RETROSPECTIVA

A história e o conceito de ‘The Black Parade’, álbum do My Chemical Romance

Ao buscar se desvencilhar da associação ao emo, o grupo americano ao mesmo tempo cristalizou o movimento e o transcendeu

Pedro Hollanda (@phollanda21)

Gerard Way em show do My Chemical Romance em 2006 (Foto: Mick Hutson / Redferns via Getty Images)
Gerard Way em show do My Chemical Romance em 2006 (Foto: Mick Hutson / Redferns via Getty Images)

Os anos 2000 viram a ascensão de dois elementos em particular na cultura pop. O primeiro foi o retorno da ópera rock, graças ao sucesso estrondoso de American Idiot (2004), responsável por reviver a carreira do Green Day e cimentar o legado do grupo na história do gênero. O outro se trata do emo, do qual My Chemical Romance é representante e o álbum The Black Parade, considerado uma obra-prima (entenda o conceito do disco mais adiante).

O termo “emo” tem um legado meio complicado. Originalmente usada para descrever um tipo de hardcore com letras mais introspectivas, a expressão passou a ser referir, na virada do milênio, a bandas de pop punk que adotaram um visual influenciado pelo gótico e uma sensibilidade artística marcada por excessos. Todo sentimento expressado nas canções era extremo e a música era bombástica, tomando deixas do post-hardcore de At the Drive-In, Jawbreaker e afins.

My Chemical Romance surgiu quase como um ideal platônico do emo. O grupo de Nova Jersey simbolizava todas as virtudes e problemas do gênero de cara. O álbum de estreia I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), lançado de maneira independente, chamou a atenção da Reprise Records, subsidiária da Warner, que assinou a banda a tempo do trabalho seguinte, Three Cheers for Sweet Revenge (2004), que fez sucesso a ponto de vender 3 milhões de cópias nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o disco de 2004 cristalizou uma imagem sinônima ao emo. E a banda se tornou para-raios quando o movimento passou a ser ridicularizado por outros fãs de rock. Em entrevista à Kerrang!, o vocalista Gerard Way refletiu sobre seu estado mental nesta época. A ideia de ser apenas um one-hit wonder (“artista de um hit só”) lhe assombrava:

“Não foi a época mais feliz. Eu estava extremamente tenso. A banda tinha ficado realmente grande e havia muita pressão. Muitas pessoas achavam que seríamos apenas um sucesso passageiro. Passei por uma crise e estava examinando todas as coisas terríveis sobre mim. Me tornei muito suscetível à depressão.”

Além disso, a associação do My Chemical Romance com emo não descia bem pro frontman. Em entrevista citada no livro Sellout The Major Label Feeding Frenzy That Swept Punk, Emo, and Hardcore (1994–2007), de Dan Ozzi, Way surpreendeu ao rejeitar o rótulo sem qualquer sutileza:

“Acho que emo é um monte de m#rda, lixo total, besteira. Acho que existem bandas que infelizmente acabam sendo colocadas na mesma categoria e, por padrão, isso começa a nos rotular como emo. Qualquer um que realmente ouvir os discos, verá que não há semelhanças.”

Ao fim de 2005, a banda queria a maior distância possível do “emo”. A resposta encontrada por Way, Ray Toro (guitarra), Frank Iero (guitarra), Mikey Way (baixo) e Bob Bryar (bateria) foi dobrar a aposta na ambição. As influências agora seriam Queen, Beatles e Pink Floyd. Eles fariam uma ópera rock, tal qual American Idiot, o maior sucesso comercial do gênero na época. Entretanto, ao invés de abordar diretamente o ambiente político dos Estados Unidos nos anos 2000, o álbum não trataria de guerra e sim da morte.

Conceito de The Black Parade

The Black Parade (2006) começou sua vida como um gibi. Gerard Way era um fã de histórias em quadrinhos e viria a ser – junto com os artistas brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon – o criador de The Umbrella Academy, depois adaptada para série da Netflix. Entretanto, o conceito parecia limitado por esse meio. O vocalista então explorou a história através de música e vídeos.

A trama é centrada em um personagem chamado The Patient, que está em seus últimos dias e é visitado pela Morte. Ela o leva por uma viagem através de suas memórias, desde paradas marciais na sua infância aos amores vividos e conflitos com outros.

O protagonista acredita ter desperdiçado sua vida não fazendo nada por ter jogado relacionamentos no lixo, enquanto sua família se prepara mais para seu fim do que consolá-lo nesse momento difícil. Ele também se preocupa com a ideia de ir para o inferno e ser castigado para sempre.

