Giulia Be ‘se arrisca’ mais do que nunca em novo projeto trilíngue: ‘O acúmulo das minhas melhores partes’
Apostando em vulnerabilidade emocional e liberdade criativa, cantora lançou o primeiro de três EPs nesta quinta, 23
Gabriela Nangino (@gabinangino)
Aos 26 anos, Giulia Be já atravessou diferentes momentos na música pop brasileira. Alcançou visibilidade com o sucesso viral de “Menina Solta”, foi indicada ao Grammy Latino de Artista Revelação e consolidou sua marca com seu álbum de estreia, DISCO VOADOR (2022). Agora, Giulia dá um passo ainda mais ambicioso: ao longo de 2026, lançará um projeto trilíngue dividido em três EPs — em espanhol, português e inglês — que, juntos, formam um disco homônimo de 21 faixas.
A proposta não é apenas musical, mas também visual. Cada canção será acompanhada de videoclipe próprio, construindo uma narrativa contínua em que Giulia se coloca como protagonista da própria história.
A decisão reflete um momento de maior autonomia criativa. “Estou me dando essa permissão de sonhar muito grande, e de fazer o que meu coração já estava me pedindo há muitos anos”, diz. “Esta é a primeira vez que estou cantando nos três idiomas que eu sei cantar, que eu não tenho que escolher uma ‘Giulia’ pra mostrar pras pessoas.”
Nesta quinta, 23, chegou às plataformas digitais o primeiro capítulo desta nova fase: o EP Giulia Be (español), e o clipe do lead single “Bandera Blanca”. A faixa, produzida por Jeff Shum (que trabalhou com nomes como Demi Lovato e John Legend), é uma balada com piano que foge do tema romântico tradicional ao abordar o fim de uma amizade — um tipo de ruptura que, segundo a cantora, pode ser ainda mais doloroso.
“Acho que a gente sofre muito mais, às vezes, pela expectativa de alguém que estava nesse lugar de melhor amiga ser quebrada, porque de homem a gente já não espera muito”, brinca. “É muito difícil expor esses sentimentos. Você entra num lugar de negação, e a partir do momento que você escreve a música, você já não pode mais negar que aquele problema existe.”
O desconforto durante o processo criativo acaba sendo, para Giulia, um indicativo de que há algo importante ali. “Quando eu estou escrevendo uma música e é difícil pra mim colocar aquilo em palavras, já é um sinal de que tem alguma coisa que vale a pena ser dita”, explica.
Muitas das vezes, os sentimentos que são mais difíceis de expressar são os sentimentos que as pessoas têm uma conexão maior com, porque nem sempre a pessoa teria a coragem ou a vulnerabilidade de dividir aquilo.
Apesar da carga emocional, a ideia de “Bandera Blanca” carrega um gesto de paz. Inspirada na marchinha de carnaval “Bandeira Branca”, Giulia conta que optou por traduzir o termo para o espanhol e reinterpretá-lo numa nova roupagem.
O videoclipe, dirigido por Olivia Mucida, Lennyn Salinas e pela própria cantora, é tão confessional quanto a faixa. Giulia aparece sentada ao piano à beira-mar, sob uma luz azulada e noturna — segundo ela, este é um “reflexo do meu quarto às três da manhã, quando eu estava compondo a maioria dessas músicas”.
Durante as gravações, a artista conta que a emoção ultrapassou a encenação, e que ela pôde viver um processo catártico.
Chorei muito durante a gravação do clipe, foi um momento de finalmente botar essa dor para fora. […] Eu queria que fosse algo simples e singelo, verdadeiro, que pudesse atravessar as pessoas, porque o mais importante não era usar muitos artifícios, mas criar um clipe que fizesse a pessoa se conectar com a mensagem da música.
Novo EP
Além de “Bandera Blanca”, o EP em espanhol explora outras dimensões da vida pessoal de Giulia. “Perder el Vuelo”, por exemplo, remete à época em que ela manteve um relacionamento à distância com seu atual noivo, John Conor Kennedy.
“Eu estava determinada a fazer dar certo, mas a gente atravessa muitos sentimentos nesses momentos. E eu me via constantemente pegando voos ou para encontrar ele ou para voltar para o trabalho. E essa música veio de um lugar que eu falei, ‘meu Deus, eu quero muito perder esse voo’”, explica. “Espero que todos os sinais estejam fechados. Espero que tenha um trânsito absurdo. Espero que comece a chover agora. Porque eu quero perder esse voo para não perder você.”
Embora muitas de suas músicas partam de experiências próprias, Giulia afirma que nem sempre viveu aquilo que canta. Sua arte também se alimenta de histórias que escuta de outras pessoas, e do exercício de imaginar sob diferentes pontos de vista. “Quando se trata eu, minha caneta, meu papel, não dá para existir limite. Eu só canto porque eu escrevo. E o mais bonito é você conseguir acessar os lugares que muita gente tem medo de expressar”, explica.
Muito cuidado quando você for falar qualquer coisa perto de mim, quando eu estiver com a mão no piano. Tem grande chance disso virar uma música.
Vulnerabilidade é uma palavra-chave no novo projeto de Giulia. Ela está empolgada para voltar a se apresentar ao vivo, mas, desta vez, busca construir uma relação mais íntima com o ouvinte. Se afastando das performances coreografadas da sua última turnê, sua ideia é trazer apresentações mais cruas, com foco na instrumentação ao vivo.
