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Thiago Mendonça conta como foi interpretar Renato Russo em filme

Somos Tão Jovens estreia nesta sexta, 3 de maio

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 02/05/2013, às 18h48 - Atualizado às 20h36

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Somos Tão Jovens - Pedro Ribeiro/Divulgação
Somos Tão Jovens - Pedro Ribeiro/Divulgação

Por que você escolheu a profissão de ator?

Quando criança a minha família me comparava com o ator Lauro Corona pela cor dos olhos, pelo porte. Eu passei a prestar atenção e decidi que era isso que eu queria fazer. Hoje eu credito a Lauro o fato de ter escolhido essa profissão. O Lauro foi um dos maiores galãs da televisão que eu cheguei a ver, e sempre quis ser igual a ele, pena que tenha nos deixado tão cedo.

Quando foi que você começou a trabalhar profissionalmente?

Comecei com 17 anos (estou com 32 agora) no Teatro Tablado. Há 8 anos eu faço parte de uma companhia de teatro, com um trabalho continuado de pesquisa, e o nosso objeto de pesquisa é justamente essa relação de proximidade entre o espectador e o ator. Nas nossas peças geralmente a plateia fica muito próxima do elenco, sem essa de palco italiano. Fazemos a peça diretamente para aquela pessoa que está nos vendo de perto, olho no olho. Na verdade, é um canal de troca que se estabelece. Fora isso, faço outros trabalhos que vão pintando, ora TV, ora cinema.

Como você encara o teatro, o cinema e a TV?

Sendo do Rio, a TV é uma realidade sempre muito próxima, mas também distante. É muito enigmático, eu não consigo saber muito bem como funciona. O teatro é uma maquinaria que a gente se joga e faz acontecer. É artesanal. Eu posso unir a minha força com a sua, daí convido um amigo que faz som... Enfim, é mais humano. A gente consegue uma autonomia muito maior. Televisão e cinema são coisas muito maiores, que dependem de convites e oportunidades que surgem – apesar de que eu nunca trabalhei por convite. Todos os papéis que eu consegui conquistar foram com testes. A minha aparição significativa em TV se deu em 2007, depois de 10, 11 anos de teatro.

Crítica: Somos Tão Jovens expõe a vida de Renato Russo antes da criação do mito.

E com o cinema, mais especificamente?

Em longas-metragens, a minha estreia foi em 2 Filhos de Francisco, no papel do Luciano. E em Tropa de Elite eu fiz uma cena micro, mas foi tão forte que acabou sendo uma participação significativa, que as pessoas guardaram na memória, apesar de ser uma aparição rápida. É o primeiro surto do personagem Capitão Nascimento, no qual ele perde o controle de si. Ele esfrega o meu rosto no cadáver do traficante. É a cena onde se levanta o discurso de que o culpado é o usuário de droga. Tem toda essa polêmica: “É você que financia essa merda!”. E tenho também alguns curtas-metragens no currículo.

E como foi a sua escalação para viver Renato Russo em Somos Tão Jovens? Teve que concorrer com muita gente?

As coisas acontecem como têm de ser. O [diretor Antonio Carlos da] Fontoura tinha suas incertezas, eu também tinha as minhas, mas acabou acontecendo desse jeito, sem concorrer com ninguém. Agora a gente para pra pensar, tanto ele quanto eu, e vemos que não poderia ter sido outra pessoa senão eu. Aconteceu muito magicamente, eu diria. A Fernanda, esposa do Dado Villa-Lobos, estava assistindo televisão e viu uma cena minha. Ela ligou para o Luís Fernando Borges, o corroteirista do filme, e disse: ‘Ligue a TV que você vai ver o Renato do seu roteiro’. O Luís Fernando era um amigo muito próximo do Renato, conviveu muito com ele no período da maturidade. Era o cara com quem Renato passava horas ao telefone conversando. E o Fernando conseguiu ver em mim algumas semelhanças com o Renato que ele conheceu. Daí começamos as conversas, muitos cafés com o Fontoura. Estou falando de 2007, 2008 [o filme começou a ser rodado em 2011]. Em todo esse período foram muitas conversas pra gente ir se ajustando e ganhando a confiança um do outro.

E, enquanto isso, você ficava pensando em como fazer o Renato?

Eu liguei meu radar pra tudo que dizia respeito ao Renato, mas sem mergulhar a fundo. Fiquei antenado, de uma forma ainda muito livre, mas com essa percepção ativa, aguçada. Uma pesquisa de leve nos vídeos. Eu fui me aproximando aos poucos. Viajei pra Londres nesse meio tempo. O processo foi muito natural, até que no final de 2010, início de 2011, foi dada a largada do filme. Aí fiquei uns três meses com o Carlos Trilha, mergulhado nesse universo musical do Renato, aprendendo a tocar violão e a cantar, tendo diálogos com amigos que foram próximos dele, me atentando para o que ele gostava de literatura, o gosto musical dele. Conheci o punk rock inglês, as bandas psicodélicas da Califórnia dos anos 70. Ouvi muito Jerry Adriani, fui resgatar minha memória de Elvis Presley. O grave do Renato nada mais era do que o grave do Elvis, do Jerry Adriani, então destes ícones todos eu fui me alimentando.

