Marina Sena encontra sua melhor versão em novo álbum: ‘Agora não tenho mais medo’
Em um retiro musical — e, de certa forma, espiritual — de 10 dias, cantora se reuniu com ex-colegas de A Outra Banda da Lua para idealizar o terceiro disco solo
Felipe Grutter, editor-chefe (@felipegrutter)
Publicado em 01/04/2025, às 07h00 - Atualizado em 03/04/2025, às 10h21
“Missão cumprida, graças a Deus, meu Deus do céu. Tá chegando a hora”, celebra Marina Sena em entrevista à Rolling Stone Brasil concedida pouco mais de uma semana antes do terceiro disco de estúdio solo, intitulado Coisas Naturais (2025), chegar nas plataformas digitais.
A carreira de Marina veio como um verdadeiro furacão. Após passagens por A Outra Banda da Lua e Rosa Neon, a cantora mineira iniciou a caminhada solo em grande estilo com o lançamento do álbum De Primeira (2021), que fez sucesso com músicas como “Por Supuesto” e “Voltei Pra Mim”.
Desde então, ela conquistou muito. Foram shows pelo Brasil e mundo afora, parcerias com grandes artistas, sucesso musical e comercial, extensas turnês, reconhecimento internacional e muito mais. Após o lançamento do segundo disco solo, Vício Inerente (2023), Marina se perguntava sobre o que faria em seguida: montar uma nova banda ou um projeto à parte?
“Quem é criativo sabe como é. A gente precisa de umas revoluções na vida, de uma chama acesa dentro de você para realmente fazer uma coisa que você acredita”, ponderou. “Com técnica, você consegue fazer o básico, mas, para realmente criar algo que alimente sua alma, é preciso estar com a chama bem acesa”.
Como solução, a artista decidiu trazer pessoas para perto com o intuito de tirar melhor proveito artístico. Entre eles estão André Oliva e Matheus Bragança, que formaram A Outra Banda da Lua com ela, e o produtor musical Janluska. Marina já tinha algumas músicas do disco novo no violão, instrumento fundamental para ela, como “Numa Ilha”, “Ouro de Tolo” e “Mágico”.
Para recalcular essa rota, a cantora alugou um sítio perto da cidade de São Paulo, onde mora, e montou uma banda na sala, com os melhores equipamentos possíveis. Ao longo de 10 dias, enquanto repousava de uma cirurgia simples, ela focou completamente em fazer música. Mais tarde, essa viagem resultaria em Coisas Naturais.
Foi realmente um sonho realizado, porque quando comecei a cantar profissionalmente, meu maior sonho era fazer isso com A Outra Banda da Lua. Era o sonho da nossa vida poder emergir dessa forma.
A rotina era bem tranquila: acordava às oito da manhã e já recebia dos amigos alguns acordes de guitarra, linha de bateria e percussão e uma base de synth. “De repente, eu estava escutando ali a manhã inteira. Quando era meio-dia, eu já tinha uma melodia. Quando eram duas horas da tarde, eu já tinha uma letra, sabe?”, relembrou. “É muito importante para mim que a música flua e eu não tenha muitos limites para fazê-la. Que a música esteja realmente nesse ambiente mais fluido”.
Vibe paradisíaca cercada de amor e uma sonoridade sólida
O tom de Coisas Naturais é paradisíaco, especialmente guiado pelo videoclipe psicodélico de “Numa Ilha”, primeiro single desta nova era de Marina Sena. A intenção dela foi trazer a sensação de América do Sul, seja no som ou na estética visual.
“Foi um trabalho que fiz comigo mesma, de me colocar nesse lugar, principalmente por ser do interior, e a América Latina é o interior, né? Tem mais interior do que qualquer outra coisa na América Latina”, disse. “Tem muita gente que se comunica no mesmo lugar, que compreende e valoriza as mesmas coisas, com tradições, comportamentos e cosmovisão parecidos”.
