ENTREVISTA

Rise Against: Tim McIlrath fala à RS sobre Brasil, novo álbum, nostalgia e mais

Banda americana de hardcore melódico/punk rock esteve no país para três shows junto do Offspring e planeja lançar material inédito em breve

Igor Miranda (@igormirandasite)

Publicado em 24/03/2025, às 08h00
Tim McIlrath com o Rise Against em 2025 - Foto: Frank Hoensch / Redferns
Tim McIlrath com o Rise Against em 2025 - Foto: Frank Hoensch / Redferns

Segunda-feira de Carnaval, 3 de março de 2025. Não é bem feriado, mas também não é um período em que jornalistas e assessorias estão trabalhando em pautas que não sejam urgentes. Mesmo assim, a Rolling Stone Brasil bateu um papo breve com Tim McIlrath, vocalista e guitarrista do Rise Against que estava prestes a realizar três apresentações no país. Em um ciclo de poucas entrevistas de sua banda a veículos nacionais, o músico fez questão de conversar, pelo menos, com a RS. Por que deixar de atendê-lo?

Com mais de 25 anos de atividade, o grupo hoje composto por ele, Joe Principe (baixo), Brandon Barnes (bateria) e Zach Blair (guitarra) seria — e foi — atração de abertura do Offspring na turnê com ares de megafestival promovida no início do mês. O quarteto americano de Chicago, especificamente, tocou com os colegas de punk rock no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, em um lineup que mudava conforme a cidade, mas nas capitais paulista e paranaense trouxe mais quatro atrações: Sublime, The Damned, The Warning e Amyl & the Sniffers.

McIlrath, como quase todo músico que pousa por aqui, garantiu ter relação especial com o país. Segundo ele, a banda conversava até hoje sobre a viagem anterior, em março de 2023, para tocar no Lollapalooza e em uma data solo no charmoso e intimista Cine Joia, ambas em São Paulo. Também havia empolgação por retornar num tempo curto, em vez de ter que esperar por “dez anos ou o que quer que seja”.

Tim McIlrath com o Rise Against no Rio
Tim McIlrath com o Rise Against no Rio - Foto: Ian Dias @diasphotograph / IgorMiranda.com.br

Antes das duas últimas visitas, eles estiveram por aqui em 2011, 2012 e 2017. No terceiro ano citado, participaram do Maximus Festival, que teve shows de Slayer, Prophets of Rage, Rob Zombie, Five Finger Death Punch, entre outros. E, claro, um headliner de enorme destaque: Linkin Park, que realizou uma de suas últimas apresentações antes da morte do vocalista Chester Bennington, a ocorrer dois meses depois. Tim relembra a ocasião:

“Acho que essa vez que tocamos com o Linkin Park foi a última vez que vi o Chester. Foi muito divertido tocar com o Prophets of Rage — é ótimo apenas estar perto de caras lendários, como Chuck D, B-Real e todos os caras do Rage Against the Machine. E só de estar em algum lugar que não vamos com muita frequência, as pessoas, a comida… foi tão legal ter essa conexão com muitos dos nossos fãs. Nada além de experiências positivas no Brasil. Além disso, como está frio em Chicago nesta época do ano, é legal ir para um bom clima. [Risos]”

Enquanto muitas grandes bandas estão começando a retomar suas agendas de shows para 2025, o Rise Against já realizou 22 apresentações em diferentes partes do planeta. Antes do Brasil, viajaram pela Europa em pleno inverno. Dias depois de virem até aqui, rumaram para a América do Norte, em um giro com Papa Roach e Underoath que segue pelo mês seguinte. Em junho, retornam ao Velho Continente para a temporada de festivais. Setembro? América do Norte de novo.

Rise Against ao vivo em 2023
Rise Against ao vivo em 2023 - Foto: Medios y Media / Getty Images

E o ano de 2025 já prometia ser cheio para o quarteto pois, logo em janeiro, disponibilizaram o single avulso Nod. A ideia é que a faixa apenas sirva de teaser para um novo álbum, o décimo da carreira do grupo, ainda sem data para sair. McIlrath celebrou a possibilidade de apresentar a canção criada junto à produtora Catherine Marks no Brasil — o que ocorreu —, deixou claro que ela integra “um lote de novas músicas” e antecipou: “a sonoridade será inclinada para algo mais tradicional do Rise Against, apesar de algumas faixas um pouco inesperadas”.

Se o trabalho instrumental pode fugir do esperado vez ou outra, a carga lírica com forte mensagem social — crítica política, reflexões sobre injustiças e até questões sobre direitos dos animais e meio ambiente — deve ser preservada. A respeito disso, Tim afirma, em tom enigmático:

“Acho que as novas letras do Rise Against vão falar sobre o que está acontecendo no mundo e sobre o que está acontecendo agora. Muitas das questões sobre as quais falamos são meio atemporais. É interessante ver como as músicas que escrevemos alguns meses atrás vão ‘pousar’ em 2025. Acho que as pessoas vão encontrar algo para explorar.”

Nostalgia? Que nada

Embora tenha vivenciado o auge de popularidade nos anos 2000, o Rise Against tem feito seu público crescer com base na forte ética de turnês. É uma das bandas de seu período que mais excursionar. E não tem tempo ruim com eles: topam tocar como headliner, aceitam abrir shows de bandas maiores, integram festivais independentemente do horário em que vão se apresentar e por aí vai.

