“Como cheguei até aqui?” É uma pergunta que todo mundo se faz em algum momento da vida. Mas quando você vendeu milhões de discos com o One Direction, lotou arenas em 34 países como artista solo e está prestes a lançar seu terceiro álbum de estúdio, a resposta ganha camadas um pouco mais complexas. Para Louis Tomlinson, essa não é apenas uma questão retórica. É o título do seu novo trabalho, How Did I Get Here?, lançado hoje, 23.
Desde que o 1D entrou em hiato em 2016, Louis trilhou um caminho próprio e consistente. Seu álbum de estreia, Walls (2020), vendeu mais de 1,2 milhão de cópias e alcançou cerca de 1 bilhão de streams. O segundo, Faith in the Future (2022), estreou em primeiro lugar no Reino Unido, Espanha, Argentina e Bélgica, e entrou no Top 5 da Billboard 200 nos Estados Unidos. A turnê que seguiu o disco passou por cinco continentes, lotou arenas em 34 países e registrou um feito histórico: Louis se tornou o primeiro artista solo masculino a liderar um show no Autódromo Hermanos Rodríguez, na Cidade do México.
Agora, com um novo álbum no horizonte e uma confiança renovada, Louis Tomlinson está pronto para responder — ou pelo menos tentar — a pergunta que dá título ao disco. Entre sessões de composição no interior da Inglaterra e três semanas intensas em Santa Teresa, na Costa Rica, ele construiu um trabalho que descreve em três palavras: positivo, honesto e tranquilo.
E em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, Louis fala sobre o processo criativo ao lado do produtor Nico Rebscher, revela suas influências musicais, conta como a turnê mundial o transformou como artista e confirma: a volta ao Brasil é inevitável.
A pergunta que não sai da cabeça
O título How Did I Get Here? não surgiu por acaso. Para Louis Tomlinson, essa é uma pergunta recorrente, que reflete tanto gratidão quanto reflexão sobre a jornada que o trouxe até aqui.
“É uma questão que eu me faço o tempo todo, sabe? Sou realmente muito grato por estar onde estou”, conta ele. “Eu queria algo que fosse instigante e reflexivo, mas que também tivesse uma escala, um impacto. É uma declaração bem grande, uma grande pergunta, na verdade. E eu queria esse nível de ambição para este disco”.
Essa ambição, no entanto, não veio do nada. Ela foi construída ao longo de anos de estrada, shows, erros e acertos. E foi justamente a última turnê — a Faith in the Future World Tour — que deu a Louis a segurança necessária para embarcar neste novo projeto com confiança total.
“Honestamente, veio dos shows da turnê. Eu definitivamente precisei fazer aqueles shows para me sentir realmente confortável como artista”, admite. “Aqueles momentos, aqueles sentimentos, realmente influenciaram a forma como escrevi. Eu estava em um lugar melhor fazendo este disco. Me senti realmente confiante sobre o que queríamos alcançar”.
Estar confiante faz toda a diferença no processo criativo, e Louis sabe disso. Mas ele também reconhece que essa sensação não veio naturalmente — foi conquistada com muito trabalho.
“É importante, com certeza, e definitivamente torna todo o processo mais fácil. Houve momentos em que me senti desafiado, mas isso vem de muito trabalho duro, sabe? Não é algo que vem de forma natural para mim”, diz. “Então, acho que levou muito trabalho duro para chegar aqui, mas é bom sentir esse tipo de conforto, com certeza”.
A Faith in the Future World Tour foi, sem dúvida, um divisor de águas. Passar por cinco continentes, lotar arenas em 34 países e estádios em outros cinco não é para qualquer um. E o feito no México solidificou ainda mais o lugar de Louis como um artista consolidado.
“Já sei como vai ser incrível a atmosfera de cada show. Há tanta paixão, tanto amor na sala. Então, estou realmente muito empolgado para sair pra estrada de novo”, antecipa.
Do interior da Inglaterra ao paraíso tropical da Costa Rica
O processo criativo de How Did I Get Here? teve dois cenários bem distintos. Louis começou escrevendo no interior da Inglaterra, em um ambiente tranquilo e familiar. Mas foi em Santa Teresa, na Costa Rica, que o álbum realmente ganhou forma.