Ao longo das 13 faixas, a diva do pop brasileiro passeia por diversos gêneros musicais e não tem medo de explorar ou, como a própria diz, brincar com esses estilos diferentes, que passam pela MPB, bossa nova, brega em “Lua Cheia”, Lo-Fi em “Sensei”, reggae em “Combo da Sorte” e reggaeton em “Doçura”.
Esse vasto leque sonoro é natural para a mineira, que se considera eclética e preza por música genuinamente boa: “Não tenho muita preferência de ritmo. Para mim, em qualquer ambiente você pode ter esse tipo de personalidade. Não faço distinção”.
Mas, minhas escolhas rítmicas têm normalmente a ver com coisas que me atravessam e são extremamente brasileiras, ou coisas que são da América Latina e entram no Brasil, de certa forma como estrangeiras, mas são abrasileiradas aqui, sabe?

As músicas de Coisas Naturais se entrelaçam com o tópico do amor, que é discutido de diversas formas e usado como um pano de fundo para Marina contar a história das respectivas faixas.
“Gosto sempre de colocar uma paisagem atrás da história, sabe? Tem uma história acontecendo, mas tem uma paisagem atrás dela, para não ficar focado apenas na história. Por exemplo, em “Numa Ilha”, você não foca só no amor, mas no fato de ter uma ilha, um mar e da sensação do vento”, explicou. “Você foca nas outras sensações que esse ambiente traz”.
"Onde esse amor está? Na sala da casa? Na praia? É tentar compreender todas as faces do amor. Tem um momento de paixão, tem aquele momento que você precisa sair fora. Às vezes a pessoa nem é ruim, mas você precisa sair porque você tem que ver outras coisas. Então o amor nem é o foco. O foco é a minha libertação."
Marina Sena encontra sua melhor versão: ‘Essa é a Marina I, vamos dizer’
Antes de produzir oficialmente Coisas Naturais, Marina sentia falta da versão dela que fazia parte d’A Outra Banda da Lua: “Corajosa, destemida e muito sangue no olho. Uma força, uma coisa da terra, do norte de Minas que adoro e amo”. Segundo a cantora, ela conseguiu resgatar essa faceta que descobriu quando fazia parte do grupo.
“Então, nesse momento dessa descoberta, eu tava muito pura, muito... nem aí para nada, absolutamente nada”, disse. “Eu só queria entregar aquela arte. E é assim que tem que ser. Sentia falta e precisava resgatar ela ali. Consegui fazer sentido nessa história toda que eu tô contando com esses três álbuns”.
Agora me dá um respiro, um gás, para seguir quando você pega a matriz e trabalha nela.

Abaixo, leia a entrevista de Marina Sena com a Rolling Stone Brasil na íntegra:
Rolling Stone Brasil: Você se prepara para lançar seu terceiro disco solo da carreira. Eu queria entender um pouco mais sobre a história dele: quando ele surgiu? Como foi o processo criativo dele?
Passei um tempo pensando sobre o que faria após Vício Inerente. Pensei várias coisas, até em montar uma banda num momento. Eu falei: “Será que faço uma banda? E faço um projeto à parte?” Porque quem é criativo sabe como é. A gente precisa de umas revoluções na vida, de uma chama acesa dentro de você para realmente fazer uma coisa que você acredita.
Com técnica, você consegue fazer o básico, mas, para realmente criar algo que alimente sua alma, é preciso estar com a chama bem acesa. E aí pensei: “O que faço? Será que monto uma banda, faço um projeto à parte? Enfim, penso outra coisa para fazer e alimentar a minha criatividade?” Não precisei montar uma banda, mas eu trouxe pessoas para perto de mim que tiram o melhor de mim.
Ao lado dessas pessoas, consigo entrar exatamente nesse estado de entrega total à arte, o que faz com que coisas que amo fluam naturalmente. Que é André [Oliva] e Matheus [Bragança], que são d’A Outra Banda Da Lua, minha primeira banda. São duas pessoas que convidei para perto de mim para fazer esse álbum. E Janluska, meu produtor musical nesse álbum, é uma pessoa com a qual me entendi muito. Tivemos realmente um encontro muito legal.
