ENTREVISTA RS

The Pitt é ‘o drama hospitalar mais preciso que você já viu’, diz Noah Wyle

O produtor executivo e ator protagonista da série vencedora do Emmy revela tudo que podemos esperar para a segunda temporada

Gabriela Nangino (@gabinangino)

Noah Wyle recebe o prêmio de Melhor Ator em Série de Drama por 'The Pitt' no 31º Critics Choice Awards
Noah Wyle recebe o prêmio de Melhor Ator em Série de Drama por 'The Pitt' no 31º Critics Choice Awards (Foto: Kevin Winter/Getty Images)

Uma das produções de TV mais aclamadas pela crítica em 2025, The Pitt é uma série médica nada convencional. Cada episódio acompanha uma hora de trabalho em tempo real durante um plantão no hospital Pittsburgh Trauma Medical Center, na Pensilvânia.

Criada por R. Scott Gemmill, produtor de Plantão Médico, The Pitt constrói uma atmosfera caótica — cada episódio termina em um cliffhanger. Nas premiações de 2025/26, o sucesso foi absoluto: a série levou os troféus de Melhor Série de Drama, Melhor Ator em Série de Drama (Noah Wyle) e Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama (Katherine LaNasa) no Emmy e no Critics Choice Awards.

Enquanto o espectador acompanha os casos complexos do hospital, ele também conhece aos poucos a vida pessoal dos personagens e entende como o trabalho os afeta. No clímax da primeira temporada, um tiroteio em massa em um festival de música lota o pronto-socorro, forçando a equipe a lidar com um fluxo avassalador de vítimas e influenciando diretamente os acontecimentos dos episódios finais.

No elenco, ainda estrelam nomes como Fiona Dourif (The Blacklist), Taylor Dearden (For All Mankind), Isa Briones (Goosebumps), Gerran Howell (Emerald City), Shabana Azeez (Vinagre de Maçã), Patrick Ball (Law & Order), Supriya Ganesh (Grown-ish) e Katherine LaNasa (Idas e Vindas do Amor).

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o produtor executivo Noah Wyle — que também interpreta o protagonista, o Dr. Michael ‘Robby’ Robinavitch — nos contou o que podemos aguardar para os próximos episódios. Confira, a seguir, todos os detalhes da nova temporada de The Pitt, que estreia na HBO Max nesta quinta, 8!

Descreva o cenário da segunda temporada de The Pitt.
A segunda temporada se passa durante o feriado de 4 de julho [Independência dos EUA], e já se passaram 10 meses desde o evento com múltiplas vítimas em que nossos heróis estiveram envolvidos na última temporada. Esses 10 meses foram significativos de diversas maneiras para nossos personagens. Alguns passaram esse tempo em reabilitação e estão voltando para o trabalho. Outros permaneceram na ativa durante todo o período, adquirindo mais experiência e confiança. Alguns buscaram ajuda psicológica e começaram a processar o trauma. E alguns negam completamente a necessidade desse tipo de ajuda, o que os afetou de uma forma diferente. Então, se a primeira temporada dizia “o médico é o paciente”, a segunda diz “médicos não são os melhores pacientes”.

Como você e o co-criador R. Scott Gemmill decidiram por um intervalo de 10 meses entre as temporadas, além de ambientá-las no fim de semana do 4 de julho?
Bem, tudo começou com uma conversa que John Wells [produtor executivo e diretor] teve conosco, na qual ele nos aliviou da pressão de sentirmos que precisávamos nos superar. Ele nos incumbiu da missão de tentar não ser sensacionalistas; que não se tratava de encontrar outro evento com múltiplas vítimas para construir uma grande temporada, mas sim de revisitar essas pessoas e ver como estão suas vidas depois de um tempo. Pensamos que o impacto acumulado de mais um fim de semana agitado já seria dramático o suficiente. Se for esse o caso, se a segunda temporada se mostrar satisfatória nesse aspecto, sem aquela estrutura rígida de uma batida constante que culmina no colapso do protagonista ou em uma grande crise, então esta série poderia durar muito tempo, apenas com o drama humano que você encontraria em uma sala de emergência. Então, de muitas maneiras, nosso lema era: não tente fazer maior, melhor, mais rápido, mais engraçado… apenas faça de novo.

