ESPETÁCULO NO TRIBUNAL

Kanye West tem dificuldade para permanecer acordado durante depoimento em julgamento sobre mansão

O músico, hoje conhecido como Ye, bocejou, fechou os olhos e pareceu deixar a cabeça cair para a frente mais de uma vez enquanto estava no banco das testemunhas

Nancy Dillon

Kanye West
Kanye West (Foto: Scott Dudelson/Getty Images)

Ele quase acrescentou mais alguns “Zzz” ao nome Yeezy enquanto prestava depoimento na sexta-feira, 6 de março, em um julgamento sobre sua antiga mansão em Malibu.

Ye, o artista anteriormente conhecido como Kanye West, apareceu em um tribunal de Los Angeles e bocejou repetidamente, manteve os olhos fechados por longos períodos e, em alguns momentos, pareceu deixar a cabeça cair para a frente como se estivesse cochilando enquanto estava no banco das testemunhas. Falando em tom monótono, respondeu “não me lembro” a dezenas de perguntas sobre a casa de Malibu de relevância arquitetônica que comprou por US$ 57 milhões em 2021 e depois vendeu com grande prejuízo.

A performance sonolenta provocou trocas de olhares entre as pessoas presentes na plateia. Ron Zambrano, advogado que representa o autor da ação, Tony Saxon, chegou a se virar em certo momento e perguntar com os lábios a um colega: “Ele está dormindo?” O juiz também pareceu notar, pedindo a Zambrano que “agilizasse um pouco as coisas” durante a sessão da tarde.

Após uma pausa particularmente longa, com os olhos aparentemente fechados, Ye pediu que Zambrano repetisse uma pergunta. A taquígrafa do tribunal a leu novamente: “Quando você contratou Saxon, você entendeu que o havia contratado para ajudá-lo a executar sua visão para a casa Ando?”

“Pergunte de novo, por favor”, disse Ye. A taquígrafa então leu a pergunta de Zambrano pela segunda vez. “Sim”, respondeu Ye finalmente, parecendo exausto.

O depoimento contido ocorreu pouco mais de um mês depois de Ye publicar um anúncio de página inteira no The Wall Street Journal, pedindo desculpas por comentários antissemitas. “Não estou pedindo simpatia nem um passe livre, embora aspire merecer o seu perdão”, escreveu Ye no pedido de desculpas publicado em 26 de janeiro. “Escrevo hoje apenas para pedir paciência e compreensão enquanto encontro meu caminho de volta para casa”.

O julgamento, agora em sua segunda semana em Los Angeles, gira em torno de alegações de que Ye contratou Saxon como gerente de projeto de construção e segurança 24 horas na chamada casa Ando, mas depois o classificou incorretamente como prestador de serviço e o tratou de forma inadequada. Saxon, de 35 anos, afirma que recebeu ordens para remover toda a fiação, eletricidade, encanamento e vasos sanitários da residência, além de demolir uma jacuzzi de concreto embutida e uma enorme lareira com dutos de aço inoxidável de cerca de 9 metros de altura. Saxon diz que lesionou gravemente o pescoço e as costas durante o trabalho e que foi demitido posteriormente em retaliação quando levantou preocupações de segurança.

Segundo Saxon, Ye o contratou como funcionário mesmo sabendo que ele não era um empreiteiro licenciado. Ele afirma que Ye não obteve seguro de compensação trabalhista e agora seria responsável não apenas por salários não pagos, mas também por danos relacionados a despesas médicas, perda de renda e sofrimento emocional.

Já os advogados de Ye argumentam que Saxon era um prestador de serviços independente contratado para fazer “trabalhos preparatórios de renovação”, mas que, em vez disso, “destruiu a casa Ando”. Eles também afirmam que ninguém pediu a Saxon que dormisse em um catre improvisado na casa — algo que ele chegou a publicar nas redes sociais.

Durante o interrogatório na sexta-feira, Ye foi confrontado com um depoimento que deu em agosto de 2025. “Você não contesta que era o empregador dele?”, perguntou Zambrano no vídeo exibido ao júri. “Não, não contesto”, respondeu Ye. Nesse momento, Zambrano chamou o magnata da música de “Sr. Ye” em uma pergunta seguinte. “É apenas Ye, não senhor”, corrigiu. Zambrano pediu desculpas, dizendo que não quis ofender.