Ele passou três semanas no início de 2025 nessa pequena cidade litorânea, imerso em um ambiente tropical ao lado do colaborador e coprodutor Nico Rebscher. E, ao contrário do que pensava quando era mais jovem, Louis descobriu que o ambiente realmente influencia o processo criativo.
“Quando eu era mais jovem, eu não acreditava nisso, sabe? Que suas ideias pudessem ser influenciadas pelo que te cerca. O que era obviamente bem ingênuo da minha parte”, admite ele com um sorriso. “Mas agora que fiquei um pouco mais velho, é algo que me interessa muito. E ir para lá, tudo excedeu minhas expectativas. A sensação, a aparência… era realmente muito tranquilo”.
Santa Teresa, segundo Louis, era perfeita para o que eles precisavam. “É uma cidade bem contida, então foi muito legal assim. Conhecemos os lugares locais e havia uma sensação muito, muito boa sobre tudo. E acho que isso definitivamente transparece no disco”.
A ideia de gravar em um paraíso tropical não era nova para ele. “Eu sempre quis gravar em um cenário de paraíso tropical, só para ver o que faria pelas músicas”, conta. “Quero dizer, em primeiro lugar, ir para um lugar lindo, sentir a vibe, a cultura… mas todas essas coisas são realmente muito boas para a composição”.

E embora não tivesse a Costa Rica especificamente em mente desde o início, Louis se sente imensamente grato pela escolha. “Não era especificamente Costa Rica que estava sempre na minha cabeça. Eu só queria ir para algum lugar tropical. Mas estou tão, tão grato que foi isso que escolhemos no final, porque Santa Teresa era simplesmente perfeita, absolutamente perfeita para o que precisávamos”.
Quando perguntado sobre as influências que moldaram How Did I Get Here?, Louis não hesita em citar alguns nomes que estavam em constante rotação durante o processo de criação.
“O último álbum que realmente amei é Romance (2024), o mais recente do Fontaines D.C. Amei muito aquele disco, muito, muito musicalmente expansivo”, diz ele.
Do ponto de vista lírico, Louis se inspira em Sam Fender. “Sou fã dele. Amo os assuntos sobre os quais ele escreve. Amo a forma como ele escreve as letras dele. Então ele definitivamente é sempre uma inspiração”.
E há também o Tame Impala, que influenciou a estética do álbum. “Um pouco dele também, especialmente quando eu estava pensando em algo um pouco mais colorido na estética. Gosto da forma como eles brincam com uma estética um pouco mais colorida, mas também com paisagens sonoras. Então, sim, eu diria que entre esses três”.
Nico Rebscher: o cientista maluco da produção
Embora Louis Tomlinson seja creditado como coprodutor de How Did I Get Here?, ele faz questão de destacar o papel fundamental de Nico Rebscher no processo.
“Não tenho certeza se posso reivindicar isso”, diz ele com modéstia. “Obviamente eu tenho uma visão de como o disco vai soar e tenho, sei lá, um milhão de notas de produção diferentes ao longo dos vários rascunhos das músicas. Mas é na composição que me sinto mais confiante”.
E é aí que Nico entra. Para Louis, o produtor é peça-chave tanto pelo talento quanto pela pessoa que é. “É tipo 50-50 com ele. Ele traz muito para o som, mas também é uma pessoa realmente boa, calorosa. Ele realmente torce por mim e temos um relacionamento muito bom assim”.
Mas é a maneira como Nico trabalha que realmente impressiona Louis. “Ele é como um cientista maluco. Ele joga todas essas cores diferentes nas músicas, sabe? Algumas das ideias dele são igualmente geniais e estranhas, mas eu amo isso. Amo como o cérebro dele funciona. É muito legal e definitivamente adicionou muita profundidade ao disco musicalmente”.
Essa parceria criativa permitiu que Louis explorasse territórios sonoros novos, criando um álbum que se diferencia bastante de Faith in the Future. “Cada turnê que você faz definitivamente informa a próxima, mas especificamente para esta próxima, como este álbum é bem diferente sonicamente de Faith in the Future, vai parecer e sentir um pouco diferente de qualquer forma”.