Como seu personagem, Robby, mudou ao longo desses 10 meses?
Bem, logo de cara notamos algo diferente — ele não está indo a pé para o trabalho. Ele está indo de moto para o trabalho sem capacete… e depois, não muito tempo depois, ele diz para alguém que usa capacete, então sabemos desde o início que ele está escondendo algo. Não temos certeza do que seja — ele está saindo de um período sabático, e este é seu último turno antes de tirar três meses de folga. Ele planejou uma viagem de carro que parece utópica, romântica e literária, mas, conforme a temporada avança, suas motivações para ir e o que essa viagem representa são questionadas. A questão é se isso é mais uma fuga do que ele precisa enfrentar ou se é uma forma válida de autocuidado.

Como você equilibra essa representação sutil de um personagem em evolução com as demandas frenéticas da trama?
Da mesma forma que um profissional que concilia três filhos, problemas conjugais e contas precisa ir trabalhar e compartimentar tudo isso, removendo isso da sua realidade enquanto atende pessoas que estão vivendo o pior dia de suas vidas quatro vezes por hora. E tenta colocar toda a sua experiência médica à disposição, em um instante. Esses são atletas de alto desempenho que estamos retratando. São pessoas que correm em direção ao fogo, aos tiros, aos ferimentos, porque têm a confiança de que podem realmente ajudar com base em sua experiência. O que eu acho notável nessa mentalidade é o nível de talento extremo. É como se seu time estivesse perdendo por dois pontos, o tempo estivesse se esgotando… nem todo mundo quer a bola nessa situação. Apenas um punhado de pessoas acredita em si mesmas a ponto de exigir a bola. Todo médico de emergência que eu já conheci exige a bola naquele momento. E eles fazem isso com todos os seus problemas pessoais em algum lugar da psique, com os filhos, as contas, os problemas conjugais, as dificuldades de adaptação. Se você levar essa carreira para mais de 30 anos, ela vai chegar a um impasse, a menos que você encontre uma maneira de se desvencilhar dela, de encontrar um equilíbrio.

Robby não é o melhor paciente. Ele é um médico excelente, mas o foco de um médico é voltado para a sua carreira e não para o seu interior. Quando começa a se voltar para o interior… algumas pessoas não reagem bem a isso. O que foi interessante de interpretar foi a vida interior muito privada de um homem que não pode mostrá-la publicamente por causa da imagem que precisa projetar para sua equipe, seus colegas, seus pacientes e para si mesmo, a fim de continuar avançando. Tudo isso começa a ruir conforme a temporada avança.

Existem muitos dramas médicos por aí. Por que você acha que The Pitt se destacou?
Bem, soa um pouco clichê dizer que este é o drama hospitalar mais preciso que você já viu, mas há algo na fidelidade à realidade e na eliminação do artifício que geralmente acompanha esse tipo de experiência. Seja a música, o design de som ou o fato de trabalharmos com uma equipe extremamente enxuta.

Temos dois operadores de câmera e um operador de boom, e todo o resto é o ambiente. Então, é uma experiência muito imersiva quando filmamos. Acho que isso se traduz em uma experiência extremamente imersiva para quem assiste. É mais análogo a estar no banco de trás de uma viatura policial em uma ronda ou como jornalista integrado a uma unidade de combate em uma guerra. Há um certo risco em estar ali, e nem sempre será agradável. Você pode virar a cabeça, mas não pode realmente ir embora. E é um teste de resistência, se você consegue esperar e se manter de pé pelo tempo que esses personagens se mantiverem de pé. Uso meus próprios filhos como uma espécie de teste decisivo para isso — a autenticidade faz você se envolver de uma forma que te faz largar o celular, porque você é convidado a não ser um participante passivo. Você faz parte disso agora. Você está no Pitt com esses outros personagens e não tem o luxo de olhar tudo de uma perspectiva aérea.

O que você aprendeu sobre a forma como fez a primeira temporada que permitiu torná-la mais autêntica e imersiva na segunda?
Acho que a confiança no estilo e a validação do conceito nos dão a oportunidade de voltar atrás e dizer: “OK, sabe, não estávamos errados. Estávamos certos. Fica bom quando fazemos isso.” Por exemplo, normalmente, um ator recebe uma marca no chão em forma de T, duas fitas adesivas, onde ele fica em pé, o que permite que ele esteja em foco, independentemente da distância da câmera. Nós não temos nenhuma marca no chão. A câmera tem que nos seguir e nos encontrar, em vez de nós a encontrarmos. Então, é uma forma completamente diferente de trabalhar, com um estilo muito mais jornalístico. Mas isso dá aos atores muito mais liberdade para não se preocuparem com atuação, luz ou enquadramento. Estamos considerando apenas o procedimento. E, como resultado, você obtém esse foco extra na atuação que eu acho fascinante.

