COMENTÁRIO

O ‘Ano Zero’ de Trump acabou. Agora vem o acerto de contas

A revolução aterradora do presidente chegou a Washington em 2025. No fim das contas, será o ano em que a revolução foi derrotada

ROLLING STONE EUA

Donald Trump
Donald Trump (Foto: Win McNamee/Getty Images)

Em algum momento no início do segundo mandato de Donald Trump — após ele ter esvaziado as prisões de participantes de motins e iniciado uma campanha de terror contra servidores federais, mas bem antes de demolir a Ala Leste da Casa Branca — uma lembrança distante voltou à minha mente.

Era 1992, e eu era um jovem repórter escrevendo a partir de uma Libéria dividida, viajando pela estrada abandonada que ligava a poeirenta cidade de Gbanga, onde Charles Taylor e seu exército rebelde governavam, à capital, Monróvia. Nos arredores da cidade, passei pelas ruínas de uma estação de tratamento de água que os rebeldes adolescentes de Taylor haviam alegremente reduzido a escombros a tiros.

Esses revolucionários rurais nunca tinham visto usinas de água ou de eletricidade e não tinham ideia de como elas funcionavam. O que sabiam era que tudo o que tivesse sido erguido pela elite governante precisava ser destruído antes que a Libéria pudesse finalmente ser devolvida — como Taylor me disse, olhando diretamente para mim e cercado por homens armados, pouco antes de eu fugir apressadamente de Gbanga — à “lei da selva”.

Volto sempre a essa imagem, porque, para mim, ela chega ao cerne do que 2025 trouxe a Washington. Será lembrado como o ano em que a aterradora revolução de Trump chegou à cidade — e, no fim das contas, o ano em que ela foi derrotada.

Durante seu primeiro mandato, Trump delegou o governo a uma sucessão de assessores insossos, que se viam como guardrails humanos, encarregados de mantê-lo mais ou menos dentro das linhas brancas do pensamento conservador. Este segundo mandato, por outro lado, é uma aventura fora da estrada. Visivelmente mais cansado e errático à medida que se aproxima dos 80 anos, Trump agora se apoia em um grupo de conselheiros alinhados ideologicamente — Stephen Miller, Russell Vought, o vice-presidente J. D. Vance — que abraçam sem pudor o autoritarismo e a identidade nacionalista branca, chamem isso assim ou não.

Os anti-intelectuais de Trump não estão interessados em velhos chavões conservadores, como devolver poder aos estados ou expandir mercados globais. O que eles buscam é nada menos que uma reorganização radical da sociedade (e, cada vez mais, da ordem internacional), começando pela humilhação da elite educada e pela deslegitimação de todo o progresso social da segunda metade do século XX. Em sua essência, o movimento de Trump é uma guerra contra a modernidade.

Isso é algo novo para os Estados Unidos, mas não tanto para o resto do mundo. Talvez, então, a melhor forma de entender o movimento não seja comparar Trump a tiranos ou a presidentes anteriores, mas sim a algumas das mais notórias revoltas anti-intelectuais do século passado: os maoístas na China, o Khmer Rouge no Camboja, a rebelião adolescente de Taylor.

Claro, isso é hipérbole, no sentido literal. Seja o que Trump for, ele certamente não é um assassino em massa, e mesmo a escalada da violência política — a pior desde os anos 1960 — é insignificante se comparada ao que aqueles países enfrentaram.

“O que eles buscam é nada menos que uma reorganização radical da sociedade e a deslegitimação de todo o progresso social.”

Em termos puramente ideológicos, porém, o MAGA é basicamente o primo mais refinado dessas insurgências mais rudes e violentas. Alguém realmente acha que Trump quer acabar com os carros elétricos porque se importa tanto assim com o petróleo? Se fosse esse o caso, ele não teria transformado por um dia a entrada da Casa Branca em um showroom da Tesla. Não: a política energética do país agora é inteiramente movida por tribalismo e vingança. Trump eliminar bilhões de dólares em projetos de energia eólica com um simples traço de caneta não é diferente dos soldados de Taylor metralhando estações de água — um satisfatório “f*da-se” à intelligentsia, mesmo que isso faça o país retroceder por anos.

