RESENHA

Paul McCartney encanta em show íntimo e raro em Hollywood

O lendário músico percorreu diferentes eras em um set alegre de 25 músicas na segunda noite de apresentações em casas pequenas nos EUA

Althea Legaspi

Paul McCartney
Paul McCartney em show na The O2 Arena, em Londresm em dezembro de 2024 (Foto: Jim Dyson/Getty Images)

“Quase lá”, brincou Paul McCartney com o público, que cantava junto “Something” em seu show de sábado no Fonda Theatre, em Hollywood. Foi uma das poucas músicas que diferiram em relação à apresentação da noite anterior no local. “Este ukulele foi me dado por George”, explicou, antes de começar a tocar a canção dos Beatles escrita por George Harrison com uma energia vibrante, trocando depois para o violão acústico para concluir a música.

O show de sábado foi o segundo de uma temporada de duas noites, que reuniu fãs sortudos em um set íntimo dentro da casa com capacidade para 1.200 pessoas em pé. As apresentações do fim de semana marcaram os primeiros concertos desde que McCartney encerrou sua Got Back Tour e também fecharam uma semana em que o músico anunciou seu primeiro álbum inédito em cinco anos, The Boys of Dungeon Lane, além de lançar o primeiro single, a reflexiva “Days We Left Behind”. Apesar da novidade, ele não apresentou a nova faixa ao vivo durante o fim de semana.

Em vez disso, os fãs que conseguiram ingressos por meio de uma bilheteria limitada assistiram a uma versão reduzida do repertório da turnê, com 25 músicas ao longo de quase duas horas. Antes desse show, McCartney já havia feito outras apresentações menores, incluindo uma em Nashville, no Pinnacle (capacidade para 4.500 pessoas), em novembro, e outras ainda mais intimistas no Bowery Ballroom, pouco mais de um ano atrás, com três shows-surpresa para apenas 575 pessoas. Mesmo com o Fonda ficando entre esses dois extremos de tamanho, McCartney entregou — e muito — o que foi anunciado como “Paul McCartney Rocks the Fonda!”.

Na Got Back Tour, ele reintroduziu “Help!” ao setlist, marcando a primeira vez que toca a música completa desde 1965. Foi o “clímax emocional”, como descreveu Rob Sheffield, da Rolling Stone, na estreia da turnê em Palm Springs, em setembro. No Fonda, ele também abriu com a canção, criando um momento coletivo e poderoso em um mundo conturbado, além de revisitar clássicos de seu vasto catálogo com os Beatles, Wings e sua carreira solo.

Além da homenagem a Harrison, ao longo da noite McCartney também reverenciou Jimi Hendrix com um cover instrumental animado de “Foxey Lady”, incorporado a “Let Me Roll It”, e dedicou “My Valentine” à sua esposa, Nancy Shevell, que estava na plateia.

Acompanhado por sua banda de longa data — o tecladista Paul “Wix” Wickens, o guitarrista Rusty Anderson, o guitarrista e baixista Brian Ray e o baterista Abe Laboriel Jr., além de uma seção de metais —, o lendário artista compartilhou histórias com a leveza de um jantar entre amigos. Entre os presentes estavam celebridades como Elton John e Sharon Osbourne, que aparentemente ocuparam o balcão, área não acessível ao público geral. McCartney brincou com a situação: “Como vocês estão lá em cima, nos assentos caros? E todos os pobres aqui embaixo”.

Entre as histórias, ele lembrou um episódio com Tony Bennett, que certa vez pediu para desligarem o microfone durante um show para demonstrar a acústica da sala — momento que McCartney recriou cantando “Fly Me to the Moon” sem amplificação. Bennett repetiu a ideia depois no Beverly Hilton, para diversão do ex-Beatle.

Ele também relembrou os tempos dos Beatles em Liverpool, quando quatro jovens “eventualmente foram para a América”, enfrentando algo novo e diferente — incluindo muitas fãs gritando. “Me deem um grito de Beatle”, pediu, antes de tocar “From Me to You”.

Embora o repertório tenha seguido em grande parte o da turnê, o público de sábado teve surpresas especiais que não apareceram na noite anterior, como uma versão impressionante de “Maybe I’m Amazed”. A voz de McCartney continuou versátil, alternando entre falsetes suaves e momentos de emoção mais crua. Outro destaque foi “Band on the Run”, executada com precisão pela banda, além de um momento solo delicado com “Blackbird”.

Acostumado a lotar arenas e estádios, McCartney não precisa de espaços pequenos — mas ficou claro que esses shows mais intimistas trazem grande alegria tanto para ele quanto para o público. Ele deu as boas-vindas ao teatro centenário, anteriormente chamado Music Box, e comentou que estava aproveitando “a vibe do Fonda”. Antes de “I’ve Just Seen a Face”, brincou: “Bom ver todos vocês… seus rostos lindos”, celebrando o fato de conseguir enxergar os “olhos brilhantes” da plateia.

O show exigiu que o público guardasse os celulares, aumentando a sensação de intimidade e resgatando a experiência de viver o momento. Sem entrar em política — mencionando apenas Donald Trump de forma bem-humorada —, a apresentação funcionou como um respiro diante do mundo lá fora, em um fim de semana que também contou com um importante protesto chamado No Kings.

No bis, ele agradeceu ao “público fantástico”, mas disse que era “hora de ir para casa”. O encerramento veio com o medley de Abbey Road, incluindo “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”, emocionando parte da plateia — um final catártico para uma noite memorável.

Setlist do show intimista de Paul McCartney no Fonda Theatre, em Hollywood

  1. Help!
  2. Coming Up
  3. Got to Get You Into My Life
  4. Let Me Roll It
  5. Foxey Lady
  6. Getting Better
  7. Let ‘Em In
  8. My Valentine
  9. Nineteen Hundred and Eighty-Five
  10. Maybe I’m Amazed
  11. I’ve Just Seen a Face
  12. Every Night
  13. From Me to You
  14. Blackbird
  15. Now and Then
  16. Lady Madonna
  17. Something
  18. Band on the Run
  19. Ob-La-Di, Ob-La-Da
  20. Get Back
  21. Let It Be
  22. Hey Jude
  23. Golden Slumbers
  24. Carry That Weight
  25. The End

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