P.O.D.: Sonny Sandoval fala à RS sobre single com argentino, Brasil e carreira
Decano do nu metal celebra parceria com Andrés Giménez, reflete sobre conquistas de sua banda e revela planos de voltar ao país ainda em 2025
Igor Miranda (@igormirandasite)
Publicado em 01/04/2025, às 08h15
Com o perdão do trocadilho envolvendo seu maior hit, Sonny Sandoval nunca se sentiu tão vivo. A banda do vocalista, P.O.D., mal lançou um novo álbum, Veritas (2024), e já colocou no mercado um single de forte relação com a América do Sul.
Uma das faixas do álbum, “I Won’t Bow Down”, ganhou regravação ao lado de Andrés Giménez, vocalista e guitarrista do A.N.I.M.A.L. e parceiro do brasileiro Andreas Kisser (Sepultura) no projeto paralelo De La Tierra. Ouça no YouTube (lyric video) ou em outras plataformas.

Além disso, Sandoval lançou recentemente uma autobiografia, Son of Southtown: My Life Between Two Worlds, ainda sem versão nacional. A obra narra a trajetória de um cantor que, como aponta o título, transitou entre dois “mundos”: o da música pesada, através de sua banda multiplatinada e reverenciada no nu metal, e o da religião, pois ele é cristão devoto desde a juventude, quando sua mãe foi diagnosticada com leucemia, doença que infelizmente a levou embora.
Sobra tempo para prometer até mesmo uma volta ao Brasil, poucos meses antes da visita anterior. Em outubro, ele e o grupo completo por Marcos Curiel (guitarra), Traa Daniels (baixo) e Zachary Christopher (bateria somente em turnê, substituindo o afastado Wuv Bernardo) vieram para se apresentar na edição nacional do Knotfest, em São Paulo, com direito a shows paralelos em Curitiba e Rio de Janeiro.
Sonny bateu um papo com a Rolling Stone Brasil sobre tudo isso e ainda compartilhou reflexões sobre uma carreira que dura mais de três décadas, mas que, segundo ele, por alguma razão, não é vista de modo completo por parte do público. Confira!
Novo single e relação com Brasil e América do Sul
Rolling Stone: Como surgiu a ideia de regravar “I Won't Bow Down” com Andrés Giménez?
Sonny Sandoval:“Somos fãs da banda dele. Nos conhecemos há algum tempo e somos amigos, tocamos juntos na Argentina. Como esta música traz uma declaração muito forte como ‘Eu não vou me curvar’, queria que pudéssemos cantar isso em todas as línguas, mas em nossa cultura latina e no mundo latino, é superpoderoso [nota: Sonny é descendente de, entre outras nacionalidades, mexicanos]. Nunca fizemos algo assim. Espero que possamos fazer uma turnê com o A.N.I.M.A.L. em breve na América do Sul, Central e México.”
RS: E o que você, pessoalmente, achou dessa versão, especialmente quando comparada à original, em inglês?
SS:“Obviamente, Andrés tem uma voz mais rasgada. É algo poderoso. Já era forte e poderoso antes, mas isso acrescenta ainda mais. Há muita paixão por trás da cultura espanhola e latina. Ao cantar em espanhol, ele representa todas as culturas relacionadas, o que é lindo.”
RS: Você sabe que, agora que gravou com um músico da Argentina, os brasileiros vão começar a exigir que você grave com um brasileiro também. Somos vizinhos, mas também um pouco rivais. [Risos]
SS:“[Risos] Acho que já falamos sobre fazer isso, tipo: ‘não podemos parar em espanhol’. Agora temos que encontrar alguém que possa cantar em português, em todos os países lindos.”
RS: Mas é interessante ver o vínculo que vocês criaram com a América do Sul. No Spotify, a cidade que mais ouve P.O.D. em todo o planeta é São Paulo, com larga vantagem em relação ao segundo lugar. O que você acha que ajuda a criar essa ligação?
SS:“A paixão das pessoas. Nunca fizemos turnê pelo Brasil até talvez 15 anos atrás [nota: a primeira visita ocorreu em 2008]. Não é porque não queríamos ir, são os promotores, uma questão financeira. Somos uma banda da classe trabalhadora. Estaríamos no Brasil todo ano se pudéssemos. Acho que também há uma conexão espiritual. Se você olhar para a história do Brasil, é um país cristão, católico e que ama a Deus. Como temos essa raiz, também há um pouco de conexão. O Brasil é muito vocal em todas as plataformas, que mais comenta em todas as nossas mídias sociais, somos gratos.”

