ENTREVISTA

The Hives fala à RS sobre shows no Brasil, My Chemical Romance e Turbonegro

Pelle Almqvist, vocalista, celebra retorno abrindo para colegas americanos ao mesmo tempo em que brinca: ‘talvez teria sido mais inteligente para nós terminarmos a banda por uma década e depois voltar’

Igor Miranda (@igormirandasite)

Howlin' Pelle Almqvist durante show do The Hives em 2025 (Foto: Sergione Infuso / Corbis via Getty Images)
Howlin' Pelle Almqvist durante show do The Hives em 2025 (Foto: Sergione Infuso / Corbis via Getty Images)

Ao encerrar seus shows, The Hives coloca uma música simbólica para tocar nas caixas de som: “Nobody Does It Better”, canção que integra a trilha sonora do filme 007 — O Espião Que Me Amava (1977). “Ninguém consegue fazer isso melhor; Até me faz sentir pena dos demais; […] Por que é que você tem que ser tão bom?”, dizem alguns dos versos cantados pela intérprete original, Carly Simon.

É desta forma que The Hives se sente — e se promove: como uma banda imbatível ao vivo. Dá para dizer que, nesse ponto, não exageram tanto assim. O grupo sueco, nome notório do revival do garage rock na virada do século, construiu sua reputação a partir de apresentações enérgicas e viscerais, oferecidas ao público enquanto os integrantes vestem trajes formais e elegantes.

O público do Brasil poderá assisti-los ao vivo pela sexta vez nos próximos dias 5 e 6 de fevereiro, agora como atração do ícone emo americano My Chemical Romance. As apresentações ocorrem no Allianz Parque, em São Paulo, com produção da 30e e Move Concerts.

The Hives em 2025 (Foto: Sergione Infuso / Corbis via Getty Images)
The Hives em 2025 (Foto: Sergione Infuso / Corbis via Getty Images)

Responsável por capitanear uma formação composta por Nicholaus Arson (guitarra), Vigilante Carlstroem (guitarra), Chris Dangerous (bateria) e The Johan and Only (baixo), o vocalista Howlin’ Pelle Almqvist definiu, em entrevista à Rolling Stone Brasil, a ocasião como “algo parecido com férias”. “Acabamos de fazer uma turnê pela Europa onde, durante seis semanas, tocamos 90 minutos todas as noites. Agora, faremos um show mais curto, então vai ser como férias pra gente”, explica, indicando que será moleza tocar diante do público do My Chemical Romance, a quem conhece “desde o início dos anos 2000” e não via “há uns 20 anos”.

A visita anterior ao Brasil sequer foi para shows, mas, sim, cumprindo uma agenda promocional de entrevistas e eventos divulgando o novo álbum The Hives Forever Forever The Hives. Na ocasião, os cinco membros do grupo visitaram os estúdios da Rolling Stone Brasil para um bate-papo divertido. Almqvist se recorda, especialmente, da participação no talk show The Noite com Danilo Gentili, quando puderam até tocar o hit “Hate to Say I Told You So” e a recém-lançada “Enough is Enough”.

“Tinha que tentar ser espirituoso [durante essa entrevista], estavam traduzindo simultaneamente. Havia um atraso na comunicação. Mas foi realmente divertido de fazer aquilo. Depois fizemos uma sessão tocando em uma rádio. Estava muito quente e era um cubículo. Foi divertido. Caminhamos pela cidade, fomos à tal da Galeria do Rock. Normalmente só chegamos, fazemos o show, jantamos e vamos embora, então foi ótimo passar mais tempo explorando São Paulo.”

The Hives e My Chemical Romance

The Hives está a cargo da abertura de toda a turnê latino-americana do My Chemical Romance, inaugurada domingo, 25, no Peru, e prevista para percorrer Chile, Argentina, Brasil, Colômbia e México, nesta ordem. Será que o público da banda emo americana vai curtir o show visceral dos colegas suecos?

Pelle Almqvist acredita que sim. O vocalista chega a citar que sua banda já realizou turnês até com Pink e Maroon 5 (“que provavelmente combina mais conosco”) e destaca: não importa se gostam do Hives antes, mas, sim, depois da apresentação.

“Espero que haja muitas pessoas nos shows do My Chemical Romance que nunca tenham ouvido falar de nós, porque isso é minha coisa favorita: tocar para pessoas que não sabem que existimos e depois elas se tornarem fãs. Acho o My Chemical Romance legal, gosto das pessoas da banda, há muitas pessoas nos shows e será divertido. Não acho que necessariamente precise soar igual ou algo assim. Se você nos colocar na frente das pessoas, vamos fazer com que gostem de nós. Esse é o nosso trabalho.”