Vários personagens aparecem ao longo da história em narrativas paralelas cujo objetivo é iluminar a relação do protagonista com as pessoas ao seu redor. Seja Mother War (interpretada por Liza Minnelli na canção “Mama”), Fear e Regret, The Soldiers, e The Escape Artist: todos simbolizam algum aspecto do conflito de The Patient consigo mesmo e outros.

Por fim, o personagem principal aceita a finitude da vida e supera seu medo de morrer. Entretanto, o final do álbum é ambíguo: o ouvinte não sabe se The Patient faleceu ou recebeu, da Morte, outra chance de viver.

Gravações de The Black Parade

Após decidir o conceito básico por trás de sua ópera rock, My Chemical Romance resolveu recrutar um expert. Rob Cavallo, produtor de American Idiot, foi contratado para comandar as sessões de gravação.

Em entrevista a Sellout The Major Label Feeding Frenzy That Swept Punk, Emo, and Hardcore (1994–2007), Cavallo lembrou da primeira reunião que teve com o MCR. O produtor ficou impressionado que a banda queria explorar uma gama musical muito mais abrangente em comparação ao emo da época e as demos o marcaram de cara:

“Eu fui para Nova York e eles tocaram algumas músicas para mim. Eles tocaram ‘Mama’ e eu realmente pulei da cadeira e comecei a pular por aí. Eu pensei: ‘Seja o que for, isso vai levar a um dos discos mais grandiosos, sombrios e teatrais de todos os tempos’.”

A banda a esse ponto tinha apenas um terço do álbum composto e uma versão embrionária da trama. Os integrantes alugaram um lugar chamado Paramour Mansion em Los Angeles para trabalhar no disco. O clima das sessões não foi dos melhores.

Gerard Way ficou obcecado com o tema da morte e a construção do mundo de The Black Parade, a ponto de desenvolver terror noturno e terminar uma relação amorosa que já durava seis anos. Seu irmão Mikey, por sua vez, chegou a deixar a banda um tempo para tratar um quadro de depressão e alcoolismo adquirido enquanto morava na mansão.

Após uma pausa nesse processo em prol da saúde mental dos integrantes, a banda se viu no meio de um bloqueio criativo. Entretanto, aos poucos conseguiram superar esse obstáculo, graças ao fato de direcionarem todos os temores surgidos durante as gravações às músicas de maneira bem-humorada.

Uma demo de Ray Toro chamada “The Saddest Music In The World” virou “Famous Last Words”, a última canção listada oficialmente na tracklist. Além disso, Cavallo mostrou ao grupo uma peça de piano composta por ele que foi a chave para finalizar uma música idealizada pelo My Chemical Romance desde seus primórdios, apelidada “The Five of Us Are Dying”. Fãs conhecem a versão final como “Welcome to the Black Parade”, o primeiro single do álbum.

Quando as gravações terminaram, em agosto de 2006, o MCR tinha material suficiente para um álbum duplo. Entretanto, não queriam isso e começaram a cortar canções, buscando uma narrativa enxuta. O processo foi árduo e Gerard Way depois expressou arrependimento por deixar algumas músicas de fora, mas a banda fechou o tracklist em 14 canções — 13 delas listadas na contracapa, pois “Blood” ficou como faixa escondida (moda da época), escondida após o final de “Famous Last Words”.

Legado do My Chemical Romance com este álbum

The Black Parade saiu dia 23 de outubro de 2006, atingindo a 2ª posição nas paradas dos Estados Unidos e Reino Unido. Desde então, o álbum vendeu mais de cinco milhões de cópias e alavancou My Chemical Romance ao panteão de grandes artistas de sua época. A comparação com o emo — por mais que Gerard Way tenha expressado desconforto em 2005 — continua, mas o legado é positivo.

O tempo passou e a visão da cultura popular com relação ao emo amoleceu sob a lente da nostalgia. Agora, My Chemical Romance não precisa se desculpar por fazer parte da cena porque sua música sobreviveu ao tempo.

O grupo fará dois shows no Allianz Parque na próxima quinta, 5, e sexta-feira, 6. O primeiro deles já está esgotado. Não é qualquer artista capaz de uma façanha dessas. Precisa haver uma conexão do público com o material capaz de transcender gerações. The Black Parade é o maior símbolo disso. Um álbum sobre aceitar a inevitabilidade da morte e celebrar a vida, embora curta, que ironicamente tornou My Chemical Romance imortal.

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Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como IgorMiranda.com.br, Scream & Yell e Rock'n'Beats.
TAGS: Bob Bryar, Frank Iero, Gerard Way, Mikey Way, My Chemical Romance, Ray Toro