Titãs celebram ‘Cabeça Dinossauro’ com show pesado e sem baladas em SP
Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto reafirmaram relevância de álbum clássico ao tocá-lo na íntegra após 40 anos e abdicar de hits em etapa complementar do setlist
Igor Miranda (@igormirandasite)
Originada ainda em 1934, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) da Polícia Federal foi, como seu nome indica, o órgão fiscalizador e censor de conteúdos culturais e midiáticos. Foi instaurada de modo mais notório em 1972 e permaneceu ativo até 1988, ano em que se estabeleceu a atual Constituição Federal, marco do processo de redemocratização pós-ditadura.
Em 1987, já num de seus atos finais, a DCDP não liberou a execução pública integral em mídias de “Bichos Escrotos”, hoje uma das músicas mais populares de Cabeça Dinossauro (1986), terceiro álbum de estúdio dos Titãs. O problema estava no trecho “vão se f#der”. “A versão analisada deixa vazar em seu discurso um sentimento de pessimismo, ao mesmo tempo que projeta uma imagem escatológica da realidade”, afirma o texto de 22 de maio do ano citado, presente no site do Arquivo Nacional. “Julgamos viável a liberação irrestrita da letra, uma vez suprimida ‘in totum’ a expressão ‘vão se f#der’ conforme pleiteia o interessado.”
A leitura do documento citado foi responsável por abrir o show especial dos Titãs no Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado, 28, em celebração aos 40 anos de Cabeça Dinossauro — iniciando, também, uma turnê com quatro datas anunciadas e outras por vir. Talvez por isso, na hora de tocar “Bichos Escrotos”, o público tenha enchido a boca para gritar, junto do grupo, todos os “vão se f#der” previstos na letra.
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Conforme prometido em entrevista à Rolling Stone Brasil, o repertório de 25 músicas tocado por Sérgio Britto (voz e teclados), Branco Mello (voz e baixo) e Tony Bellotto (voz e guitarra), com apoio dos guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio e do baterista Mário Fabre, é essencialmente pesado. Das 25 músicas — as 13 de Cabeça Dinossauro na ordem original e 12 de outros trabalhos —, talvez apenas uma possa ser encaixada como balada (“Anjo Exterminador”), mas a letra faz caber no conceito, enquanto outra tenha o reggae como fio condutor (“Família”), todavia em versão evidenciando mais os riffs do que o ritmo sincopado.

Em matéria de riffs, aliás, os Titãs estavam bem servidos. A formação com três guitarristas caiu como uma luva nesta turnê. Beto e Alexandre ofereceram a Tony a consistência necessária para que este se preocupe mais com solos e outros detalhes, além de vocais em canções como “Estado Violência”, a já citada “Família” e “Canção da Vingança”, esta dedicada aos médicos que operaram seu recente câncer no pâncreas.

Como o setlist é mais heavy, Sérgio pôde exercer a função de frontman de modo mais pleno, sem prender-se tanto aos teclados. Não que seus colegas pareçam cansados — longe disso —, mas ele é quem menos parece ostentar a idade real, de 66 anos. Branco, por sua vez, não apenas deu aula de resiliência, como também mostrou que sua “nova” voz, obtida após cirurgias contra tumores na garganta, combina ainda mais com um repertório pesado. Saiu-se muito bem cantando especialmente “Eu Não Sei Fazer Música” e “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, ambas na segunda etapa da performance.

Desconsiderando-se as 13 faixas de Cabeça Dinossauro, o álbum mais representado no repertório foi Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1988), com a punk “Armas pra Lutar”, o hit “Diversão”, a despojada “Lugar Nenhum” e, já no bis, a tipicamente b-rock “Desordem”. Titanomaquia (1993), citado por um editor amigo de Bellotto como “o Cabeça Dinossauro da geração seguinte”, veio com a pesadíssima “Será que é Isso que Eu Necessito?” e a já mencionada “Nem Sempre se Pode Ser Deus”. Outros álbuns completaram as demais escolhas, que felizmente não envolveram músicas como “Sonífera Ilha”, “Marvin”, “Epitáfio”, “Televisão”, “Pra Dizer Adeus”, “Go Back” e afins.

Já sobre o disco homenageado, discutir sua relevância mantida em tempos atuais é chover no molhado. Da anárquica faixa-título na abertura ao encerramento com a post-punk experimental “O que” — quase uma ponte ao trabalho sucessor Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas —, tudo se encaixou e soou vívido no palco. Agradaram a plateia em especial a visceral “AA UU”, a paulada “Polícia” e o mega-sucesso “Homem Primata” (introduzido a capella por Sérgio), mas a plateia, de modo geral, parecia conhecer até os lados B. Teve até quem tentasse cantar junto o hardcore “A Face do Destruidor”.
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Ainda que turnês comemorativas de álbuns clássicos possam soar como iniciativas caça-níquel, os Titãs se safaram dessa com o show Cabeça Dinossauro 40 Anos. Obtiveram êxito ao dispensar as músicas mais lentas e apostar numa apresentação forte e de conceito claro. Marcado também por pouco falatório e muito som — 25 canções em aproximadamente 90 minutos —, o espetáculo será levado a Belo Horizonte (BeFly Hall, 25/04), Rio de Janeiro (09/05, Qualistage), Curitiba (18/07, Igloo Super Hall) e possivelmente a outras cidades ainda não anunciadas.

Titãs — repertório
Set 1 — Cabeça Dinossauro:
1. Cabeça Dinossauro
2. AA UU
3. Igreja
4. Polícia
5. Estado Violência
6. A Face do Destruidor
7. Porrada
8. Tô Cansado
9. Bichos Escrotos
10. Família
11. Homem Primata
12. Dívidas
13. O Que
Set 2:
14. Será que é Isso que eu Necessito?
15. Anjo Exterminador
16. Armas pra Lutar
17. Canção da Vingança
18. Vou Duvidar
19. Eu Não Sei Fazer Música
20. Diversão
21. Nem Sempre Se Pode Ser Deus
22. Eu Não Aguento
23. Lugar Nenhum
Bis:
24. Desordem
25. Flores

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