ENTREVISTA

Lzzy Hale fala à RS sobre Halestorm no Brasil, Ozzy Osbourne e ‘fãdemônios’

Banda de hard rock capitaneada pela cantora e guitarrista visita o país pela quarta vez para realizar três shows, um deles no festival Monsters of Rock, em São Paulo

Igor Miranda (@igormirandasite)

Lzzy Hale, do Halestorm - Foto: Scott Legato / Getty Images
Lzzy Hale, do Halestorm - Foto: Scott Legato / Getty Images

Lzzy Hale sabe que tem certa dívida com o público do Brasil. Embora tenha visitado o país para uma participação durante um show em Piracicaba (SP) no ano de 2023, faz uma década que sua banda, o Halestorm, não se apresenta por aqui.

“Meu Deus, já era mais que hora. Ainda não consigo acreditar que faz tanto tempo, então temos que compensar”, confidencia à Rolling Stone Brasil a vocalista e guitarrista americana, que, junto do irmão Arejay Hale (bateria), Joe Hottinger (guitarra) e Josh Smith (baixo), cumpre as seguintes datas por aqui:

  • 01/04: Porto Alegre (Jockey Club) — abrindo para Guns N’ Roses;
  • 04/04: São Paulo (Allianz Parque; festival Monsters of Rock) — com Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler;
  • 08/04: Curitiba (Live Curitiba) – abrindo para Extreme.
  • Ingressos no site oficial da banda

Nesta entrevista, a frontwoman fala sobre o momento atual da banda, antecipa o que pode rolar nos shows e celebra o álbum mais recente, Everest (2025). Também houve espaço para relembrar a participação de seu grupo no Back to the Beginning, festival que marcou as despedidas de Ozzy Osbourne e do Black Sabbath. “Essa tarde vou cheirar uma carreira de formigas pra celebrar o cara!”, brincou sobre o saudoso cantor, que nos deixou em julho.

Entrevista com Lzzy Hale — Halestorm

Rolling Stone Brasil: Sei que músicos normalmente não têm uma resposta para essa pergunta, mas por que demorou tanto tempo para vocês voltarem?
LH: É tanta coisa. Agenda, trabalho em álbuns, fazer questão que uma vinda seja financeiramente viável. Às vezes são os produtores, outras vezes temos show marcado e de repente não rola por motivos misteriosos. Não é porque a gente não quer — era pra ter acontecido há muito tempo.

O Halestorm veio ao Brasil três vezes. O primeiro show foi em 2013, na turnê do álbum The Strange Case of…, numa casa noturna em São Paulo para mil fãs. Você tem alguma lembrança?
LH: Eu tenho! Discutimos isso bastante ao longo dos últimos 10 anos, porque foi a primeira vez que isso aconteceu e nunca vimos acontecer do mesmo jeito: a plateia estava quase fazendo um show pra gente. Foi inesperado. Eles tinham cartazes pra quase toda música, pessoas jogando coisas pra cima e no final do show, soltaram balões em “Here’s to Us” — não sei onde estavam escondendo. Ninguém na plateia tratou aquilo como um dia qualquer. Levamos conosco desde aquela vez. Além disso, o fãdemônio no país. A empolgação, o fervor das pessoas acampando no hotel e em frente à casa de shows. Acho que a gente quase perdeu meu irmão mais novo [Arejay] porque estavam o puxando numa direção. Tivemos que pegar pela camisa dele pra trazê-lo de volta.

Dois anos depois, em 2015, a banda veio para um show no Rock in Rio, uma apresentação enorme no mesmo dia que System of a Down, Queens of the Stone Age, Deftones e várias outras bandas. Que memórias você tem dessa segunda vez?
LH: Foi como se a plateia inteira fosse esse monstro coletivo. Lembro do público inchando e era como se ninguém parasse de se mexer. É algo único do Brasil, porque dependendo do festival nos Estados Unidos, pessoas agitam apenas em uma ou outra banda. Já ali, todo mundo estava presente mesmo. Também voltei pra cantar uma música do Led Zeppelin com o Hollywood Vampires no final da noite. Foi incrível! Alice Cooper é um dos meus ídolos. Lembro de pensar: “Deus, esse é o melhor dia da minha vida”. Toda banda deveria vir ao Brasil e ter isso como experiência. E naquele dia eu estava tão queimada de sol porque tinha passado a véspera na praia. A alça da guitarra machucava!

