Zakk Wylde fala à RS sobre Ozzy Osbourne, novo álbum do Black Label Society e Shakira
Guitarrista e fiel escudeiro do saudoso cantor lança em março, junto de sua própria banda, o disco ‘Engines of Demolition’ — com direito a música homenageando o chefe/amigo
Igor Miranda (@igormirandasite)
Os primeiros segundos de Engines of Demolition, 12º álbum de estúdio do Black Label Society, são capazes de enganar algum fã incauto. “Name in Blood”, uma das quatro faixas do disco já disponibilizadas como single, abre com um lick de guitarra à la AC/DC. A influência é retomada no refrão, na pegada “Hells Bells”, e “Pedal to the Floor”, enquanto a inspiração do Pantera — grupo que o vocalista e guitarrista Zakk Wylde vem homenageando em turnê com integrantes clássicos nos últimos tempos — é sentida em momentos de “The Gallows”, por exemplo. Ainda é heavy metal, mas com ingredientes diferentes.
Seria este álbum, com lançamento marcado para 27 de março, o mais versátil da carreira do BLS? Não é para tanto. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Wylde, notório também por ter sido guitarrista de Ozzy Osbourne em boa parte de sua trajetória solo a partir do fim dos anos 1980, responde à pergunta de um jeito natural, quase blasé: “Para mim, é como qualquer outro álbum que já fiz, desde ‘Miracle Man’ [música lançada em 1988 no disco No Rest for the Wicked] até agora. É apenas tocar a música que você ama. Se isso te emociona, então faça”.
As emoções de Zakk, diga-se, estão à flor da pele nos últimos tempos. Em rodagem global desde 2022, a turnê com a citada homenagem ao Pantera o trouxe realizando o sonho de muitos fãs ao executar linhas de guitarra compostas por Dimebag Darrell, seu amigo assassinado em 2004. Wylde também intensificou no pós-pandemia as atividades do Zakk Sabbath, tributo ao Black Sabbath, grupo do qual é enorme fã. E, obviamente, os problemas de saúde e a morte de Ozzy Osbourne, em julho de 2025, o tocaram.
Embora descreva Engines of Demolition como “uma jornada pelos altos e baixos nos últimos quatro anos”, o guitarrista de 59 anos é protocolar, também, ao explicar se o material é mais influenciado por “eventos externos” que o convencional. “Todo disco é assim”, responde, antes de emendar: “Você tem os altos e baixos, o quente e o frio. Eu estou ali no meio, morno. Você compõe sobre o que acontece na sua vida, ou que viu acontecer com outras pessoas. Por exemplo, ‘Lord Humungus’ é inspirada em um vilão de Mad Max. Mas, claro, eu não teria composto a letra de ‘Ozzy’s Song’ se Ozzy não tivesse falecido.”
A música de Ozzy
Como o título entrega, a última faixa citada no parágrafo anterior nasceu como tributo ao chefe e parceiro. Ainda inédita, “Ozzy’s Song” é uma balada simples, mas bela, de veia southern rock, combinando violão e piano. Seu refrão pontua: “Os céus podem chorar; Agora a corrida terminou; Todo o caos e todas as guerras; E embora tudo esteja dito e feito; Eu não poderia pedir por mais”.
Curiosamente, a abordagem não é totalmente melancólica. Em letra e melodia, soa como se Zakk estivesse triste, claro, mas conformado com a situação, visto que as enfermidades de Ozzy se estenderam por anos. O guitarrista explica a origem da composição:
“Depois que demos o último adeus ao Ozzy e a turnê de celebração do Pantera acabou, voltei para casa. Estava sentado à noite na minha biblioteca olhando um livro sobre o Ozzy, sabe. Escrevi essa letra por volta da meia-noite ou uma hora da manhã. Eu só ficava ouvindo as músicas e apenas olhando para ele quando acabei escrevendo uma letra.”

O trecho “eu não poderia pedir por mais”, utilizado por Wylde para fechar o refrão, reproduz algo que Osbourne costumava dizer. O cantor se definia como um sujeito de sorte: aproveitou — até demais — de seu corpo e de seus 76 anos de vida. A composição, aliás, nasceu justamente dessa frase.