Questionado sobre seus planos para a reforma da casa Ando, Ye disse que era verdade que queria remover todo o encanamento, demolir uma fogueira externa e renovar a cozinha. Ele não conseguiu lembrar se havia pedido para remover a jacuzzi.

“Você se lembra de ter dito ao Sr. Saxon para transformar todas as escadas em um escorregador?”, perguntou Zambrano.

“Não todas as escadas”, respondeu Ye, corrigindo o advogado. Apenas um conjunto de escadas, disse ele. De forma geral, afirmou que seu plano era “simplificar” a casa. Ele pretendia morar ali “às vezes”, como solteiro. “Eu estava em processo de divórcio”, testemunhou. Quando as perguntas passaram para mensagens de texto e registros bancários, Ye ficou sentado com os olhos fechados enquanto Zambrano folheava um fichário a poucos centímetros dele. Saxon estava na mesa da acusação, olhando para uma tela sem expressão.

Depois do intervalo para o almoço, Ye voltou ao banco das testemunhas por menos de uma hora. Quando Zambrano terminou o interrogatório direto, os advogados de Ye disseram que não tinham perguntas para o próprio cliente. Zambrano afirmou que não tinha mais testemunhas e encerrou o caso do autor. O advogado de Ye, Andrew Cherkasky, disse que a defesa também encerrava sua apresentação. O juiz ordenou que todos retornassem após uma pausa para iniciar a leitura das instruções ao júri. Ye saiu rapidamente pela porta, parando apenas alguns segundos na calçada para autografar um par de tênis para um fã que havia esperado do lado de fora o dia inteiro.

“Como todos nós, Tony não é perfeito. Como todos nós, ele tem fraquezas. Mas ele é intensamente leal, extremamente trabalhador. Ele aparece e trabalha duro. E ele é bipolar. Ele passa por altos muito altos e baixos muito baixos”, disse Zambrano ao júri durante as declarações de abertura na semana passada. Em seu recente anúncio de desculpas, Ye atribuiu seu comportamento antissemita a um transtorno bipolar não tratado, afirmando que teria sido causado por uma lesão cerebral sofrida em um acidente de carro em 2002.

O processo de Saxon é o primeiro, entre uma onda de ações civis movidas por ex-funcionários e colaboradores nos últimos seis anos, a chegar a um júri. Ye, de 48 anos, enfrentou mais de uma dúzia de processos desde uma série de postagens nas redes sociais em outubro de 2022, quando escreveu seu agora infame plano de “entrar em ‘death con 3’ CONTRA PESSOAS JUDEIAS”.

Semanas depois, a Rolling Stone publicou uma investigação sobre o ambiente de trabalho supostamente “tóxico” em sua marca Yeezy, onde Ye teria dito a um funcionário que “skinheads e nazistas eram sua maior inspiração”. Ye posteriormente pediu desculpas em uma publicação no Instagram escrita em hebraico, mas voltou a promover ideologia antissemita ao usar uma camiseta do músico norueguês Burzum, que já foi multado por antissemitismo.

No ano passado, Ye voltou a publicar mensagens inflamatórias no X, antigo Twitter, escrevendo “EU SOU UM NAZISTA” e “EU AMO HITLER”. Dias depois, exibiu um comercial durante o Super Bowl promovendo Yeezy.com, onde posteriormente vendeu camisetas estampadas com suásticas. Em maio de 2025, lançou o single “Heil Hitler”, que foi rapidamente removido da maioria dos serviços de streaming digital.

O depoimento de Ye ocorreu um dia depois da aparição de sua esposa, Bianca Censori, questionada sobre mensagens de texto trocadas com Saxon no fim de 2021. Em uma delas, Saxon escreveu: “Minhas costas estão completamente ferradas.” Censori respondeu: “Então descansa hoje e vem amanhã.”

Ye acabou vendendo a casa Ando por US$ 21 milhões em setembro de 2024. O comprador, Steve “Bo” Belmont, disse ao Los Angeles Times que pretendia restaurar o marco arquitetônico “como se Kanye nunca tivesse estado lá”.

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