A última visita da banda até agora foi um ano depois, para tocar no Maximus Festival com Rammstein, Disturbed, Bullet For My Valentine, outras bandas. Do que você se lembra?
LH: Amei que nos víamos como uma anomalia. Somos uma banda de rock que às vezes entra em território de metal, mas naquele dia estávamos cercados de bandas de metal bem pesadas. Lembro de falar pro resto da banda: “não sei como vão reagir à gente”. Achava que só seríamos aceitos com sorte. Porém, a energia que recebemos daquela plateia acabou com todo medo ou dúvida. Todo mundo nos aceitou como a irmãzinha e os irmãozinhos. Foi acolhedor. Também demos muitas entrevistas. Não houve muito tempo para comida, mas rolou muito energético, então a gente estava ligadaço!

Agora, Halestorm vai fazer três shows, um deles no festival Monsters of Rock num estádio em São Paulo. O quão legal é dividir o palco com Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme e outros artistas?
LH: É um sonho realizado. Sempre estive uns 10 anos atrasada no meu gosto musical quando adolescente: nos anos 1990, eu estava escutando músicas dos anos 1970 e 1980 do meu pai. Guns N’ Roses foi uma parte grande disso. Ver como cheguei aqui, lembrar minha versão adolescente e falar: “sua banda vai tocar com esses caras”… Ainda não consigo acreditar e me deixa grata de estar aqui. Além disso, é meio que uma culminação, porque é a primeira vez do Halestorm tocando com o Guns N’ Roses, mas já fizemos vários shows com Slash e já conheci todos os outros caras antes. E algo que ainda me dá satisfação é poder nos provar para pessoas que nunca nos viram ao vivo antes e acho que alguns fãs do Guns provavelmente conhecem a gente de nome, mas nunca viram a banda ao vivo, então fico empolgada de fazer pessoas pensarem: “uau”.

Além disso, o Halestorm vai tocar pela primeira vez em Porto Alegre, com o Guns N’ Roses, e Curitiba, com o Extreme. Será um show parecido com o do festival ou vai rolar algo diferente para essas datas?
LH: Provavelmente faremos algo diferente porque temos fãs que nos seguem por todo show. Muito provável que mudemos um pouco. Podemos incluir algumas músicas diferentes, talvez trocar algumas coisas, fazer uns medleys. Vai depender do dia e como nos sentimos na hora, mas será único para quem for.

Como você está preparando o setlist? Pergunto porque nos shows de headliner, o Halestorm está tocando 20 músicas, incluindo o álbum Everest quase inteiro. Como serão as escolhas de faixas para o Brasil?
LH: Infelizmente, já se passaram 10 anos desde a última vez que realmente fizemos shows no Brasil, então não se trata apenas de promover o novo álbum. Temos alguns álbuns para tocar ao vivo para vocês, que talvez vocês nunca tenham visto ao vivo antes. Então, vamos percorrer todo o nosso catálogo como uma demonstração de gratidão pela paciência e amor incondicional.

Vi que a banda tem tocado regularmente a versão de “Perry Mason” apresentada no Back to the Beginning [festival de despedida de Ozzy Osbourne e Black Sabbath]. Como a plateia tem reagido a essa canção nos seus próprios shows até agora?
LH: Acho que todo mundo quer uma oportunidade de homenagear Ozzy Osbourne e do seu jeito celebrar sua vida, agradecer a ele por tudo que nos proporcionou e o legado que deixou para trás. Foi curioso que estávamos tocando “Perry Mason” como parte do set até o dia em que ele morreu. Então, tivemos uma conversa: “Será que a gente continua ou vai parecer forçado após a notícia?”. Decidimos que precisamos mantê-la no lugar, preservar o legado e manter pessoas falando sobre ele.

