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Plebe Rude celebra 40 anos de punk rock e resistência: 'Artista tem que ter postura' [ENTREVISTA]

Philippe Seabra fala sobre quatro décadas da Plebe Rude, início de carreira em Brasília e disco duplo Evolução,Vol.1 e Evolução, Vol.2

Itaici Brunetti Publicado em 31/07/2021, às 11h00

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Plebe Rude (Foto: Caru Leão)
Plebe Rude (Foto: Caru Leão)

Há bandas clássicas do punk rock mundial que não tiveram longevidade. Os Ramones, por exemplo, chegaram a ter 22 anos de carreira. O The Clashdurou uma década, enquanto os Sex Pistols acabaram em 3 anos. Ultrapassando o tempo de todos esses nomes citados, a brasileira Plebe Rude, uma das pioneiras no segmento em Brasília, acaba de completar 40 anos em julho de 2021.  

"A trajetória da Plebe Rude é muito bonita. Além de ser a história da minha vida, é também uma celebração da minha amizade com o André X [baixista da banda]", diz o vocalista e guitarrista Philippe Seabra em entrevista à Rolling Stone Brasil. "Foi a coleção de discos do André, que ele tinha acabado de trazer da Inglaterra em 1979, que inspirou todo mundo do rock de Brasília," relembra ele. 

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Formada em meados de 1981, a Plebe Rude é considerada uma das primeiras bandas de punk rock de Brasília, ao lado do Aborto Elétrico, e moldou a musicalidade roqueira da capital do país com letras contestadoras. "Em Brasília era tudo cinza para a gente, porque apanhávamos da polícia, apanhávamos dos playboys, não tinha espaço para tocar e tínhamos que mandar músicas para a censura. Era meio difícil," conta Seabra.

"Quando a Plebe conseguiu emplacar uma música que nem 'Proteção', pela letra ácida contra a ditadura e que virou hit nacional, foi um bom sinal de que a abertura democrática estava em andamento mesmo," celebra o cantor sobre um dos momentos que mais se orgulha da banda. "Não consigo entender como a Plebe tocou nas rádios, e toca até hoje, porque não é uma banda comercial. É uma proposta diferente," completa. 

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Sociopolítica com temática forte bem pensada, não panfletária, não militante e que fala de política com "p" minúsculo, segundo define Seabra, a Plebe Rudechegou a ser boicotada em vários meios devido ao posicionamento das letras. "A banda sofreu muito por causa disso. Tem muitos grandes festivais que não chamam a gente para tocar, mas a gente não consegue fazer algo que fuja da nossa verdade, que a gente não escreveu ou que não acreditamos," pontua ele. 

"A Plebe nunca falou de amor nas músicas, e obviamente isso deve ter prejudicado, pois a longevidade dessas bandas, como Legião Urbana, se deve um pouco a isso; de poder dialogar com a rádio e com o momento", explica o frontman. "A Plebe é a banda menos comercial do mainstream brasileiro. Isso é um fato. Então, é bacana a gente estar 40 anos depois excursionando ainda e fazendo o nosso negócio, e chegando com projetos inusitados."

Projetos inusitados esses que têm nomes: Evolução, Vol. I e Evolução, Vol. II, álbum duplo lançado separadamente e que soma 28 músicas juntos. A primeira parte ganhou vida em 2019 e a segunda será lançada nos próximos meses. O single "68", de Evolução Vol.II, foi divulgado no início de julho. 

"O ano de 1968 terminou de forma tão simbólica e linda para o Planeta Terra que foi justamente em dezembro que o voo espacial Apollo 8 circulou a lua pela 1ª vez," enfatiza Seabra sobre a canção que exalta os acontecimentos daquele ano. "1968 foi de muitas lutas; desde os protestos contra a guerra do Vietnã, dos direitos civis e a primavera de Praga. E teve o fato mais marcante: o assassinato de Martin Luther King."

Confira o lyric video de "68":

Geração Coca-Cola? 

Autor de hinos contestadores como "Proteção" e "Até Quando Esperar", Philippe Seabra comenta a não postura de artistas de sua geração - e da geração atual - perante as medidas do atual governo federal. "A minha geração perdeu completamente o posicionamento, e acho isso uma vergonha," afirma. 

"A gente não vê postura da minha geração. Da geração da década de 1990, talvez alguém aqui e acolá. A gente não está vendo postura nas músicas porque os artistas ainda querem tocar nas rádios e dar uma sobrevida nas carreiras," enfatiza Seabra

O vocalista prossegue: "Não adianta o artista passar 30 anos escrevendo canções bobinhas para tocar nas rádios, para agradar gravadoras e agora querer ser levado a sério usando a ferramenta da internet. Artista tem que ter postura, tem que se manifestar através da arte. Então, é por isso que não estamos vendo nada."

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Nascido em Washington, EUA, e vivido em Brasília, Seabra explica: "Na minha época tocava Plebe, Renato Russo e Arnaldo Antunes nas rádios. Hoje não toca nem isso. Essa geração [atual] vai se inspirar em quê? Em filmes blockbusters cheios de explosões? Em seriados bobos? Vai se inspirar em quê? Leitura, então, nem se fala."

"Estamos em um momento muito perigoso, pois o populismo se alimenta dessa falta de discernimento. Então, se o Brasil está nessa situação, não é à toa," afirma o músico. 

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Ao finalizar, Seabra ressalta a importância da Plebe Rude no rock nacional e em sua própria jornada: "A grande mensagem da longevidade da Plebe é que nunca foi uma banda comercial e nunca abaixou a cabeça para o mercado, além do legado da obra deixado e da minha amizade com o André. Isso tudo tem que ser comemorado."


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