Pelle não sabe dizer com precisão a origem do convite para integrar a turnê. “Acho que veio deles”, diz, antes de apontar:

“Como eles reservaram shows realmente grandes, eles queriam uma banda de abertura que já tivesse um pouco de público, para ter certeza de que irão lotar as arenas ou os estádios. Acho que eles são mais populares do que pensam. Eles teriam lotado facilmente esses shows sem nós. Mas acho que essa era a lógica: pegar uma banda semipopular para abrir e talvez vendermos alguns ingressos a mais. Talvez o pacote seja popular também, mas vendeu muito mais ingressos do que as pessoas esperavam, eu acho.”

O próprio cantor está sendo modesto, pois também há fãs de The Hives que compraram ingresso para assisti-los abrindo para o My Chemical Romance. Essa parcela do público no Brasil, diga-se, está até um pouquinho chateada pelo fato de o grupo sueco ter agendado apresentações solo em locais menores na Argentina e México, mas não por aqui. Segundo o frontman, trata-se meramente de questão logística: nos países citados, haveria mais tempo hábil para deslocamento de músicos, time de apoio e equipamento.

“Vamos criar clones nossos no próximo ano e aí talvez a gente consiga fazer tudo! Podemos tocar em um estádio e fazer um show pequeno ao mesmo tempo. [Risos] Mas, por enquanto, existe apenas um The Hives.”

De olho no presente

Das onze músicas tocadas pelo The Hives no show que iniciou a turnê latino-americana, sete vêm de seus dois discos mais recentes, The Death of Randy Fitzsimmons (2023) e The Hives Forever Forever the Hives (2025). Na turnê anterior como atração principal, eram 18 canções, dez oriundas desse par de álbuns. Apesar dos mais de 30 anos de carreira e 25 de trajetória discográfica, a banda sueca não se apoia em nostalgia ao construir o repertório de suas apresentações.

Pelle Almqvist explica que Chris Dangerous, baterista, é o responsável por montar os setlists, mas o conceito de priorizar faixas mais recentes surgiu de modo natural. Como o cantor enxerga uma renovação constante do público, torna-se comum que composições atuais sejam celebradas, visto que a fatia mais jovem da plateia não cresceu ao som de “Hate to Say I Told You So”, “Tick Tick Boom” e clássicos do tipo.

“Acho que é importante sentirmos que ainda estamos interessados em criar algo novo. Ainda não queremos nos sentir como algo nostálgico. Se lançamos um álbum novo, fazemos questão de tocar metade dele nos shows. O penúltimo álbum foi tão recente que soa como a nova era do The Hives. Deu muito certo. Fizemos nossos maiores shows na Europa, então presumo — já que não dá para saber direito a venda de discos hoje em dia — que esses álbuns foram bem. Já recebemos propostas para fazer turnê tocando só músicas do Veni Vidi Vicious (álbum de 2000 que os expôs ao estrelato), mas acho que sou o mais contra. Não estou pronto, quero me sentir relevante.”

A entrevista, então, mergulha em um momento curioso. O vocalista se dá conta de que o próprio My Chemical Romance está em uma turnê comemorativa, dos 20 anos de The Black Parade (2006). Ao recalcular a rota, ele aponta:

“Se estamos em turnê com eles, não quero falar nada de ruim sobre isso. Só não curto muito quando a banda admite que um disco antigo é o melhor deles. Eu quero que toda banda diga que o álbum mais recente é o melhor, eles acreditem nisso ou não. Acho que essa é só a minha opinião sobre isso.”

De todo modo, Almqvist não está sendo indelicado com o My Chemical Romance, pois o grupo americano não lança um disco desde 2010 (Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys) e retomou suas atividades, em 2019, após um hiato de quase uma década. Mas não deixou de fazer duas brincadeiras. A primeira:

“Talvez teria sido mais inteligente para nós terminarmos a banda por uma década e depois voltar. Parece ser a fórmula para o sucesso. Também estaríamos tocando em estádios se tivéssemos terminado por uma década. [Risos] Mas, não, estou me divertindo fazendo dessa forma. É mais o nosso estilo. Sinto que se parássemos, seria difícil recomeçar. Então, vamos apenas continuar.”

E a segunda, alguns minutos depois, respondendo a outra pergunta sobre as escolhas ao montar o setlist:

“Quando tocamos com outra banda, só queremos tocar as melhores músicas que temos e garantir que… música não é realmente competição — a menos que você esteja tocando com outra banda. [Risos] Você quer sentir alguma competição saudável entre as bandas, do tipo: eles deveriam ficar um pouco assustados de tocar depois da gente, e a gente deveria ficar um pouco assustado de tocar antes deles e tal. No fim das contas, escolhemos as nossas melhores.”

Futuro do The Hives

Em meio a reflexões positivas sobre o momento atual do The Hives, Pelle Almqvist é informado que uma das faixas de The Hives Forever Forever The Hives, “Roll Out the Red Carpet”, está sendo bastante executada nas plataformas de streaming — mesmo não tendo sido promovida como single. Ele, então, avisa: a canção, que ganhou apreciação orgânica no Spotify, ganhará um videoclipe em breve.

