Entre a cruz e a espada, Daniel Salve celebra momento na carreira: ‘Oportunidades carregadas de significado’
Nos últimos meses, o autor, compositor e diretor artístico assumiu dois grandes trabalhos: Meu Filho é um Musical, espetáculo sobre a vida e a carreira de Paulo, e o musical de Percy Jackson: O Ladrão de Raios, baseado na aclamada obra de Rick Riordan
Henrique Nascimento (@hc_nascimento)
Apesar dos anos de carreira no teatro, Daniel Salve se colocou entre a cruz e a espada nos últimos meses. Autor, compositor e diretor artístico, ele foi escalado para assinar a trilha sonora de Meu Filho é um Musical, espetáculo sobre a vida e a carreira de Paulo Gustavo, vítima da Covid-19 em 2021.
Ao longo de sua breve, mas muito bem sucedida carreira, o ator e humorista conquistou uma leva de apaixonados fãs, que ainda lamentavam a triste partida de Paulo e esperavam uma homenagem à sua altura. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Salve confessa que a oportunidade o deixou honrado, mas também bastante inseguro em um primeiro momento:
“Fiquei muito feliz quando recebi o convite. Como artista, são aquelas oportunidades que chegam carregadas de significado. Mas, logo depois da empolgação inicial, veio uma insegurança enorme e um senso de responsabilidade que, confesso, me assustou bastante”, conta. “Estamos falando de uma figura que marcou profundamente a cultura brasileira e que continua sendo amada por milhões de pessoas. Eu me perguntava se era a pessoa certa para ajudar a contar essa história, especialmente porque não tive a oportunidade de conhecer Paulo Gustavo pessoalmente.”
Porém, quando entrou em contato com o texto de Fil Braz, parceiro do artista nas criações de 220 Volts e da trilogia cinematográfica Minha Mãe é uma Peça, houve uma virada de chave: “Embora estivéssemos falando de um dos maiores artistas do país, o coração da narrativa não estava apenas na celebridade ou nos personagens que ele criou. No fundo, tratava-se de uma história profundamente humana, uma história de amor entre uma mãe e um filho. E isso é universal. É algo que qualquer pessoa consegue compreender e sentir”, explica Salve.
Idealizado por Renata Borges e dona Déa Lúcia, mãe de Paulo Gustavo, que também participa em sessões selecionadas e produz o musical em parceria com a Touché Entretenimento, responsável por sucessos como Uma Baba Quase Perfeita e Beetlejuice: O Musical, Meu Filho é um Musical acompanha Paulo Gustavo desde a infância em Niterói, quando já divertia a família imitando a mãe e as tias, até sua consagração como um dos maiores nomes do entretenimento brasileiro.
“O processo de composição das músicas foi, então, uma tentativa constante de encontrar o ser humano por trás do ícone. Mais do que narrar fatos de sua trajetória, eu pude traduzir emoções: os sonhos, os medos, as dúvidas, os afetos, as perdas e as conquistas que moldaram quem ele foi. E talvez essa tenha sido a descoberta mais bonita do processo. Quanto mais eu pesquisava e mergulhava na vida dele, mais eu encontrava alguém que, apesar de extraordinário, também era profundamente humano”, acrescenta o compositor.
Salve passou pelo teste de fogo: a peça estreou em 28 de maio de 2026 no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro, e lotou diversas sessões até o seu encerramento, em 19 de julho. Agora, Meu Filho é um Musical chega a São Paulo, no Teatro Renault, a partir do próximo dia 20 de agosto, prometendo repetir o sucesso da temporada anterior.
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Porém, não há descanso para o artista, que agora utiliza de sua experiência para dar vida a outra aclamada obra: a versão brasileira de Percy Jackson: O Ladrão de Raios, musical inspirado na franquia literária de sucesso criada por Rick Riordan.
Com um público tão exigente quanto o de Meu Filho é um Musical, Salve entende a responsabilidade do seu trabalho como diretor artístico do espetáculo, previsto para estrear em 10 de outubro no Teatro Liberdade, também em São Paulo, mas não deixa de celebrar o momento:
“Quando você assume um projeto assim, entende rapidamente que não está apenas montando um espetáculo, está lidando com algo que já faz parte da vida de muitas pessoas. Ao mesmo tempo, isso torna o desafio estimulante. Eu gosto muito da ideia de que o teatro é uma arte de encontro. E, nesse caso, o meu trabalho é criar um encontro entre uma obra que já existe, um público que a ama e uma linguagem cênica que permita que essa história seja vivida de uma forma única”, conta.
Salve explica que, apesar de ser uma adaptação, montar um musical como Percy Jackson não se trata apenas de traduzir a obra, mas encontrar o equilíbrio entre a preservação e a tradiução cultural. “O objetivo não é reinventar a obra, mas também não é simplesmente reproduzi-la. É preciso compreender profundamente qual é a essência daquele material, o que faz com que ele funcione emocionalmente, e então encontrar formas de comunicar isso pro público brasileiro da maneira mais natural possível”, afirma.
“No caso de Percy Jackson, estamos falando de uma jornada de pertencimento. É uma história sobre um jovem que se sente deslocado, que tenta entender quem é, qual é o seu lugar no mundo e como transformar aquilo que os outros enxergam como defeito em uma força. Esse tema é universal”, acrescenta.
“Ao mesmo tempo, o teatro brasileiro tem características muito próprias. Temos uma relação diferente com humor, com emoção, com ritmo, com fisicalidade e até com a maneira como contamos histórias. Trazer essas qualidades para a encenação sem trair o espírito da obra é um processo muito rico. É como traduzir uma conversa entre culturas”, completa.
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