Fiz o primeiro camp. Já estava com umas músicas no violão, tinha umas três músicas. “Numa Ilha”, “Ouro de Tolo” e “Mágico”. Aluguei um sítio perto de São Paulo, montei uma banda na sala. Eu acho que é o sonho de qualquer pessoa que tem banda, com os melhores equipamentos, captação e tudo.
Tudo podendo ser captado. Se a gente quisesse gravar um álbum dali, conseguíamos gravar um ao vivão ali, sabe? Bem gravado, com qualidade. Essa coisa boa de ter recurso, né? Nossa, muito bom ter recurso!
E foi realmente um sonho realizado, porque quando comecei a cantar profissionalmente, meu maior sonho era fazer isso com A Outra Banda da Lua. Era o sonho da nossa vida poder emergir dessa forma. Fiquei dez dias nesse sítio, que era o tempo de um repouso que eu tinha, de uma cirurgia simples que eu tinha feito, não precisava tanto ficar deitada. Então eu falei: “Pronto, 10 dias agora fazendo música”.
Fiquei muito imersa ali nessa coisa com os meninos. Foi Miguel também, baterista, e Thainã na percussão. E outros amigos foram lá, que são pessoas que tiram o melhor de mim e são super importantes.
Vivíamos muito a música ali. Eu acordava oito horas da manhã, Dedeco já estava com uma guitarra fazendo um mantra lá. Aí já chegava o Miguel e colocava a bateria, Thainã colocava a percussão e Janluska colocava um synth. De repente, eu estava escutando ali a manhã inteira. Quando era meio-dia, eu já tinha uma melodia. Quando eram duas horas da tarde, eu já tinha uma letra, sabe?
Então a música aconteceu de uma forma muito fluida… é o cotidiano, sabe? E isso é muito importante para mim: que a música flua e eu não tenha muitos limites para fazê-la. Que a música esteja realmente nesse ambiente mais fluido. Na época que eu estava n’A Outra Banda da Lua, ela era exatamente isso, estava exatamente nesse lugar mais fluido.
Depois que tudo aconteceu na minha carreira, eu não tive tanto tempo. Como Fernanda Torres disse, tudo vira look, toda hora é um look. É isso que vira o negócio. Precisei lutar para trazer mais dinâmica para a minha vida e conseguir colocar a música nesse lugar de novo, de mais fluidez. E isso aconteceu nesse ano! Consegui colocar exatamente onde é que eu ia criar, o tempo que eu ia criar e o tempo que eu ia à estrada ou fazer as coisas que eu tinha que fazer para alimentar a máquina.
Mas eu tive bastante tempo para criar... Ócio criativo, vamos dizer. Eu tive bastante tempo para criar, bastante tempo para deixar a música acontecer. Sem muita pressão
Rolling Stone Brasil: Incrível. Foi uma grande missão, então, né? Já tudo planejado, que legal.
Uma grande missão, nossa. Uma delícia, sim.
Rolling Stone Brasil: Cumprida? Ou ainda não sabe?
Missão cumprida, graças a Deus, meu Deus do céu!
Rolling Stone Brasil: Você falou de estar reunida com o pessoal d’A Outra Banda da Lua, né? Como foi ter essa... não sei se necessariamente reencontro, porque imagino que vocês deviam manter contato, mas esse reencontro artístico, de estar ali com eles. Meio que uma vibe nostálgica, talvez?
A Marina que eu era n’A Outra Banda da Lua é uma das Marinas que mais amo. Porque é corajosa, destemida e muito sangue no olho. Uma força, uma coisa da terra, do norte de Minas que adoro e amo. Senti um pouco de falta dessa Marina, d’A Outra Banda da Lua. E eu procurava formas, inclusive, de como trazer ela, como que eu faço isso fazer sentido aqui.