RS: Somos famosos por isso, especialmente pelos comentários “venha para o Brasil” (“come to Brazil”).
SS:“[Risos] Até nós dizemos isso em entrevistas e coisas assim, aí as pessoas reagem: ‘do que você está falando?’. Não importa o que você poste — você pode postar sobre algo muito triste ou totalmente fora da música, o comentário será: ‘venha para o Brasil’.”
RS: A versão original de “I Won’t Bow Down” está em Veritas, álbum que está prestes a completar um ano de seu lançamento. Como este álbum “envelheceu” para você desde então?
SS:“Adoro o jeito como esse disco ficou, muito sólido do começo ao fim. É um disco incrível e pesado. Todo o processo de composição foi diferente. Estávamos saindo da covid e da pandemia e sempre criamos no momento, então foi isso que aquela época produziu. O P.O.D. tem tantos tipos diferentes de temperos e sabores na música, mas este é provavelmente um dos três melhores discos que já fizemos.”
RS: Por curiosidade, qual o seu top 3 de álbuns do P.O.D.? Pode mudar amanhã se quiser.
SS:“Se eu posso mudar amanhã, hoje diria Murdered Love (2012), Satellite (2001) e Veritas.”

Shows no Brasil e pioneirismo pouco reconhecido
RS: A turnê deste álbum trouxe vocês ao Brasil com shows no Knotfest em São Paulo e outras duas cidades. Como foi essa turnê?
SS:“Como sempre, foi ótimo. O amor que recebemos dos fãs brasileiros é incrível. Foi legal finalmente poder fazer um grande festival, pois antes tocamos em casas noturnas e teatros. Adoraríamos fazer mais festivais. Os fãs nunca decepcionam. Teve um ano que fomos para São Paulo [nota: 2014, vídeo abaixo] e um vídeo mostra: metade da multidão subiu no palco. Eles me pegaram e me ergueram como se eu fosse um campeão de futebol. O que fazer? [Risos] Você segue a onda. Os fãs tomaram conta: pegaram a guitarra, tiraram as baquetas das mãos do meu primo [Wuv Bernardo]. Não se pode controlar.”
RS: Em festivais, os músicos geralmente acabam ficando para assistir a outros shows. Teve algum show em particular que você lembra de ter visto e que gostou durante o Knotfest Brasil?
SS:“Vimos a nova banda de Shavo Odadjian [Seven Hours After Violet]. Foi muito legal vê-los. Eles também são da Califórnia, da Costa Oeste. Pude ver Poppy pela primeira vez, o que foi divertido. Babymetal é sempre divertido de assistir! Mas estávamos tão ocupados nos bastidores com entrevistas e conhecendo pessoas. Havia pizza e tatuagens rolando. Muito divertido.”
RS: Não pude vê-los desta vez, mas li artigos de colegas jornalistas sobre o show. Eles foram unânimes em destacar o quão impressionante a banda é ao vivo. Alguns até deixaram claro que não esperavam muito, pois não são grandes fãs, mas que a banda foi excelente. Você também sente que o P.O.D está, talvez, em um de seus melhores momentos ao vivo?
SS:“Sempre fomos uma banda de show. É a nossa escola. Mas estamos sempre tendo que nos provar. Quando você vai ver o P.O.D. e olha para o lado do palco, você vê todas as outras bandas nos assistindo. Temos algum tipo de estigma, mas aí então eles nos veem e dizem: ‘meu Deus, incrível, essa banda é tão boa’. Só que aí esquecem de você. Alguns fãs seguem outras bandas até o fim, tipo bandas que estão fazendo música há dois dias e já estão no topo do mundo. Já nós somos pioneiros nesse gênero, mas sempre somos um pouco esquecidos. No fim das contas, vamos lá e tocamos, sabendo que somos crus, punk rock, hardcore.”

