'SEQUELAS EMOCIONAIS'

Rick Bonadio admite traumas após morte dos Mamonas Assassinas

Trinta anos após acidente fatal da banda, produtor reflete sobre o impacto do transtorno pós-traumático em sua vida e profissão

Guilherme Gonçalves (@guiiilherme_agb)

Rick Bonadio (Foto: reprodução / Instagram)
Rick Bonadio (Foto: reprodução / Instagram)

O produtor musical Rick Bonadio, responsável por descobrir e lançar o fenômeno Mamonas Assassinas na década de 1990, falou sobre o impacto devastador que a perda da banda teve em sua vida pessoal e saúde mental.

Exatamente três décadas após o trágico acidente aéreo que vitimou o grupo em 2 de março de 1996, Bonadio revela que conviveu com o trauma durante anos. Algumas marcas ainda persistem.

Na ocasião, os cinco integrantes da banda — Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec — morreram quando o avião caiu na Serra da Cantareira voltando para São Paulo de um show em Brasília. Além deles, o acidente também vitimou outras quatro pessoas: o segurança Sérgio Saturnino Porto, o ajudante de palco Isaac Souto, o piloto Jorge Martins e o co-piloto Alberto Yoshihumi Takeda.

Em entrevista a Reginaldo Tomaz para o Terra, o produtor, que depois trabalhou com Charlie Brown Jr., NX Zero e outros grupos, comentou inicialmente:

“Foi um sofrimento enorme, muito difícil, porque eu era muito jovem e, assim, eles eram meus amigos.”

Bonadio continua, explicando que na época não havia a mesma clareza ou disseminação de informações sobre saúde mental como existe hoje:

“Fiquei um tempo doente e tenho sequelas emocionais até hoje. Não foi uma coisa fácil. Tive transtorno pós-traumático, que, na época, eu nem sabia. Tive vários problemas, mas pensava: ‘Tenho que continuar, eu quero fazer outro artista’. Não tinha muita possibilidade de ficar parado. Por mais que a gente tivesse ganhado dinheiro, não tinha resolvido as coisas. Tinha muitos planos, muitos sonhos.”

Rick Bonadio e a síndrome do pânico

Segundo o produtor, o entendimento sobre o que viveu só veio um tempo depois, com ajuda profissional:

“Tinha pânico de avião. Mas também tinha pânico de andar de carro. Tive síndrome do pânico seríssima. A depressão fazia parte da situação, eu acredito, mas tive crises de ansiedade também. Na época, não existiam esses nomes, eu só fui saber que tive isso há uns 10 anos, quando estava resolvendo algumas questões e a psiquiatra me explicou que isso era por causa do trauma.”

O acidente dos Mamonas Assassinas

Em 2 de março de 1996, após um show em Brasília para cerca de 4 mil pessoas no Estádio Mané Garrincha, a banda embarcou no jato Learjet 25D rumo a Guarulhos. O voo transcorreu normalmente até a aproximação final. Às 23h16, após uma tentativa frustrada de pouso, o piloto Jorge Martins realizou uma manobra de arremetida.

Por razões atribuídas posteriormente à exaustão da tripulação e erro de navegação, a aeronave não ganhou altitude suficiente e colidiu contra a Serra da Cantareira.

A banda vivia o auge do sucesso e era um dos maiores fenômenos da música brasileira, tendo vendido mais de 1,8 milhão de cópias de seu álbum de estreia.

+++ LEIA MAIS:  A ‘premonição’ de integrante dos Mamonas Assassinas horas antes do acidente
+++ LEIA MAIS: Corpos dos Mamonas Assassinas serão exumados 30 anos depois
+++ LEIA MAIS: Mamonas Assassinas foi “muito censurado” em sua época, diz Rick Bonadio

Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room, Rock Brigade e Guitarload. Atualmente, é redator em IgorMiranda.com.br, revisa livros das editoras Belas Letras e Estética Torta e edita o Morbus Zine, dedicado a resenhas de death metal e grindcore.
TAGS: Mamonas Assassinas, rick bonadio