Por que ‘Linger’, do Cranberries, está ‘grudando’ tanto assim agora
O clássico de 1993 da banda irlandesa está em todo lugar neste momento, de Love Story a um álbum recente de Fetty Wap. O que existe nesse romantismo exuberante que fala com a gente?
Rob Sheffield
É oficial: nunca antes tanta gente se esforçou tanto para deixar “Linger” no ar. O mundo anda com um caso agudo de febre Cranberries, mas especialmente por causa do clássico de 1993, “Linger”. A banda irlandesa invadiu o Top 10 dos EUA com sua balada pop onírica cintilante, uma ode ao desejo obsessivo com a voz assombrosa da saudosa Dolores O’Riordan. Só que agora ela está em todo lugar em 2026. A música acabou de ganhar um destaque enorme em Love Story, como trilha para a cena decisiva da manhã seguinte, quando JFK Jr. e Carolyn Bessette acordam juntos pela primeira vez.
Mas por que essa balada frágil dos anos 1990 voltou a pairar no ar, depois de “Zombie” e “Dreams” terem sido muito mais famosas por décadas? O que existe nesse romantismo exuberante ‘à la Dolores’ que fala com as pessoas agora? E por que, meu Deus, a gente tem que ‘let it lingerrrr?
Essa “linger-ação” vai muito além de Love Story. Tem um novo remix latino com a cantora mexicana de pop Bratty, que canta em espanhol até a voz se misturar com a de O’Riordan. Fetty Wap acabou de lançar seu primeiro álbum pós-prisão, Zavier, com um remake de “Linger”, “Fool for You” — é uma surpresa ouvir Fetty cantarolar “You’ve got me wrapped around your finger” por cima de batidas de trap R&B.
Sombr tocou em Dublin no Dia de São Patrício e trouxe os Cranberries sobreviventes para tocar “Linger”, disparando um coro coletivo no estádio. E, na semana passada, Olivia Rodrigo escolheu a dedo a música para a festa de karaokê do lançamento de “Drop Dead”. Estamos fundo demais nisso, é verdade.
Numa escala de ressurgimento noventista em que 10 é “Iris” e 1 é, digamos, “Standing Outside a Broken Phone Booth With Money in My Hand” (tragicamente), “Linger” é um sólido 9. Ela fez uma aparição memorável no ano passado em The Summer I Turned Pretty, num momento torturado de Belly e Conrad. Até Yungblud se arriscou. Essa música está vivendo um momento — ou, traduzindo para o idioma do começo dos anos 1990, “Linger” está muito em alta agora.
Foi a primeira música que os Cranberries escreveram, e um sucesso irresistível dos anos 1990, mirando tanto adolescentes alterna pós-grunge quanto mães do Lilith Fair. Eles viraram estrelas globais, o que não era comum para nerds indies celtas que não faziam questão nenhuma de disfarçar o som de cidade pequena, rústico até para os padrões irlandeses. O álbum tinha o título superbamente atrevido Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? Eles seguiram em 1994 com No Need to Argue e fecharam os anos de glória com To the Faithful Departed (1996). Continuaram indo e voltando, até a morte trágica de O’Riordan no começo de 2018, aos 46 anos.
Os Cranberries eram quatro jovens irlandeses humildes, criados e “passados na manteiga” nos arredores de Limerick. (Minha prima Fiona estudou no ensino médio com eles.) Eram dolorosamente tímidos — não diziam nem “ai”. Como milhões de pessoas nos EUA, eu ouvi “Linger” pela primeira vez no rádio do carro, na Páscoa de 1993. Fiquei chocado ao ouvir um sotaque irlandês tão sem filtro no rádio — até na forma como ela canta “I t’ought the world of you”. Nenhuma cantora tinha se dirigido a americanos com um sotaque irlandês tão áspero — nem o Bono chegava perto. Que diabos era isso?