Acho que consegui fazer sentido nesse álbum, inclusive, porque eu vejo em muitos momentos a Marina d’A Outra Banda da Lua nesse álbum. E isso era importante para mim, sabe? Porque essa é a Marina I, vamos dizer. Eu sinto que, a partir do momento que estive n’A Outra Banda da Lua, eu nunca mais fui a mesma. Descobri uma coisa que eu nunca tinha descoberto sobre mim, dentro dessa banda. Uma força interior, meus talentos, minhas habilidades, minhas capacidades, eu descobri dentro dessa banda.
Então, nesse momento dessa descoberta, eu tava muito pura, muito... nem aí para nada, absolutamente nada. Eu só queria entregar aquela arte. E é assim que tem que ser. Sentia falta e precisava resgatar ela ali. Consegui fazer sentido nessa história toda que eu tô contando com esses três álbuns.
Agora me dá um respiro, um gás, para seguir quando você pega a matriz e trabalha nela.

Rolling Stone Brasil: Eu sinto que ele tem uma vibe muito paradisíaca, com muita influência de música latina. Quais sensações você quis passar neste novo trabalho?
Essa sensação de América Latina pulsante foi uma intenção minha. Inclusive de cada vez mais me fazer entender o quanto sou latina e o quanto o Brasil é um país latino. Entender, mesmo. Sabe quando uma coisa entra no seu coração e não só vira uma frase que você repete, mas é uma coisa mesmo que você sente?
Foi um trabalho que fiz comigo mesma, de me colocar nesse lugar, principalmente por ser do interior, e a América Latina é o interior, né? Tem mais interior do que qualquer outra coisa na América Latina. Tem muita gente que se comunica no mesmo lugar, que compreende e valoriza as mesmas coisas, com tradições, comportamentos e cosmovisão parecidos.
Estava até lendo um livro de Ailton Krenak, aí ele tem o conceito de florestania e cidadania. A gente vive na América Latina muito mais com o conceito de florestania. A gente vive muito mais em contato com a natureza do que pessoas que não vivem em contato com a natureza.
Tem muito mais gente vivendo no interior que precisa daquele organismo funcionando ali, que sabe e ama viver dessa forma — como eu vivi por muito tempo no interior. Agora não tenho tantas oportunidades de viver no interior, mas quero voltar em algum momento.
Rolling Stone Brasil: Eu tenho pouco contato com o interior. Minha namorada é do interior, vou às vezes, mas é gostoso, né?
A vida no interior é pacata, gente. E boa demais.
Rolling Stone Brasil: O ar limpo… O azul existe, né? Não é só cinza!
O vento bate na sua cara. Estrelas!
Rolling Stone Brasil: De volta ao Coisas Naturais agora: o disco tem três feats, divididos em duas faixas, de artistas fora do Brasil. Como foi essa decisão de chamar Gaia, Nenny e Çantamarta para colaborar com você? A língua foi um desafio?
Gaia, metade brasileira e metade italiana, tem bastante fluência em português e italiano, então ela faz uma música europeia com muita referência na música brasileira. Ela é bem estudiosa.
Nenny, que conheci pelo ótimo Colors dela, mora em Portugal. A gente se seguiu no Instagram, e aí quando eu fui fazer um camping lá, que eu passava a temporada, eu falei: “Ah, vou fazer um camping com os produtores daqui”. Aí eu convidei Gaia e a Nenny. Gaia foi lá da Itália para ir ao estúdio comigo em Portugal.
Foi maravilhoso. As meninas super talentosas são como eu: chega no estúdio e é dona da própria caneta. Gosta de canetar e caneta rápido. Tem habilidade na coisa. Então nós três, a mesma vibe. “Tokitô” é uma das minhas favoritas do álbum.
