RESENHA

Apesar das boas intenções, U2 soa frustrante no EP ‘Days of Ash’

Tentativa da banda de comentar sobre acontecimentos nos Estados Unidos, Palestina e Ucrânia peca pela superficialidade das músicas

Pedro Hollanda (@phollanda21)

U2 em 2026 (Foto: Anton Corbijn)
U2 em 2026 (Foto: Anton Corbijn)

O problema inerente de fazer músicas de protesto é a necessidade do timing certo. Algumas situações demandam tempo para o público compreender a dimensão do ocorrido. Às vezes, uma canção composta logo após o fato funciona pelo imediatismo; outras, não. O U2 é veterano nesse sentido, logo, deveria saber.

No entanto, não funcionou a tentativa da banda de comentar sobre os acontecimentos recentes nos Estados Unidos, em especial os sequestros de imigrantes conduzidos pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA) e a morte de Renee Good nas mãos de agentes do órgão. O EP Days of Ash (2026), lançado pouco mais de um mês após a tragédia, peca em diversos aspectos – nenhum tão grande quanto o timing.

A música “American Obituary” abre o material com guitarras punk – cortesia de The Edge – que remetem a canções antigas do U2 como “Vertigo” e o clima do álbum War (1983). No entanto, o trecho de letra sobre Renee Good parece inserido de qualquer jeito na música. Como se a banda já tivesse essa faixa – em si já um rock de protesto um tanto vago – e resolveu adicionar uma parte superficial sobre a morte da americana.

Em seguida, há “The Tears of Things”, uma balada com subtexto religioso na qual Bono se imagina como a estátua de Davi, que fica no Vaticano. O eu lírico canta sobre ser libertado da sua prisão de mármore por seu criador, Michelangelo, e uma visita de Benito Mussolini enquanto o Holocausto ocorre.

A imagem da obra de arte usada como símbolo da superioridade cultural do Ocidente horrorizada com as ações à sua volta é forte, mas o vocalista parece desinteressado em se aprofundar no tema. Tanto que o refrão só repete o título da canção. Vago a ponto de ser frustrante.

O EP continua com talvez sua melhor canção, “Song of the Future”. Um rock com ecos de “While My Guitar Gently Weeps”, dos Beatles, a letra não tem muita profundidade (a exemplo da passagem “O futuro, como todos sabem, e onde passaremos o resto de nossas vidas; Quem disse que o futuro está fechado? Nunca vi a promessa em seus olhos… liberdade”), mas ao menos não contém momentos nos quais Bono tenta ser específico sobre temas atuais.

O momento mais emocionalmente desconectado da realidade é talvez “Wildpeace”. A banda recrutou a cantora Adeola Soyemi para recitar um poema de Yehuda Avishai. Apesar dos versos abordarem um ciclo infinito de guerra e barbárie, especificamente no Oriente Médio, a escolha de usar um autor israelense representa uma falta de noção por parte da banda.

As duas canções que fecham o EP, “One Life at a Time” e “Your Eternally” (a segunda com participação de Ed Sheeran e o cantor ucraniano Taras Topolia), continuam a exploração rasa de questões políticas atuais. Chega ao ponto de Bono soar condescendente. Na primeira citada, dispara a obviedade:

“O que você vê depende de onde você está
Como você cai depende de onde você aterrissa
O que você sabe é mais do que te disseram
O que você sente molda tudo o que você vê
Encontrar o mapa e perder o território
Essa é a nossa história”

A questão ao longo da carreira do U2 é: apesar de ser conhecida como uma banda politizada, quando Bono e companhia tentam fazer uma canção explicitamente sobre um acontecimento, os erros são mais frequentes que os acertos. Days of Ash infelizmente continua essa tendência.

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Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como IgorMiranda.com.br, Scream & Yell e Rock'n'Beats.
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