RS: Devo dizer que, aqui no Brasil, muitos acham até hoje que Satellite é o seu primeiro álbum, mas na verdade é o quarto. Não sei o que aconteceu, se é a forma como foi divulgado na época, mas aconteceu assim, pelo menos no Brasil.
SS:“Fomos underground desde sempre, fizemos tudo por conta própria. E essa é a riqueza e a história do P.O.D. Estávamos na cena hardcore underground até que pensamos: ‘para onde mais dá para ir?’. O único caminho era assinar com uma gravadora maior e tentar [fazer sucesso] internacionalmente. Não era o objetivo, simplesmente aconteceu. Muitas vezes, quase 10 anos depois, as pessoas ainda ficavam: ‘ah, essa banda nova, eles são muito legais’. Mas fazíamos isso por muito tempo.”
Autobiografia e momento crucial da carreira
RS: Recentemente, você lançou sua autobiografia, Son of Southtown: My Life Between Two Worlds. Como foi o processo de revisitar a sua vida e carreira para escrever esse livro?
SS:“Foi incrível. Durou dois anos, por causa da pandemia. Ter que voltar e relembrar de muitas coisas, seja por estar mais velho e só lembro de algumas décadas, ou se são coisas que eu apenas me esqueci ou me afastei… foi um processo terapêutico. E foi por isso que fiz isso. Serviu para me lembrar por que estou aqui e qual é meu propósito na vida. Isso me deixou muito mais grato. Não somos ricos ou famosos: somos uma banda trabalhadora e operária. Depois de todos esses anos, nada é mais importante para mim do que meu amor por Deus, minha esposa e meus filhos. A música é apenas uma coisa linda da qual posso fazer parte. Este é apenas um livro, um olhar rápido pela minha vida e por tudo que passei. Poderia escrever mais 10 livros com todos os detalhes, mas resumi tudo aqui.”

RS: Já que você revisitou sua vida para escrever este livro, talvez seja um bom momento para te perguntar… qual você considera ter sido o momento mais definitivo de sua carreira, o que mudou o curso dela, e por que?
SS:“Quando começamos a fazer mais turnês com bandas maiores e coisas assim, mas tinha a MTV nos Estados Unidos, o programa ‘TRL’ [nota: ‘Total Request Live’, algo similar ao ‘Disk MTV’ no Brasil], em que as pessoas tinham que ligar para pedir o clipe favorito. Só podiam ser nossos fãs, pois no ‘TRL’ naquela época, só dava Britney Spears e boy bands. Fora isso, só havia nós, Korn e Limp Bizkit. Não tinha rock. Quando nossos fãs nos votaram na TV, as pessoas tiveram que se atentar. E foi tipo: ‘veja, esses caras não são brancos, não estão tocando rock clássico, eles são do bairro, andam em carros Lowriders [nota: tradicional modelo usado por jovens descendentes de mexicanos nos EUA], estão vestidos assim, com tatuagens também’. Isso os atraía. As pessoas queriam saber de onde vínhamos: Southtown, San Diego, Califórnia. Houve interesse nisso. No momento em que entramos ali e as pessoas puderam nos ver e ouvir, houve uma mudança naquela era. Seremos eternamente gratos. Conquistamos aquela base de fãs naquele momento, em sete ou oito anos. Não foi da noite para o dia. Foi porque elas pegaram o telefone e ligaram.”
RS: Infelizmente, nosso tempo acabou, mas acho que é isso! Muito obrigado por seu tempo e espero vê-lo no Brasil em breve.
SS:“Claro! Estamos falando em voltar ainda neste ano, vai ser incrível.”
**Ouça a nova versão do P.O.D. para “I Won’t Bow Down”, com participação do músico argentino Andrés Giménez (A.N.I.M.A.L.), no YouTube (lyric video) e em outras plataformas.
Rolling Stone Brasil especial: Iron Maiden
Iron Maiden na capa: a Rolling Stone Brasil lançou uma edição de colecionador inédita para os fãs da banda de heavy metal. Os maiores álbuns, a lista dos shows no Brasil, o poder do merchadising do grupo e até um tour pelo avião da banda você confere no especial impresso, à venda na Loja Perfil.

+++ LEIA MAIS: Andreas Kisser fala à RS sobre Sepultura se despedindo (em estádio?) e legado
+++ LEIA MAIS: Beat no Brasil: Adrian Belew fala à RS sobre show, supergrupo e King Crimson dos anos 80
+++ LEIA MAIS: Steven Wilson fala à RS sobre The Overview, insignificância humana, prog e Brasil
+++ Siga a Rolling Stone Brasil @rollingstonebrasil no Instagram
+++ Siga o jornalista Igor Miranda @igormirandasite no Instagram