Çantamarta é uma banda na qual cada um é de um lugar. Tem gente da Colômbia, tem gente da Venezuela. Acho que todos eles moram em Madri, porque a banda funciona lá, mas cada um é de um canto aqui da América Latina. E aí eu já queria muito fazer música com eles. Aí surgiu essa oportunidade, que eu tava sampleando Zé Coco do Riachão, que é de Brasília de Minas, que é perto da minha cidade. Ele é um ícone norte-mineiro que todos amam. Além de instrumentista, ele fazia instrumentos, então tem uma legião de instrumentos que existem, que são do Zé Coco, e ele tem muitos alunos que seguem os passos dele. Uma super referência.
Eu tava sampleando o Zé Coco do Riachão, coloquei um reggaeton e comecei a cantarolar uma música do Çantamarta. Eu falei: “Quer saber? Vou chamar o povo do Çantamarta para fazer essa música”. Aí a gente ficou conversando: eu mandando para eles em espanhol e eles me mandando em português para facilitar a comunicação, só que todos no tradutor! Foi super legal, os meninos, super abertos a tudo, fizeram a parte deles. Inclusive, eles citam Cem Anos de Solidão [escrito por Gabriel García Márquez], o meu livro favorito, na parte deles da música. Aí eu mandei e falei: “Caralho, você não acredita. O meu livro favorito da vida é Cem Anos de Solidão”. E ele [respondeu]: “O meu também!”
Cem Anos de Solidão combina com esse imaginário latino. Acho que representa todo mundo, principalmente quem vem do interior. A gente apelida Montes Claros (que falo que é uma das minhas cidades, porque foi onde eu fiz A Outra Banda da Lua e vivi muitas coisas intensas). Sou de Taiobeiras, mas eu vivi um tempo em Montes Claros. Sou basicamente cidadã montesclarenses, também. E aí a gente apelida Montes Claros carinhosamente de Mocundo, por causa de Cem Anos de Solidão.
Foram parcerias muito naturais. Não foi: “Preciso fazer uma música com uma italiana para bombar na Itália”. Foi porque eu queria fazer uma música com a Gaia, Nenny e com os meninos de Çantamarta. Não foi um movimento marqueteiro, foi mais de fluidez aqui.

Rolling Stone Brasil: A sonoridade dele é bem sólida. Senti estilos como MPB, bossa nova, um brega ali em “Lua Cheia”, um pouquinho de bedroom pop e Lo-Fi em “Sensei”, reggae em “Combo da Sorte”, reggaeton em “Doçura” e muito mais — me diga se não viajei. Como você lida com essas mais diversas referências para criar algo seu e também que soa muito brasileiro. Não é aquilo que parece enlatado para copiar dos gringos em evidência.
Para mim é muito natural porque eu sou bem eclética. Eu gosto de música boa, na qual o artista faz a verdade dele ali, entregando-se e fazendo bem feito. Com boas metáforas, boas figuras de linguagem e bons movimentos poéticos e melódicos. Não tenho muita preferência de ritmo. Para mim, em qualquer ambiente você pode ter esse tipo de personalidade. Não faço distinção.
Mas, minhas escolhas rítmicas têm normalmente a ver com coisas que me atravessam e são extremamente brasileiras, ou coisas que são da América Latina e entram no Brasil, de certa forma como estrangeiras, mas são abrasileiradas aqui, sabe? É tipo reggae, que a gente abrasileirou. Existe o reggae brasileiro, com um jeito brasileiro de fazer reggae, feito no Maranhão. É o reggae feito por Edson Gomes, Natiruts, Ponto de Equilíbrio… O reggae de Gilberto Gil fez o gênero ser compreendido no Brasil. O dub de BaianaSystem, enfim… temos muitas pessoas fazendo reggae de muita qualidade, brincando nesse universo gigantesco.
Gosto de brincar com ritmos brasileiros e latinos. Já brinquei com alguma coisa de Londres, com o drill londrino. O trap americano. Eu gosto de tudo que eu escuto e amo. [Me ajuda a] entender como sou dentro disso. Gosto de experimentar.