Levantes da ignorância sempre compartilham certas características: uma campanha de retaliação contra as classes educadas, o entrincheiramento étnico e a demonização do “outro”, a reescrita oficial da história estabelecida. (O Khmer Rouge de Pol Pot declarou famosamente o início de seu regime brutal como “Ano Zero” no Camboja, aspirando a enterrar a história moderna por completo.) Inevitavelmente, chega o momento em que a identidade nacional é substituída por uma única figura de culto.

Trump não poderia preencher melhor esses requisitos nem se fosse um daqueles testes de memória que ele vive dizendo ter passado com louvor. Processar uma campanha assustadora contra universidades, escritórios de advocacia, a imprensa e juízes. Confere. Assumir o controle das artes nacionais e higienizar as histórias oficiais. Confere. Difamar imigrantes como “lixo” e declarar que os Estados Unidos pertencem principalmente a cristãos brancos. Confere.

E então há as moedas Trump e os títulos Trump, o Kennedy Center Trump e o Instituto de Paz Donald J. Trump, a celebração do aniversário de Trump (em vez do de Martin Luther King Jr.) com entrada gratuita em parques nacionais, os enormes banners de um Trump carrancudo pendurados em prédios ministeriais (notavelmente semelhantes aos banners de Saddam Hussein que vi certa vez no Iraque baathista). Confere, confere e confere.

O lendário Hunter S. Thompson, ao cobrir a campanha de 1972 para esta revista, disse certa vez que Richard Nixon representava “aquele lado sombrio, venal e incuravelmente violento do caráter americano que todos os outros países do mundo aprenderam a temer e desprezar”. Se for assim, então o movimento de Trump representa outra coisa: aquele lado ressentido e movido pela fúria da humanidade que a maioria dos países hoje reconhece como inimigo do Iluminismo.

Mas aqui está a boa notícia: os Estados Unidos não são um país subdesenvolvido tentando se livrar de séculos de colonialismo. E, apesar do que alguns alarmistas querem fazer crer, as instituições cambaleantes ainda não entraram em colapso. Nos EUA, as pessoas ainda podem votar (na maior parte do tempo, pelo menos), razão pela qual a revolução radical de Trump quase certamente já atingiu seu auge. O Ano Zero em Washington trouxe exatamente o tipo de retaliação que Trump prometeu. O Ano Um parece ser outra história.

OUTRORA ERA UMA PIADA a forma como Trump previa vitória após vitória, até o ponto em que todos ficaríamos enjoados de tanto vencer. Durante a maior parte do ano passado, porém, parecia que ele estava realmente cumprindo a promessa.

“O retorno de Trump a Washington trouxe exatamente o tipo de retaliação que ele prometeu.”

Trump estava vencendo no Congresso, na Suprema Corte, com os escritórios de advocacia e os conglomerados de mídia que lhe pagaram o que equivalia a subornos explícitos. Era, de fato, enjoativo, e todo democrata com quem conversei parecia ter a mesma queixa perplexa: onde estava a indignação? Como tantos americanos puderam votar nisso?

A resposta é complicada. Eles votaram — mas também não.

Trump, como você talvez se lembre, era politicamente tóxico ainda em 2022. Se não estivesse enfrentando tanto a prisão quanto a ruína financeira como cidadão privado, não tenho certeza de que ele sequer teria tentado montar uma terceira campanha presidencial.

O que o ressuscitou, mais do que qualquer outra coisa, foi o fato de os democratas terem insistido em promover uma feroz revolução cultural própria. Depois de vencer a Presidência com a promessa de devolver algum tipo de normalidade, Joe Biden assistiu enquanto ativistas e acadêmicos de esquerda tratavam de demolir os pilares do liberalismo do século XX — ridicularizando a liberdade de expressão como ferramenta de opressores, obcecados por pronomes personalizados e decretos linguísticos tolos, falando em cortar verbas da polícia, fatiando o país em uma série de queixas baseadas em identidade.