Tudo em “Linger” era um mistério — a voz chorosa de Dolores, a beleza lânguida da guitarra, a melancolia celta em primeiro plano, a introdução confiantemente sem pressa que se estende por quase um minuto. Dava para ouvir que a banda era obcecada por Smiths, Cure e R.E.M., mas com um toque melódico próprio. (Eles tinham o produtor dos Smiths, Stephen Street.) Também dava para perceber que ela era do interior — nada de Dublin na voz. O jeito de cantar palavras como “fool for you” ou de esticar “finger” até virar uma tragédia de sete sílabas, um spray oceânico de emoção crua.
Dolores “vestia” a música como um relato de uma dor de amor sofrida aos 17. “Esse cara me chamou para dançar e eu achei ele um encanto”, disse ao The Guardian. “Até então, eu sempre achei que enfiar a língua na boca dos outros era nojento, mas quando ele me deu meu primeiro beijo de verdade, eu realmente ‘tive que deixar isso permanecer’.”
A música levou seu tempo para conquistar os EUA. Estreou na Billboard Hot 100 em outubro e chegou ao pico de oitavo lugar em fevereiro de 1994. A turma indie americana reclamava amargamente de como a banda parecia com the Sundays, mas “Linger” era simplesmente melhor do que qualquer música dos Sundays, e aí a história termina. A Rolling Stone apresentou a banda como “New Faces” na mesma edição que Shaggy, Counting Crows e Gin Blossoms. (P: “Não tinha uma banda que soava exatamente assim?” R: “Sim, a resposta certa é… the Sundays.”)
Mas eles eram aquela mercadoria preciosa dos anos 1990: uma banda de que praticamente todo mundo conseguia gostar. A Dolores que cantava “Linger” era uma guria do interior cuja mãe ainda escolhia as roupas, ainda mais caipira do que os colegas de banda. Então, para o primeiro ensaio fotográfico, o guitarrista Noel Hogan deu a ela um par de Doc Martens. “Eles eram grandes demais para mim, mas eu coloquei mesmo assim”, ela lembrou. “De repente, eu parecia uma garota indie.”
“Linger” estourou ao mesmo tempo que “Fade Into You”, do Mazzy Star, com um apelo parecido — lamentos hipnóticos de amor, bandas fotogênicas, vocalistas enigmáticas. As revistas dos anos 1990 adoravam colocar as duas bandas na capa, ainda que, somadas, tivessem a habilidade de dar entrevista de uma planta-aranha. Jornalistas elogiavam a “inocência cativante” dos Cranberries, um jeito educado de dizer que nenhum deles sabia sustentar uma conversa. O primeiro perfil deles na Rolling Stone citava O’Riordan falando coisas como “mumble mumble minha mãe mumble” ou “mumble mumble demitiram mumble empresariamento”. Ninguém ligava — numa era de astros do rock tagarelas, tinha algo de refrescante nisso.
Por muito tempo, a música ficou na sombra das irmãs mais famosas. “Dreams” era o “Cran-jam” que você sempre ouvia em trilhas sonoras. “Dreams” aparecia em todo lugar, de The Next Karate Kid a You’ve Got Mail e My So-Called Life, de Gossip Girl a Ted Lasso e Wednesday. “Zombie” foi um hit ainda maior nos EUA, com rock bombástico em paródia de U2. Continua sendo a música mais ouvida deles no streaming, embora “Linger” esteja em segundo e encostando. Ainda assim, eles tinham várias outras joias: “Ode to My Family”, “Away”, “Sunday”, “Liar”, “Twenty One”. (Quando a equipe da Rolling Stone foi fazer karaokê no dia seguinte à morte inesperada de Dolores, uma pessoa da editoria de cultura derrubou a casa com o banger subestimado “Free to Decide”.)
Mas, quando artistas querem soar como os Cranberries, normalmente é “Linger”. A super fã Taylor Swift escreveu “Beautiful Eyes”, uma homenagem aos Cranberries estranhamente esquecida, mas maravilhosamente sem vergonha. Swifties também fizeram mashups de “Linger” com “Ivy”, “August” e, claro, “Mirrorball”, que sempre soou como “Linger” desde o começo.