Rolling Stone Brasil: E o amor é um tema recorrente: aqui você fala sobre superação, as inseguranças de um novo amor e também viver do amor pleno. Como é esse seu exercício para falar de amor e fazer algo que seja uma novidade, de certa forma? Para não ser algo batido
É difícil, viu? Se você larga o freio, você faz qualquer coisa, você precisa segurar realmente para manter uma narrativa, independente da coisa do amor. Eu gosto sempre de colocar uma paisagem atrás da história, sabe? Tem uma história acontecendo, mas tem uma paisagem atrás dela, para não ficar focado apenas na história.
Por exemplo, em “Numa Ilha”, você não foca só no amor, mas no fato de ter uma ilha, um mar e da sensação do vento… você foca nas outras sensações que esse ambiente traz, que não só exatamente viver o amor com aquela pessoa. Eu gosto de fazer isso, eu gosto de trazer uma imagem para esse amor. Onde esse amor está? Na sala da casa? Na praia? É tentar compreender todas as faces do amor. Tem um momento de paixão, tem aquele momento que você precisa sair fora. Às vezes a pessoa nem é ruim, mas você precisa sair porque você tem que ver outras coisas. Então o amor nem é o foco. O foco é a minha libertação.
O amor é só um pano de fundo para falar de como é a sensação de me libertar. Eu acho que é trazer outros significados para essa música, que não seja só a relaçãozinha em si. Às vezes tem música que é só a relaçãozinha, uma canção mais gostosinha, que você quer mais dar uma cantadinha. Aquela coisinha mais “zinha”, entendeu? Agora, quando você quer realmente fazer uma música de peso, você precisa acrescentar uma ambiência para esse amor.
Por exemplo, “Voltei Pra Mim” é exatamente essa música que fala de amor, mas as pessoas cantam chorando às vezes porque largou um emprego que não tava gostando. É tipo: “Voltei para mim! Eu me encontrei!” É muito mais sobre “eu me encontrei” do que a relação que tinha com a outra pessoa, que é só um bode expiatório para falar de outro assunto.
Rolling Stone Brasil: Exato! E vai ressignificando, né? Tanto você quanto a galera que está ouvindo…
Sua opinião sobre a mesma coisa muda conforme a sua idade. Você vai ficando mais adulto e muda a sua percepção.
Rolling Stone Brasil: Ano passado eu entrevistei o Chico Bernardes, irmão do Tim Bernardes, e ele disse sobre a dificuldade de fazer o segundo álbum: “O segundo disco foi um desafio muito maior do que o primeiro, onde você tá ali tendo a primeira experiência de estúdio e testando o que você pode fazer”, enquanto no “segundo disco você tem que decidir se você vai repetir aquilo que você já fez, que você já aprendeu, aquilo que pode ser uma marca registrada sua, ou se você vai inovar e trazer novos elementos, novas linguagens pro seu próprio repertório.” Isso aconteceu com você na hora de fazer Vício Inerente? E depois em Coisas Naturais?
Realmente, o segundo álbum e o terceiro são mais difíceis que o primeiro. No primeiro, você pega uma coletânea de músicas que fez durante sua vida inteira, pega as melhores, coloca lá dentro e foi. Não tem muito segredo. Eu tinha várias músicas que eu tinha no violão, que tenho uma relação muito forte, tá aqui comigo, inclusive.
Então eu sempre tinha música, eu fazia cinco canções por mês, no mínimo. Toda hora eu fazia uma música, eu tinha muitas. Eu realmente fiz um select das melhores, e era o De Primeira. Estava na mão.
No segundo, realmente, precisei batalhar um pouquinho mais, porque além de tudo eu ainda tava no meio do furacão comendo solto, fazendo show e muito mais. Precisei fazer um álbum dentro desse legar que eu vivia, ainda com a expectativa das pessoas, querendo me provar, porque eu tava querendo mostrar que não estou aqui brincando, entendeu?