Acho que todo mundo já te perguntou sobre isso, mas preciso perguntar também: como foi a experiência de tocar no show de despedida do Ozzy Osbourne?
LH: Foi incrível. Não acho que haverá outro show que nem aquele. Não havia ego entre todos aqueles deuses do rock. Ninguém trouxe produção. Ninguém estava acima de Black Sabbath e Ozzy Osbourne. Isso é algo que você raramente vê. A gente estava nos bastidores e de repente Steven Tyler e eu estávamos conversando sobre o show. Ele falou: “Você acredita que estamos tocando com Black Sabbath?” Fiquei chocada, porque era o Steven Tyler. Isso não deveria ser algo grande pra ele, mas foi pra grande todo mundo envolvido: desde os caras do Metallica, Mastodon, todo mundo. Todos se reverteram à adolescência, àquela empolgação de descobrir Sabbath e Ozzy. E na plateia, acho que nunca estive em outro show no qual todo mundo estava focado em todo momento no palco. Ninguém queria perder nada. Duvido sequer que alguém tenha ido ao banheiro aquele tempo todo. Quando Ozzy finalmente subiu no palco, não tinha um olho seco no lugar. Comecei a chorar e todos na minha banda também. Depois reparo e todo mundo no estádio está em prantos. A música uniu todo mundo naquele dia. Além disso, que jeito de se despedir em grande estilo. Faz uma festa, um show enorme com todos seus amigos, arrecada um dinheirão pra caridade e então, tchau galera. Acho que ele fez do jeito certo. Vamos sentir muita falta dele. É estranho falar que ele se foi. Parece que há um superpoder relacionado ao Ozzy Osbourne que você acha que ele é imortal, mas você sabe que enquanto vivermos nossas vidas como o Ozzy, seu legado vai durar pra sempre. É incrível. E essa tarde vou cheirar uma carreira de formigas pra celebrar o cara!

Não faça isso! Nem tudo que ele fez precisa ser repetido! Eu mencionei brevemente Everest, então gostaria de fazer uma pergunta sobre ele. Grande álbum, aliás. É mais diversificado e soa mais orgânico, quase como ao vivo, talvez devido à produção do Dave Cobb. Gostaria de ouvir sua opinião seis meses depois do lançamento, como você vê o álbum agora?
LH: Acho que é um verdadeiro retrato de onde estávamos naquele momento e onde estamos agora. Este poder bruto e som ao vivo é porque fizemos assim mesmo. Tradicionalmente, para todos os outros discos anteriores, entrávamos no estúdio com, digamos, 16 a 60 músicas prontas. E então reduzíamos, fazíamos demos, tudo já mais ou menos planejado antes de gravar. Dessa vez, a pedido de Dave Cobb, ele pediu para não trazermos nenhuma demo. Ele falou: “Eu não quero ouvir nenhuma música que você escreveu ontem. O que eu quero fazer com vocês é colocá-los em uma casa em Savannah, Geórgia, e todas as manhãs vamos descer e escrever uma música e, enquanto estamos escrevendo, vamos gravá-la em tempo real”. Estávamos descobrindo a música em tempo real enquanto gravávamos. Começávamos todas as manhãs durante o café e seria tipo: “Ok, quem tem um riff, uma linha, um título, o que nos anima hoje?” Até o fim da tarde, tínhamos algo criado. Quando me ouço cantar nesse disco, consigo ouvir quase um receio, um pouco de nervosismo. Nada era pensado demais. Deixamos a música nos dizer o que fazer, não o contrário. Houve alguns dias em que parecia um caos, mas porque temos confiança e amor uns pelos outros.

Shows no Brasil

  • 01/04: Porto Alegre (Jockey Club) — abrindo para Guns N’ Roses;
  • 04/04: São Paulo (Allianz Parque; festival Monsters of Rock) — com Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler;
  • 08/04: Curitiba (Live Curitiba) – abrindo para Extreme.
  • Ingressos no site oficial da banda

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
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