Como reflexo, Tim McIlrath aponta: a base de fãs segue em renovação. Ele comenta:

“É sempre uma surpresa para mim. É como se não esperássemos ganhar novos fãs neste ponto da nossa carreira. Mas toda vez que tocamos, vemos muitos jovens gostando da banda, na primeira fila. Acabamos de fazer shows na Europa e algumas das apresentações aconteceram para públicos maiores do que nunca. Você não prevê esse tipo de coisa. Sempre fico surpreso e feliz ao ver quando vejo novos fãs. Acho que o Rise Against canta sobre muitas coisas importantes para os ouvidos mais jovens.”

Outra banda que relatou testemunhar algo parecido com seu público é o Offspring. Em entrevista anterior à Rolling Stone Brasil, o guitarrista Noodles disse que, fosse apenas pela nostalgia, isso não aconteceria. Na mesma ocasião, teceu elogios a todas as bandas que os acompanharam no país — inclusive o Rise Against, descrito por ele como uma excelente atração para se assistir ao vivo.

Zach Blair e Tim McIlrath com o Rise Against em 2022
Zach Blair e Tim McIlrath com o Rise Against em 2022 - Foto: Paul Bergen / Redferns

Convidado a comentar sobre os colegas californianos, Tim McIlrath preservou o tom amistoso. Ele afirmou:

“Offspring é uma parte lendária da cena punk. São icônicos. E são onipresentes agora: as pessoas conhecem Offspring ao redor do mundo todo. É inspirador assistir a essa banda punk do sul da Califórnia, que começou em uma gravadora independente como a Epitaph, dominar o mundo.”

O vocalista e guitarrista refletiu, ainda, a respeito da pouca presença de novos grupos de rock no chamado mainstream. Para ele, isso não significa que o gênero — em especial a ramificação punk — esteja morrendo.

“A música que eu cresci ouvindo sempre foi underground. Sempre foi. Nunca foi mainstream. Nunca prestei muita atenção ao que era popular. Nunca me incomodou muito ver se o rock se torna popular ou impopular ou o que quer que seja. Sinto que as pessoas vão encontrar as bandas que elas querem encontrar.”

Vinte (e um) anos do salto ao mainstream

Se por um lado Tim McIlrath não costuma ouvir artistas mainstream, por outro, sua própria banda pertenceu a ele em determinado momento dos anos 2000. Essa história começou há duas décadas, com Siren Song of the Counter Culture (2004), terceiro álbum de estúdio do Rise Against e o primeiro por uma grande gravadora, DreamWorks Records, filiada à Geffen. Conquistou disco de ouro em três países (EUA, Austrália e Alemanha) e platina no Canadá, além de ter emplacado os singles “Give It All”, “Life Less Frightening” e “Swing Life Away” — celebrado com certificação de ouro em território americano.

O vocalista e guitarrista relembra com carinho do álbum em questão, apesar das discordâncias que tiveram com Garth Richardson, produtor celebrado por seus trabalhos com Rage Against the Machine, Kittie, Biffy Clyro, Mudvayne, entre outros. Ele comenta:

“Fizemos dois discos em uma gravadora independente e então assinamos com a DreamWorks. Foi como se nossa banda estivesse enfim fazendo um disco com um produtor de alto nível, com Garth Richardson. Sentíamos que o céu era o limite. Sentíamos que podíamos fazer e compor qualquer coisa. Estávamos animados para criar algo que pudéssemos levar para o mundo. Ainda éramos uma banda punk bem crua tentando descobrir nosso som. Garth tinha feito de tudo, desde o primeiro Rage Against the Machine até Red Hot Chili Peppers [como engenheiro de som] e Sick of It All. Ele trouxe seu tipo de energia para o disco. É isso que você sente quando ouve.”

Em vários shows recentes realizados antes do Brasil, Siren Song of the Counter Culture obteve destaque no repertório: “Dancing for Rain”, “Paper Wings” e, claro, “Swing Life Away”, têm sido tocadas nas apresentações em que o Rise Against tem mais tempo. Perguntado sobre canções que ainda chamam a atenção dele, Tim McIlrath responde:

‘Dancing for Rain’ é uma que tocamos muito nessa última turnê. Tenho orgulho dela, pois resistiu ao teste do tempo. Músicas como ‘Give It All’ e ‘Swing Life Away’ foram a introdução de muitas pessoas ao Rise Against. ‘State of the Union’, ‘Tip the Scales’… todas músicas muito divertidas e intensas de se fazer.”

Com o bônus, o ônus: neste período, o Rise Against foi acusado por fãs antigos de ter “se vendido”. Discurso recorrente quando uma banda punk acaba assinando com uma grande gravadora. A respeito disso, o frontman reflete:

“Acho que conforme sua banda cresce, é difícil comunicar sua mensagem a todos os seus fãs. Simplesmente sabíamos o que estávamos fazendo e estávamos pedindo aos fãs que confiassem em nós. Sabíamos que o tempo diria.”

Tendo recentemente completado 25 anos de carreira, o Rise Against não tem planos de parar. Ao mesmo tempo, McIlrath já consegue refletir sobre o legado que quer deixar junto à banda. Sobre o tema — e concluindo o bate-papo —, ele afirma:

“Gostaria que o Rise Against fosse parte da solução, não do problema. Que contribuíssemos com algo positivo para a música que não tem medo de falar sobre política. E empurrássemos a conversa para frente e não para trás. Espero que tenhamos inspirado algumas pessoas e artistas a fundir sua arte com política.”

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