Realmente vale a pena eu estar aqui, porque eu realmente acredito nisso que eu tô fazendo e tô fazendo seriamente. Isso que eu queria provar. No tempo que eu tinha, eu fazia alguma coisa ali. Por ter muita técnica, para composição — eu sei muito fazer isso —, uma das coisas que eu mais sei fazer na vida... Se você me falar aqui e agora: “Compõe uma música aí!” Eu pego o violão e faço uma música na hora por conta da técnica. Agora, não te garanto que vai ser uma puta canção do meu coração. Vai ser uma música ok. Você vai falar: “Beleza, massa.” Pode não ser uma, “Voltei Pra Mim”, nem uma “Por Supuesto”, mas vai ser uma música boa. Porque eu tenho técnica.
Com Vício Inerente, entreguei o que eu sou capaz de entregar e brincar. Ainda dei uma brincada boa com outros ritmos, dei uma experimentada boa, acho ele bem experimental. Saí bastante da minha zona de conforto. Adorei, aprendi várias coisas, principalmente com relação a tecnologias novas para fazer músicas. Novos jeitos de fazer música, novas sonoridades, novas texturas, novas coisas que eu ainda não tinha experimentado, porque eu era de um ambiente bem orgânico, tinha até um pouco de receio de colocar coisas muito eletrônicas na minha música.
Agora não tenho mais medo, porque eu aprendi a brincar com isso. Eu aprendi a colocar isso na hora certa no meu álbum. Neste terceiro álbum, sinto que estava mais preparada do que nos dois anteriores. Apesar das dificuldades, é mais fácil fazer esse álbum hoje.
O terceiro eu já sinto que fiz mais tranquila, sem medo de ser chatinha com cada detalhe. Eu consegui fazer porque acumulei uma bagagem que eu precisava para saber o que eu quero.

Rolling Stone Brasil: E eu fiquei sabendo que ele foi gravado na Zuca, Casa da Música Brasileira, seu projeto com Talita Morais que visa dar um grande auxílio e guia para os artistas. O que vocês pretendem com esse empreendimento? Como estão sendo esses meses iniciais?
Então, criamos a Casa da Música Brasileira como mais um lugar para aquecer a nossa indústria. Todo artista e pessoa que consegue uma plataforma e recursos precisa de algum jeito devolver esses recursos para a própria classe. É um pensamento muito meu e de Thalita.
É o lugar das pessoas que formam opinião e querem criar projetos com relação à arte. A [marca de cerveja] Petra, tá com naming rights da casa, então a casa é Petra Zuca, e isso é muito legal porque é uma marca que gosta de estar ao lado da música brasileira e de se envolver em projetos relacionados à música brasileira. Está em vários festivais de MPB, são muito interessados e têm um paladar para escolher lugares relacionados à música brasileira.
Adoro o jeito que eles trabalham com a música. Apoiam o nosso projeto de uma forma que você entende que a marca se interessa num propósito. Isso muda tudo e faz com que a relação seja muito mais promissora. E eles super confiam no projeto da Casa da Música Brasileira.
Inclusive, vamos lançar um edital com a Petra para lançar dois álbuns pela Casa em 2025. A Petra, enfim, possibilita esses recursos para tudo acontecer, para ser gravado lá na Casa da Música, sair com foto de capa, tudo gravado, tudo bonitinho. Com a minha direção criativa, vai ter o meu auxílio musical ali para quem se interessar e precisar. Eu gostaria para manter um fluxo dentro da Casa da Música, mas se a pessoa quiser desenvolver do jeito dela, tudo bem.
Vão ser dois álbuns, mais seis audições dentro da Casa de pessoas que já têm álbuns e queiram apresentar lá. Trabalhamos de um jeito no qual convidamos pessoas que formam opinião, artistas, programadores e [outras] pessoas que estão dentro da indústria da música, mesmo, para assistir esses artistas.
Usamos o nosso know-how, o que a conseguimos até hoje de contatos, enfim, de possibilidades, e traz essas pessoas para a Casa e conhecer novos artistas.
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