E como foi a sua preparação?

Esses três meses de preparação foram de mergulho no universo do Renato e eu não me distanciei dele nenhum pouco. Depois disso tudo, esses dias eu estava editando alguns vídeos de bastidores e me deu uma vontade, peguei o violão e pensei ‘quem sabe não é como andar de bicicleta?’. A gente vai perdendo as manhas, a mão vai endurecendo, mas eu me lembro de tudo, até porque são três acordes, não estamos falando de nenhuma sinfonia, é rock and roll. O Luís Fernando Borges foi fundamental nesse processo, tanto no aspecto humano de relatar fatos, quanto nas referências musicais. Ele tem um acervo de imagens incríveis, e me deu umas imagens do Renato cantando no Perdidos na Noite. Ele novinho ainda, uma energia, uma alegria de estar ali. Lá tinha o Renato cantando “Que País é Esse?”, “Ainda é Cedo”. Eu assisti a isso tudo com um olhar muito atento no gestual para compor a postura no palco – mas sabendo também que esse Renato que eu estava observando seria o Renato do final do filme, porque o filme trata justamente disso, da formação desse cara. Então, no início já tem apontado esse Renato que nós é familiar, mas ainda é tipo um patinho feio que vai virar o cisne lá no final.

Depois dessa experiência você pretende continuar cantando?

Eu sou ator e sempre que a minha ferramenta vocal for necessária para algum trabalho eu vou usar, mas a minha onda é atuar mesmo. Na verdade, o processo dessa descoberta musical com o Trilha me emprestou muita coragem, porque antes eu até poderia ter esse timbre que rendesse uma afinação, mas eu não tinha essa consciência e muito menos tinha a coragem pra cantar em público. Eu acho que esse lance de cantar é um ato de coragem. A pessoa chega ali, uma multidão, e se expõe. É muita coragem. Essa autoconfiança eu não tinha, mas o filme me emprestou isso e hoje em dia eu tenho muito mais segurança de cantar caso seja necessário. Mas eu não saio por aí cantando e nem é minha pretensão ser cantor.

A relação de amizade que o filme passa entre o seu personagem e da Ana (Laila Zaid) é um muito forte. Na vida real é assim também ou é uma coisa que aconteceu só no filme?

A gente não se conhecia. Essa Ana Claudia já teve vários nomes, alguns rostos, até se chegar na Laila. A Laila foi um achado, ela é aquela menina que no filme tem um brilho próprio. Quando ela entra em cena, ela ilumina. Desde que chegou, ela se tornou uma grande parceira, uma parceira de tudo. Eu fui pra Brasília e fiquei distanciado da minha vida no Rio durante muito tempo, três meses, no mínimo, mergulhado nisso – sem me aproximar das minhas coisas, do meu bicho de estimação, da minha casa. Então, eu fui me apegando ao que tinha, e brotou uma amizade com a Laila no decorrer do filme. Acho que aquela energia que a gente emprestou para as cenas acabou migrando para as nossas vidas.

E o que significa para você ter vivido Renato Russo?

Esse projeto é uma coisa muito especial. O Renato era um cara excepcional. Não é à toa que mobiliza um monte de gente, pela qualidade da poesia que ele escrevia, pelo cara que ele era, pela geração que ele representava. E sempre tivemos a consciência de que esse projeto era muito especial. A gente percebe que ali tem uma cumplicidade, e o Bruno Torres [que interpreta Fê Lemos no filme] foi fundamental, foi um parceiro. Na verdade, ele foi o primeiro músico que chegou no filme depois de mim. E daí a gente montou a banda [para os ensaios].

Depois de ter feito o Somos Tão Jovens, qual é a percepção que hoje você tem do Renato Russo?

Na época do Renato eu era criança e ele falava para uma geração acima da minha. Meu irmão curtia e entendia as letras do Legião, eu era ainda muito novo. Não tenho essa memória, mas saber que esse filme é emocionante me deixou muito orgulhoso do trabalho. O Renato tinha rompantes, era gênio, às vezes ele brigava com as pessoas do nada, soltava umas grosserias, ou era estúpido com alguém. Daí ia pra casa, ficava remoendo aquilo e no dia seguinte não tocava no assunto, mas chegava com uma rosa branca. Era como se fosse um pedido de desculpas. Essa rosa branca a gente colocou lá na cena pendurada no pedestal do microfone, e ficou muito bom.

E qual foi a sensação de assistir ao filme montado?

Foi emocionante, porque uma coisa é você viver de dentro. Estamos muito empolgados e eu quero assistir com a galera toda reunida, porque é um filme de turma, da turma do rock lá de Brasília na década de 80. A gente fez esse filme em turma e o maior prazer vai ser quando a gente assistir junto, pra gente se zoar, se sacanear, pra gente ver o quão privilegiado é por ter feito esse filme. Mais do que isso, eu quero tocar de novo em algumas dessas pré-estreias, em Brasília ou em São Paulo.