O primeiro gostinho de How Did I Get Here? veio com “Lemonade”, single que ultrapassou 12 milhões de streams e entrou em alta rotação nas rádios de todo o mundo, incluindo o Brasil. A faixa mostra um Louis confiante, com uma produção pop guiada por guitarras e uma energia contagiante.
Posteriormente, ele lançou “Palaces“, que traz uma abordagem mais introspectiva abordando o retorno às origens e às memórias que moldam quem somos — uma resposta musical à pergunta do título do álbum.
Novo álbum = nova turnê
Com o álbum pronto e os singles conquistando o público, Louis Tomlinson já anunciou a How Did We Get Here? Tour, que passará por arenas da Europa e América do Norte a partir de março de 2026. E embora os ingressos já estejam à venda, ele prefere não criar expectativas muito específicas sobre o que espera da turnê.
“Não tenho certeza, realmente. Quero dizer, em termos do que espero de mim mesmo, estou empolgado com a forma como esta turnê vai me testar um pouco, sabe? Há obviamente um álbum inteiro de músicas novas, alguns espaços maiores do que eu já toquei antes. Então vai ser intimidante, mas vai ser um bom desafio. Gosto disso”, diz ele.
Mas há uma coisa da qual Louis tem absoluta certeza: a atmosfera dos shows. “Em termos de expectativa, olha, sei que tenho sorte de pensar assim, mas já sei como a atmosfera vai ser incrível em cada show. Há tanta paixão, tanto amor na sala. Então estou realmente muito empolgado para sair na estrada.”

Quanto a aprendizados de turnês anteriores que ele levará para esta nova jornada, Louis é sincero. “Provavelmente deveria ter alguns, depois de todo o tempo que passei em turnê. Provavelmente deveria aprender com os erros que cometo ao longo do caminho. Mas não, não realmente”, admite com uma risada. “Acho que cada turnê que você faz definitivamente informa a próxima, mas como este álbum é bem diferente sonicamente, vai parecer diferente de qualquer forma. Então as duas vão ser bem separadas, eu acho”.
E para a alegria dos fãs brasileiros, Louis deixa claro: a volta à América do Sul é inevitável. “Sim, 100%, é inevitável. Deus sabe quando vamos anunciar, mas sim, já falei um milhão de vezes o quanto amo aqueles momentos ao vivo e os shows lá. Então é só questão de tempo até anunciarmos”.
Ele brinca sobre os bastidores: “Tenho certeza de que todo mundo está cuidando da logística e das coisas chatas, mas assim que isso estiver resolvido, vamos anunciar com certeza”.
Uma era positiva, honesta e tranquila
Se Louis Tomlinson tivesse que definir How Did I Get Here? em três palavras, ele escolheria: positivo, honesto e tranquilo.
São três palavras que, de certa forma, capturam não apenas a sonoridade do álbum, mas também o momento em que ele se encontra. Mais maduro, mais confiante, mais conectado consigo mesmo e com sua música.
“Positivo, honesto e tranquilo às vezes”, diz ele, ponderando sobre cada escolha. E essas características permeiam não apenas as canções, mas toda a jornada que levou à criação do disco — da Inglaterra à Costa Rica, dos shows lotados às sessões intimistas de composição, da pressão da estrada à tranquilidade do paraíso tropical.
“Como cheguei até aqui?” Louis Tomlinson continua descobrindo a resposta. Mas se há algo que ficou claro nesta conversa é que a jornada foi construída com trabalho duro, confiança conquistada show após show, e uma vontade genuína de seguir evoluindo como artista.
Do garoto do One Direction que conquistou o mundo ao artista solo que lota arenas em cinco continentes, Louis traçou um caminho próprio e autêntico. How Did I Get Here? é, ao mesmo tempo, uma pergunta e uma celebração — de tudo que ele viveu, de tudo que construiu, e de tudo que ainda está por vir.
“Sou realmente muito grato por estar onde estou”, ele repete, e é impossível não sentir a sinceridade nessas palavras. Hoje, logo após o lançamento do disco, talvez a pergunta tenha menos importância do que a jornada em si. Porque, no final das contas, é isso que How Did I Get Here? celebra: o caminho, não apenas o destino.
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