Antes da primeira temporada de The Pitt, você disse que esperava que isso incentivasse mais pessoas a ingressarem na profissão. Funcionou?
Eu estava dizendo que parte da intenção era tentar aumentar novamente o número de pessoas nessas funções, porque vimos um êxodo enorme de profissionais da emergência após a COVID. Aliás, trabalhar na emergência, que por um tempo foi a especialidade mais atraente, tornou-se praticamente um suicídio durante a pandemia. Então, tivemos escassez de enfermeiros, falta de pessoal, funcionários veteranos saindo… e a situação não melhorou. Esses empregos não receberam mais dinheiro e suprimentos repentinamente após a COVID. Continuaram precários e sobrecarregados. Agora, quanto mais hospitais rurais fecham, mais pessoas perdem o plano de saúde, mais elas lotam as emergências e sobrecarregam o sistema, o que aumenta a pressão sobre os profissionais. Então, acho que estamos sendo um pouco eficazes em tornar a área atraente novamente. Ouvi dizer, pelo menos de forma anedótica, que os filhos de uma pessoa de repente se interessaram por medicina ou enfermagem. Espero que seja verdade. Certamente precisaremos desses profissionais nessas áreas se, Deus nos livre, tivermos outra pandemia.

Quão exaustivo é esse tipo de atuação para o elenco?
Quando você começa o turno, são 7 horas da manhã e é o seu primeiro episódio. Tudo parece muito novo. Quando você chega aos episódios 10, 11, 12, 13, precisa começar a manhã às 6h30, depois de já ter trabalhado 11 horas seguidas. E, de certa forma, isso fica mais fácil, porque quanto mais cansado você fica ao longo da temporada, mais você consegue interpretar o seu nível de fadiga. Mas todos nós, bem no início da temporada, fazíamos exercícios diferentes. Eu desafiei todos os atores a passarem um dia inteiro em pé, 15 horas. Quando você fica em pé, quando você sente fome? Quando você precisa ir ao banheiro? É só fazer anotações durante as 15 horas de aula e depois inserir essas anotações nos episódios correspondentes. Isso vai te dar o seu padrão de comportamento físico para a temporada inteira. Acho que todo mundo já fez alguma variação disso.

Como você avalia a repercussão internacional de The Pitt?
Acho tão impressionante quanto o sucesso internacional de Plantão Médico. Sabe, o fato de a história de um pequeno pronto-socorro em Chicago, ou em Pittsburgh, neste caso, ter repercutido globalmente, é incrível. Acho que isso demonstra o humanismo presente na série. As pessoas, onde quer que estejam, querem acreditar que, se algo acontecesse com elas e precisassem ir ao hospital, encontrariam profissionais dedicados, inteligentes, compassivos e realmente competentes. E há um certo conforto em ver isso se concretizar na série.

Para as pessoas que fazem isso para ganhar a vida, é bom para elas se verem retratadas como heróis que também têm falhas e precisam equilibrar muitas responsabilidades enquanto cuidam de nós, que estamos fragilizados. Então, de certa forma, acho que é como um “pornô para especialistas”. As pessoas assistem para ver pessoas sendo realmente boas e competentes em seus trabalhos. Por outro lado, é um ambiente com o qual nos identificamos muito, porque todos nós, em algum momento, vamos precisar de um. Existe uma curiosidade inerente a isso. Diferentemente de uma delegacia de polícia ou do interior da Casa Branca, uma sala de emergência é um ambiente com o qual todos podemos nos identificar. Então, há muito material para explorar, sem contar toda a experiência humana universal: nascimento, morte, doença… está tudo lá.

Quando estreia a segunda temporada de The Pitt?

A primeira temporada de The Pitt foi ao ar entre 9 de janeiro e 10 de abril de 2025. Nesta quinta, 8, quase exatamente um ano depois, estreia a aguardada segunda temporada da série. Novos episódios serão lançados semanalmente na HBO Max, a partir das 23h (horário de Brasília).

Assista ao trailer abaixo:

+++ LEIA MAIS: ‘The Pitt’ é ‘intencionalmente diferente’ de ‘Plantão Médico’, diz Noah Wyle

Jornalista em formação pela Universidade de São Paulo, Gabriela é mineira e apaixonada por arte e cultura. Ela também já foi dançarina e seu principal hobbie é conhecer todos os cinemas de rua de SP. Foi estagiária no Jornal da USP e, na Rolling Stone Brasil, fala sobre música, filmes e séries.
TAGS: critics choice awards, emmy, hbo max, Katherine LaNasa, noah wyle, R. Scott Gemmill, The Pitt