Não é que a maioria dos eleitores brancos não conseguisse reconhecer problemas de injustiça racial, direitos trans ou policiamento fora de controle. O problema é que eles não queriam ser culpados por essas questões e rejeitavam soluções radicais. Os eleitores estavam preocupados com o custo de vida disparando, e os democratas pareciam sempre preocupados com outra coisa.

Esses eram os dois pilares do apelo de Trump para muitos independentes brancos, em especial — a ideia de que ele era o único sujeito entre eles e um regime de “verdade e reconciliação”, e de que ele realmente se concentraria em questões que afetavam os trabalhadores dos Estados Unidos. Toda a maluquice sobre negar eleições e promover retaliações parecia apenas Trump sendo Trump, o preço a pagar para colocar o país de volta aos trilhos.

Só que o que Trump e seu partido fizeram depois de vencer? Viraram-se e cometeram exatamente o mesmo erro: interpretaram mal o significado de uma vitória modesta e partiram para uma purga anti-intelectual, em vez de reformar de fato qualquer coisa. Em certo sentido, a insurgência cultural de Trump é a imagem sombria e distorcida do que veio antes. A sua versão de policiamento do pensamento mira cidadãos nascidos no exterior e cientistas de vacinas. Sua noção de queixa baseada em identidade gira em torno da suposta perseguição à América branca.

A revolta pode até ser eficaz, mas nunca foi popular. Segundo o Gallup, o índice de aprovação de Trump era de 47% quando ele tomou posse, em janeiro — claramente modesto para um presidente recém-eleito. A partir daí, a linha de tendência parece a pista de esqui de um iniciante. Em dezembro, Trump caiu para cerca de 36% de aprovação, o que, considerando seu apoio inabalável entre 25% ou 30% do eleitorado, provavelmente é o piso.

“Apesar de toda a polarização, continuamos sendo um país mais pragmático do que nossos partidos ou a mídia acreditam.”

Quando os eleitores finalmente tiveram a chance de se manifestar sobre o primeiro ano de Trump, durante as eleições fora de ciclo de novembro, os resultados foram impressionantes e inequívocos. Os republicanos não apenas perderam as disputas para governador em Nova Jersey e Virgínia, como também foram derrotados em cargos menores no Mississippi e na Geórgia. Nada indica que uma virada esteja próxima. Não é como se Trump estivesse ficando mais popular à medida que sua política externa imperialista começa a se parecer com um jogo adolescente de Risk. (“Você fica com a Groenlândia; eu ataco Kamchatka.”) Também não é como se ele fosse cochilar menos em público à medida que os meses passam.

Se os republicanos forem duramente derrotados nas eleições de meio de mandato, Trump poderá continuar emitindo decretos e intimidando promotores, mas seu programa radical já terá fracassado. Qualquer especulação sobre um terceiro mandato ilegal será matéria-prima para a sátira. Os banners serão retirados discretamente. A conversa que começará imediatamente após novembro — sobre a próxima eleição — deixará Trump onde ele menos gosta de estar: à margem.

É verdade que não há garantia disso; a esta altura, quatro anos atrás, Biden era pouco mais popular que Trump, e seu partido conseguiu superar as expectativas nas eleições de meio de mandato. O fato do país estar novamente em um clima eleitoral semelhante, porém, com a agenda social ambiciosa do partido no poder colidindo de frente com a realidade econômica no cotidiano, deveria nos dizer algo.

Na última década, pelo menos, os EUA ficaram presos a um ciclo de agendas culturais em disputa, sacudidos por ideias baseadas em identidade para refazer a ordem social. E eis o que sabemos: os americanos estão simplesmente exaustos disso. Apesar de toda a polarização de que todos no meio adoram falar, apesar dos tuítes virais e da sinalização de virtude, continua sendo um país mais pragmático do que os partidos ou a mídia de lá parecem acreditar.

Os Estados Unidos passarão o próximo ano celebrando sua própria remodelação radical e violenta da sociedade, ocorrida há 250 anos. O que os eleitores continuam tentando nos dizer é que não há muito mercado para uma continuação.

Este texto escrito por Matt Bai foi publicado originalmente no site da Rolling Stone em 16 de janeiro de 2026. Clique aqui para ler na íntegra.

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