“Foi daí que a letra surgiu. Ozzy dizia: ‘Eu não poderia pedir por algo melhor. Eu tive uma vida incrível. Sou um homem abençoado’. Olhando para a vida do Ozzy, realmente foi incrível. Pensando naquele último show, o Back to the Beginning, eu disse à Sharon [Osbourne, viúva e empresária]: ‘Mãezona, você não poderia ter dado a ele um presente mais incrível do que aquele último show’. Deu para ver todos os amigos antigos dele vindo cumprimentá-lo, passando um tempo com ele, dando risada juntos, e depois encontrando todo mundo lá. Ele vivia para isso: aquela camaradagem da banda e a energia da galera.”
Os motores da demolição
Há outras baladas no tracklist — como a deliciosamente country “Better Days & Wiser Times” e a tocante “Back to Me” —, mas Engines of Demolition é, em essência, um álbum de peso. Além das citadas influências de AC/DC e Pantera, há, habitualmente, muitos sons que remetem a Black Sabbath, a exemplo de “Gatherer of Souls” e outras passagens de “The Gallows”.
Resultado não apenas da criatividade de Zakk Wylde, mas do trabalho coletivo que envolve a formação mais duradoura do Black Label Society até aqui, composta por Dario Lorina (guitarra), John DeServio (baixo) e Jeff Fabb (bateria). Convidado a refletir sobre o fato deste quarteto específico estar junto há 12 anos, Wylde elaborou, quase em tom defensivo:
“Com o Black Label Society, todos sempre tiveram a liberdade de fazer o que quisessem. Nunca tive desentendimentos com ninguém. As saídas são apenas porque os caras não queriam estar na estrada ou queriam fazer outras coisas. Ainda mantenho contato com todos. Nunca houve briga ou expulsão. Gostamos da companhia uns dos outros. Mas se algum dos caras tiver filhos e falar ‘Zakk, preciso estar em casa’, tem a liberdade. E quem quer que esteja entrando, agora é o trono dele. É o lar deles enquanto estão aqui.”
O coração se amolece ao falar de Lorina. O guitarrista de 36 anos recebeu do chefe o apelido “Kid Dynamite” devido às suas múltiplas habilidades. “Ele sabe tocar guitarra, cantar, tocar piano, lavar a louça, lavar roupa, fazer declaração de imposto de renda… não há nada que Dario não consiga fazer”, explica Wylde, que cada vez mais tem dado espaço para o jovem colega oferecer solos nas canções do Black Label Society. É, de acordo com Zakk, algo natural.
“Por exemplo, eu já tinha ‘Name in Blood’ praticamente toda composta, mas falei para Dario dobrar algumas partes na guitarra: ‘você faz a parte alta, eu a baixa’. Em ‘Broken and Blind’, nos revezamos nos solos, cada um com sua parte.”
A turnê de Engines of Demolition passará pelo Brasil em 25 de abril, quando o BLS se apresenta no primeiro dia do festival paulistano Bangers Open Air. “Vai ser ótimo”, celebra Zakk. “Estou ansioso por isso e para tocar algumas das músicas novas. Conheço alguns caras de todas essas bandas [Twisted Sister, In Flames, Killswitch Engage, Jinjer, Fear Factory etc]. Será ótimo ver todos”.
E quanto ao futuro? O que mais Wylde, prestes a chegar no 60º aniversário, gostaria de conquistar? A resposta é curiosa:
“Quero apenas continuar com a paixão de Shakira e J-Lo unindo forças e apenas dançando com tudo. É só isso que eu tenho. Eu vivo para dançar. É por isso que eu uso o kilt, para que você possa ver meus pezinhos se mexendo lá embaixo. Eu não quero atrapalhar meus pés. Quero que as pessoas vejam os movimentos!”
*Engines of Demolition será lançado no próximo dia 27 de março através do selo MNRK Heavy. Mais informações em blacklabelsociety.com.
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