‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ pode salvar a franquia de ‘Game of Thrones’
Este não é o GoT do seu avô — e graças aos deuses por isso
David Fear
Se você ligou na HBO na noite de 18 de janeiro, ou acessou a HBO Max logo depois, foi recebido pela imagem de um homem cavando uma cova sob um céu escuro e cinzento. Um trio de cavalos relincha inquieto enquanto uma tempestade desaba sobre eles. Após baixar um corpo à terra, a figura corpulenta com a pá faz um elogio fúnebre. Ele é um escudeiro chamado Dunk e está enterrando seu antigo mestre. Esse cavaleiro idoso nem sempre foi o mais gentil — ou o mais sóbrio — dos mentores. Mas, como praticamente criou o órfão Dunk desde a infância, o jovem ainda lamenta profundamente sua morte.
No dia seguinte, Dunk promete seguir em frente em busca de aventura. O rapaz forte e alto se imagina um “Sor”, título ostentado pelos ilustres cavaleiros do reino; as menções casuais a Porto Real e Lannisporto confirmam em qual universo você está. Ele ouviu histórias sobre um torneio na vizinha Ashford, onde homens de coragem ilimitada e habilidade com a espada podem fazer seu nome. Um tema reconhecível — DUN du-du-du-duh Dun, DUH-du-da-du-daaa-DUN — começa a tocar. Dunk promete deixar seu falecido mestre orgulhoso. Faz uma pose heroica. A música cresce, fica cada vez mais alta…
E então a trilha para abruptamente e cortamos bruscamente para Dunk defecando atrás de uma árvore. Não é algo discreto. É uma quantidade impressionante — e bastante violenta — de diarreia projetada. Algo digno de um gêiser escatológico. Bem-vindo ao novo spin-off de Game of Thrones.
As origens de O Cavaleiro dos Sete Reinos remontam quase ao início da série literária As Crônicas de Gelo e Fogo, que deu à HBO seu maior fenômeno televisivo até hoje. Mas, a menos que você conhecesse os contos As Aventuras de Dunk e Egg, de George R. R. Martin — a primeira delas, O Cavaleiro Andante (1998), que serve de base para esta prequela de seis episódios — ou soubesse como esse projeto paralelo se conecta às tramas maiores de GoT, seria compreensível assistir à minissérie sem perceber que ela tem ligação com o colosso da TV a cabo premium. A campanha de marketing foi modesta, especialmente se comparada à de sua série-irmã, A Casa do Dragão (já falamos dela). O único dragão que aparece é de madeira e do equivalente westerosi de papel-machê, manipulado por marionetistas num espetáculo improvisado para bêbados da madrugada. Ele até cospe fogo, graças a uma magia teatral primitiva — mas ainda assim.
E o fato de Cavaleiro subverter imediatamente qualquer sensação de grandiosidade típica de Game of Thrones ao interromper sua declaração de intenções com uma piada de cocô diz tudo sobre a série. O espetáculo épico associado a D.B. Weiss e David Benioff está visivelmente ausente — por escolha. Em uma reportagem recente da Hollywood Reporter, Martin confessou que parte do apelo para os executivos ao adaptar essas histórias era o custo reduzido. Grandes batalhas e momentos no estilo “Casamento Vermelho” custam caro, e embora as novelas eventualmente tragam algum som e fúria, elas devem mais à irreverência de Chaucer em Os Contos da Cantuária do que à Guerra das Rosas. A série não está interessada em expandir capítulos de uma saga. Ela cria uma comédia de dupla excêntrica, às vezes ruidosa, nas margens da saga.
Isso não significa que a dupla não tenha importância na história maior. A trama se passa cerca de um século antes dos eventos da série original, e quando Dunk (vivido por Peter Claffey) inventa na hora seu título — Sor Duncan, o Alto — talvez você se lembre de ter ouvido esse nome algumas vezes em Game of Thrones. Ele acabará se tornando um nome importante na Guarda Real. Quanto a Egg (Dexter Sol Ansell), o “menino do estábulo” careca que Dunk conhece ao chegar a Ashford e que se torna seu escudeiro? Vale notar que seu apelido não vem da cabeça raspada, mas de seu verdadeiro nome — que soará extremamente familiar quando for revelado, na metade da temporada.
Mas, no fundo, O Cavaleiro dos Sete Reinos é um estudo de personagens desalinhado e afetuoso, mais interessado em acompanhar essa improvável dupla do que em jogá-los de batalha em batalha. É justamente isso que o torna mais satisfatório do que seu spin-off irmão. A HBO considerou várias ideias pós-Thrones, inclusive uma sobre novas aventuras de Jon Snow. A primeira a sair do papel foi A Casa do Dragão, ambientada 200 anos antes e que replicava a mistura de dragões, efeitos visuais grandiosos e intrigas palacianas repletas de sexo e violência. O elenco combinava veteranos (Paddy Considine, Rhys Ifans), queridinhos do público (Matt Smith, Olivia Cooke) e novas estrelas (Emma D’Arcy, Milly Alcock). Mas a série parecia ter aprendido as lições erradas da temporada final de Thrones — e amplificado tudo. Havia a sensação de que bastava despejar dinheiro, mitologia obscura e dragões na tela que o público consumiria. O drama mais interessante estava fora da ficção.
Casa foi renovada para uma terceira temporada, que chega em breve, o que poderia fazer O Cavaleiro dos Sete Reinos parecer apenas um tapa-buraco de propriedade intelectual. Mas o que o showrunner Ira Parker fez foi praticamente tornar a série-irmã irrelevante. Como Andor, o aclamado thriller político do universo Star Wars, essa abordagem mais contida prova que não é preciso repetir a mesma fórmula nem reformar o “parquinho” com mais fogos de artifício. Basta lembrar o público da riqueza desse universo e contar uma história que equilibre fantasia e imaginação com algo emocionalmente verdadeiro. Dunk e Egg seguem uma jornada clássica de herói, mas a forma como a série os conduz rumo a seus destinos compartilhados parece única. (A química entre Claffey e Ansell só reforça a sensação de que essa dupla improvável nasceu para tropeçar junta por esse caminho pedregoso.) A série é frequentemente engraçada, boba, empolgante, melancólica, irônica — e, claro, não resiste a uma boa piada escatológica.
Cada episódio é melhor que o anterior. E, considerando o que o quarto capítulo (exibido na última sexta-feira) prepara para a segunda metade da temporada, não há momento melhor para alcançá-la. Os Targaryen — o clã loiro que amaldiçoaria Westeros com reis loucos e abençoaria o reino com a Mãe dos Dragões — eventualmente aparecem em Ashford. Dunk se mete em problemas com a realeza, o que exige um antigo ritual conhecido como Julgamento dos Sete. Tendo visto os dois episódios finais, podemos confirmar que a recompensa é enorme, mesmo mantendo a escala contida. Ao fim da primeira temporada (já renovada), fica a sensação de que a série apenas arranhou a superfície do que pode explorar nesses personagens e nessa parte pouco explorada da história do universo. Melhor ainda: ela reacende o entusiasmo por voltar ao mundo de Game of Thrones de um jeito que o espetáculo ruidoso da outra tentativa de espremer a franquia não conseguiu. O Cavaleiro dos Sete Reinos não é o GoT do seu avô — e graças aos deuses por isso. Pode ter salvado a franquia de seu próprio inchaço.