Para além do clipe, o que mais o futuro reserva para o quinteto sueco? O cantor disse que, até o momento, nada além das datas de turnê já agendadas. Após a América Latina, o grupo tira um breve descanso para retomar turnê em março, na América do Norte. Entre junho e julho, percorrem festivais europeus. Depois disso, é “sentar e conversar para ver os próximos planos”.

“Tínhamos um plano de cinco anos, que envolvia lançar esses dois álbuns e fazer turnês. O plano termina no meio de 2026. E então vamos sentar e dizer: ‘O que vocês querem fazer? Querem gravar um disco? Querem pegar mais leve? Querem fazer mais turnês?’. Decidimos não falar sobre isso até lá, então não sei. Então veremos o que o futuro reserva. Mas acho que todos estão com um ótimo humor e se divertindo.”

Uma grande influência

Na parte final da entrevista, Howlin’ Pelle Almqvist é convidado a abordar uma foto que repercutiu nas redes no último mês de novembro. Na imagem, o cantor aparece ao lado dos também vocalistas Dennis Lyxzén e Tobias Forge, respectivamente do Refused e Ghost, nos bastidores de um show do Turbonegro em Estocolmo. Almqvist, Lyxzén e Forge são representantes do rock sueco, enquanto o grupo que se apresentava é um nome clássico do glam/punk norueguês. O mais puro suco de som pesado da Escandinávia.

“Eu tinha acabado de voltar para casa após uma turnê. Eu estava tentando ficar longe de um ambiente ‘rock’, pois já vejo palcos, luzes, caixas de equipamento e coisas na minha vida normal. Mas amo Turbonegro desde muito jovem, meus 15 ou 16 anos, e são grandes amigos meus. Fui ao show e depois ao camarim para dar um ‘oi’. Todas aquelas pessoas estavam lá. Conheço Tobias e Dennis muito bem. Então, passamos tempo e conversamos à toa. Só depois é que percebi que havia apenas pessoas famosas na foto, mas na hora eu pensei apenas que estava passando tempo com meus amigos. De toda forma, acabou parecendo meio que uma espécie de estrelas escandinavas de hard rock. [Risos]”

A influência do Turbonegro, grupo que está na ativa desde 1989, é notada no The Hives não apenas no som direto e divertido como, também, na forma de escrita dos pseudônimos de seus integrantes. A formação atual é composta por músicos chamados, por exemplo, The Duke of Nothing (voz) e Crown Prince Haakon-Marius (teclados). Pelle comenta:

“Tem coisas em que eu consigo perceber a influência do Turbonegro, mas acho que The Hives já tinha uma identidade tão forte quando conhecemos o Turbonegro. Éramos mais fãs do que influenciados, talvez.”

A admiração se estendeu e, como citado por Almqvist, as duas bandas ficaram amigas. Chegou ao ponto de o cantor e seu irmão, guitarrista e colega de Hives, Nicholaus Arson, terem composto uma música para os ídolos: “Let the Punishment Fit the Behind”, disponibilizada pelo Turbonegro no álbum RockNRoll Machine (2018). Pelle relembra:

“Aquela música soava tão Turbonegro que chegava ao nível de paródia. Criamos, mandamos para eles, aí o Tom (Happy-Tom, baixista do Turbonegro) pediu para usar o refrão. Um ano depois, eles enviaram a música completa, mantendo tudo da demo que enviamos. Sou um grande fã deles pelo quão absurdo era. Ir a shows deles tinha uma vibe surreal.”

*My Chemical Romance e The Hives se apresentam no Allianz Parque, em São Paulo, nos dias 5 e 6 de fevereiro. Ainda há ingressos para o segundo dia no site Eventim.

Veja também:

+++ LEIA MAIS: The Hives ajuda a bancar bandas cover até na América do Sul, segundo vocalista
+++ LEIA MAIS: The Hives fala à RS sobre novo álbum, Brasil, jovialidade e metal sueco
+++ LEIA MAIS: As 10 bandas de rock que mais faturaram com shows em 2025, segundo a Billboard

+++ LEIA MAIS: A ação de Erika Hilton após Eventim cobrar nova taxa em ingresso do My Chemical Romance
+++ LEIA MAIS: Outras entrevistas conduzidas pelo jornalista Igor Miranda para a Rolling Stone Brasil
+++ Siga a Rolling Stone Brasil @rollingstonebrasil no Instagram
+++ Siga o jornalista Igor Miranda @igormirandasite no Instagram

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Jornalismo Digital. Começou em 2007 a escrever sobre música, com foco em rock e heavy metal. É colaborador da Rolling Stone Brasil desde 2022 e mantém o site próprio IgorMiranda.com.br. Também trabalhou para veículos como Whiplash.Net, revista Roadie Crew, portal Cifras, site/canal Ei Nerd e revista Guitarload, entre outros. Instagram e outras redes: @igormirandasite.
TAGS: Entrevistas Igor Miranda, My Chemical Romance, the hives