Os EUA não estavam necessariamente procurando outra queridinha irlandesa em 1993. Sinéad O’Connor, que começou a década com tanta boa vontade graças a “Nothing Compares 2 U”, jogou isso fora com o pastiche arrasa-carreira de 1992 Am I Not Your Girl?, um dos álbuns de rock corporativo mais cinicamente deslumbrantes da década. Mas o público conseguiu se aquecer com Dolores e o calor inconfundivelmente humano da voz de Limerick, mesmo sem entender o “brogue” do meio-oeste irlandês — ela era autêntica. A turma Cran virou presença constante na cultura noventista. “Eu não consigo achar meu CD dos Cranberries”, entra em pânico um colega de classe de Alicia Silverstone em Clueless. “Tenho que ir para o pátio antes que alguém roube!”
O “Lingerssance” começou no início de 2023, quando o meme de “let it linger” viralizou. Mas ele não para de explodir, cheio de piadas que parecem ter saído direto dos anos 1990. (“Linger? Eu mal conheço ela!”) Depois do momento em Love Story, a música chegou ao segundo lugar na parada Top TV Songs da Billboard, atrás de outra música do mesmo episódio: “Fade Into You”, apropriadamente. (Por algum motivo, os ex-integrantes sobreviventes das bandas não estão saindo em turnê como Mazzberry Star, então vamos aplaudir a moderação.)
Love Story é uma mixtape inteira dos anos 1990, de Cocteau Twins a Jeff Buckley e Sade. “A gente queria tornar a trilha acessível com músicas de vários gêneros diferentes”, disse recentemente a supervisora musical Jen Malone em entrevista ao The Cut. “Mas precisávamos equilibrar com algumas músicas onipresentes, como ‘Linger’, por exemplo”, disse. Ainda assim, o apelo atemporal dessa música vem da emoção direta. Ou, como Malone colocou: “Isso prova, mais uma vez, que a Geração X é a melhor geração. Estamos mostrando para a molecada quem a gente é de verdade.”
Até agora, o momento televisivo mais brilhante da música tinha sido em Community, na estreia da segunda temporada, em 2010, na cena em que Abed planeja um casamento-surpresa para Jeff e Britta. (“Ela tá com um anel no dedo! E o Abed contratou uma cantora irlandesa singerrrrr!”) Ela também aparece de forma comovente no episódio final de Derry Girls, onde “Dreams” era presença recorrente. Adam Sandler cantou a música em Click (2006), como trilha do primeiro beijo dele com Kate Beckinsale. Ainda assim, essas eram exceções: “Dreams” e “Zombie” eram as faixas “pesadas” que garantiram aos Cranberries a fama de queridinhos de trilha sonora.
Mas “Linger” é o hit mais vulnerável deles e talvez seja por isso que ela fala mais alto agora. O elemento mais forte no som é o quanto tudo parece desamparado, o quanto soa sobrecarregado, o oposto da pegada roqueira mais assertiva de “Dreams” ou “Zombie”. “Linger” é flutuar à deriva numa maré de desejo, sem tentar lutar contra. Há um senso de rendição no jeito como essa música erotiza a passividade total, abrindo mão do controle e apenas deixando os sentimentos martelarem você até virar polpa. Talvez, nos anos 2020, as pessoas estejam prontas para deixar isso “permanecer”, no meio do caos emocional generalizado. Todo mundo está fazendo — por que a gente não pode?
Os Cranberries acabam de lançar o bem-intitulado novo vídeo “Scenes from ‘Linger’: The Unreleased Scene”, com alguns minutos de closes da Dolores que não entraram no corte do clipe original. Isso acompanha a enésima reedição deluxe do álbum de estreia, que sai em 22 de maio, incluindo a versão em espanhol da Bratty. Ainda assim, não dá para saber para onde vai a história sem fim dessa música. Que ela permaneça por muito tempo.
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