Eu quero que as pessoas tenham um sentimento como se elas estivessem entrando no meu quarto e eu estivesse tocando aquilo para elas. Quero entregar para as pessoas o produto final da música quase da maneira como ela foi foi concebida, e não ter uma ‘parede’ muito grande entre eu e quem me escuta.
A decisão de produzir 21 videoclipes reforçou a ideia de uma atmosfera imersiva. Para Giulia, o audiovisual permite que as canções ganhem nova vida: os “mini-filmes” irão acompanhar a evolução das personagens e dos sentimentos ao longo do álbum. “Você conseguir prover para o ouvinte um universo visual para além da canção, é um acesso mais fácil do que estava na cabeça da pessoa [que compôs].”
Ela também vê o projeto como uma forma de valorizar o formato do clipe, que considera subestimado na indústria atual.
Três idiomas
Embora já tenha cantado em português, inglês e espanhol ao longo da carreira, esta é a primeira vez que Giulia reúne os três idiomas em um álbum completo. Ela explica que viveu uma experiência única ao se dedicar a cada língua, pois elas carregam diferentes referências culturais e facetas de sua identidade.
“Qualquer pessoa que fala dois idiomas, ela sabe que ela não é 100% a mesma pessoa nos dois idiomas”, relata. “Cada experiência que você vive, dependendo do idioma, te molda e molda a personalidade que você vai ter naquele idioma.”
O espanhol aparece ligado a um lado mais leve e expansivo da artista, influenciado por experiências vividas fora do Brasil e por referências do reggaeton, com seu dramatismo característico. Já o português, língua com a qual foi criada, é o seu reflexo mais pessoal: “É quase como se tivesse uma distância menor entre o ouvinte e a ‘Giulia’ em português”, diz.
No inglês, por outro lado, ela encontra uma postura mais direta e ambiciosa. “É o maior mercado de música do mundo, a competição é tão grande que pra você se destacar, você precisa ter sangue no olho”.
Essa diferença se traduz nas próprias músicas: faixas como “Peter Pan” e “Adulta”, do EP em português, exploram o conflito entre a vontade de não querer crescer e a aceitação de que este é um processo inevitável.
“A ‘Giulia’ em português estava saindo da casa dos pais, saindo do Brasil, casando, vivendo uma nova aventura, realmente virando adulta. Foi uma dor que só a ‘Giulia’ em português passou, porque a ‘Giulia’ em inglês está apaixonada, se casando”, brinca.
Apesar dos desafios de realizar um álbum tão abrangente, a artista afirma que se entregou completamente ao processo.
Quando falei que ia lançar [esses EPs], muita gente falou que era audacioso da minha parte. E é mesmo, porque eu acho que se eu não me der essa chance, ninguém vai dar. E eu falo isso como conselho pra qualquer pessoa que tenha um sonho e que tenha vontade de fazer qualquer coisa: ninguém vai te acordar e te dar permissão de ir atrás daquela coisa que você quer.Você tem que bancar aquilo e ir até o final.
Cinema
Paralelamente à carreira musical, o cinema também faz parte do universo Giulia Be. Após estrear como atriz em 2022, ela retorna às telas em 2026 em As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você.
Baseado no livro de Fernanda de Castro e Lima e dirigido por Diego Freitas, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você acompanha Gabriela (Any Gabrielly), uma jovem cautelosa que, após a morte repentina de sua melhor amiga, Júlia (Giulia Be), precisa cumprir uma lista de dez desafios inusitados deixados por ela.
O cinema, para Giulia, é uma forma de arte muito mais colaborativa do que a música, e lhe permitiu formar conexões importantes em sua vida. “Antes de ser atriz, antes de ser compositora, eu sou uma contadora de histórias. Essa é a minha razão no propósito do mundo”, diz. “Você empresta o seu corpo pra um personagem, e você precisa das pessoas ali ao redor pra fazer aquilo acontecer. Esse sentimento que você sai do projeto se sentindo quase que você estivesse unido numa família, foi algo que me preencheu enquanto artista.”
Para o longa, a cantora também contribui com a música “Te Olhando Daqui”. “Cada personagem te ensina uma coisa. Eu tentei me colocar no lugar [dela] e trazer uma trilha sonora que emocionasse, que acalmasse o coração de quem estivesse assistindo.”
Futuro
Giulia foi capa da Rolling Stone Brasil em 2022, quando dava seus primeiros passos na carreira de atriz e se preparava para lançar DISCO VOADOR. Desde então, além de sentir que evoluiu como compositora (Giulia explora “tópicos muito mais densos” no novo álbum do que antes), ela afirma que passou por uma evolução individual.
“Em 2022, eu tinha muitos medos e muitas ressalvas que eu hoje entendo que nessa carreira não dá pra ter. Eu realmente enxergo esse [novo] projeto como o acúmulo das minhas melhores partes ao longo dos anos.”
Se antes havia mais receios, hoje ela busca se reconectar com uma versão mais destemida de si mesma — algo que associa à sua “criança interior”. No novo projeto, Giulia gravou músicas que escreveu originalmente há nove anos, e enxergou uma oportunidade de honrar diferentes fases da própria vida.
Ao longo da minha carreira, fui ganhando traumas e medos, medo de me expor, medo do que eu iria ouvir. Agora eu vou me libertar um pouco disso, e falar ‘cara, o povo vai falar de qualquer jeito, eu vou me arriscar no que eu quero. Não vou ter medo de sonhar alto e falar que eu to sonhando alto, porque se eu não comunicar pro universo que é isso que eu quero, ele não vai me dar. Estou tentando me libertar das minhas crenças limitantes e alçar qualquer voo que me der vontade.
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