'POR QUE ESTÃO EVITANDO ESSE ASSUNTO?'

‘Michael’: Diretor de ‘Deixando Neverland’ critica filme por omitir acusações de pedofilia

Dan Reed, que comandou o documentário de 2019, afirma que cinebiografia é “impossível de ser levada a sério” como reflexo da vida do artista

Giovana Laurelli (@gii_laurelli)

Michael Jackson em cena de documentário 'Leaving Neverland'
Michael Jackson em cena de documentário 'Leaving Neverland' (Foto: Reprodução/TMDB)

Dan Reed, diretor do documentário Deixando Neverland, criticou a representação de Michael Jackson em sua nova cinebiografia. Lançado no Festival de Sundance 2019, o projeto do documentarista estudou as histórias de Wade Robson James Safechuck, dois homens que conheceram o Rei do Pop quando crianças e alegaram ter sido abusados ​​sexualmente por ele.

Em Michael, lançamento dirigido por Antoine Fuqua, o público acompanha a vida de Jackson desde a infância na década de 1960, até o auge da fama, em 1988. Em uma nova entrevista à Variety, Reed critica a versão idealizada e descomplicada do artista. No filme, nenhuma acusação de abuso sexual infantil é mencionada, e todas as menções à relação do cantor com menores de idade se dão em cenários filantrópicos. “Isso me deixou muito incomodado. Sugere que o envolvimento de Jackson com crianças era totalmente benigno e motivado apenas por filantropia. Jeffrey Epstein foi um grande filantropo e Harvey Weinstein um grande cineasta, mas infelizmente há outra dimensão em suas histórias. No caso de Jackson, ele é um fenômeno cultural tão grande que não há nada que se possa fazer para ofuscá-lo”, afirma Reed.

O diretor complementa: “Quero deixar claro que não estou pedindo o ‘cancelamento’ de Jackson e que ninguém ouça sua música, mas a história de Wade e James também precisa ser respeitada, e o que o filme faz é criar uma versão dos fatos que essencialmente retrata Wade, James e outros que acusaram Jackson de abuso sexual infantil como mentirosos, sem de fato articular isso. Eles estão dizendo que o motivo pelo qual Jackson gostava de crianças era porque ele era um anjo e só queria ser gentil com elas, não que ele quisesse ter relações sexuais com elas”.

“O filme simplesmente subverte a verdade — preto é branco, branco é preto, e dois mais dois são cinco — e ninguém que for assistir ao filme questionará isso, mas é um filme impossível de levar a sério como uma contranarrativa a Deixando Neverland“, afirmou o documentarista. “Supostamente, era para ser a resposta ao documentário , e eles tentaram isso em um roteiro inicial, mas não deu certo, então criaram este filme jukebox, mas não conseguiram criar uma narrativa plausível que explique o carinho de Jackson por crianças.”

Sucesso de bilheteria e divegente entre a crítica especializada, Michael foi produzido por representantes do artista e se esquiva de trazer a tona as denúncias de pedofilia enfrentadas por Jackson. Além de Robson Safechuck, que alegam ter sido abusados pelo cantor por anos, inicialmente aos 7 e 10 anos, respectivamente, diversos antigos frequentadores da propriedade Neverland afirmam terem sido abusados quando crianças. “Por que estão evitando esse assunto? É sabido que Jackson passava muito tempo com meninos pequenos, inclusive levando-os para sua cama à noite e trancando a porta, o que é indiscutível — e isso por si só, se alguém fizesse uma denúncia, provavelmente seria suficiente para condená-lo por abuso sexual infantil —, mas, no caso de Jackson, nada disso parece importar. E nem os herdeiros, nem o roteirista do filme, nem ninguém apresentou uma narrativa alternativa além de, ah, ele não teve infância, então precisava passar a noite sozinho com crianças, o que não faz sentido algum”, disse o diretor de Deixando Neverlad.

Fãs do Rei do Pop defendem a relação em vida do astro com crianças por conta de sua infância conturbada. Além dos holofotes que o cercavam desde pequeno por conta de sua banda com os irmãos, Jackson 5, o cantor também enfrentava uma relação de famosamente difícil com o pai, que cobrava a entrada e permanência do filho no mundo da fama de forma abusiva. “Digamos que ele não teve infância, como muitas outras pessoas que tiveram infâncias difíceis — ele tinha imenso poder, imensa influência, grande carisma, e compensava a falta de infância roubando a infância de seus jovens companheiros. Afirmar que, por ter tido uma infância difícil, ele precisava passar a noite sozinho com um menino de 7 anos em sua cama simplesmente não faz sentido, não é?”, rebate Reed.

Jordan Chandler se tornou o nome mais cohecido entre as crianças chamadas pelo astro ao parque de diversões e residência californiana. O pai de ChandlerEvan, acusou Jackson de abusar de seu filho de 13 anos, entre os anos de 1992 e 1993. Ao contrário do caso retratado no documentário de 2019, a família Chandler chegou a um acordo, que envolveu uma recompensa financeira e uma cláusula que impede a dramatização da ocorrência.  Para Reed, a possibilidade da completa falta de representação do tema em Michael não se sustenta com base na clausula: “Isso também não faz sentido, porque Wade e James nunca chegaram a um acordo. Se você quer criar uma resposta a ‘Deixando Neverland’, por que não fazer uma resposta direta à história que o filme conta, que é a história de Wade Robson e James Safechuck?”

Sobre a popularidade de Michael nas bilheterias, Reed entende Jackson como um “mito americano”: “Além de ser uma pessoa real, então ele se metastatizou em algo muito maior do que quem ele realmente foi. Quando isso acontece, não importa quem a pessoa era, porque ela foi transfigurada em algo que pertence à cultura. Ele se tornou parte do imaginário coletivo, e o imaginário coletivo jamais poderá incluir o fato de que ele era um pedófilo. Simplesmente não é possível. Você não pode dizer: ‘Nossa, aquele cara gostava de fazer sexo com crianças, mas a música dele não é ótima?’ Essa não é uma narrativa que as pessoas conseguem sustentar em suas mentes”.

Na entrevista, o diretor também afirma que a construção do ideal de Jackson como uma “figura assexuada” e um “boneco de cera cantante” como um método de descredibilizar automaticamente as histórias de todos os sobreviventes de abuso: “Para a cultura, Jackson é como uma religião. Então, o que eu fiz foi essencialmente uma blasfêmia, e esta cinebiografia reinstaura o mito. Por mais absurdo que seja qualquer religião, as pessoas precisam acreditar no milagre de Jackson ser esse ser assexuado e puro que só desejava o bem para as crianças e as ajudava. Atribuíram a ele os atributos de uma divindade. Mas existiu um Jackson humano, e ele era o que sabemos que ele era. Como documentarista, meu foco era contar a história de Wade e James — não a história de Jackson.”

Reed também respondeu à afirmação do diretor de Michael em relação às alegações (“às vezes as pessoas fazem coisas horríveis por dinheiro”), dizendo que “alguém que ganhou dezenas de milhões propagando uma narrativa falsa sobre um homem que é pedófilo, isso é uma coisa desprezível. O Sr. Fuqua descreveu suas próprias ações ao tentar difamar os protagonistas do meu documentário, e isso me faz rir”.

Enquanto Michael continua arrebatando fãs do astro, o julgamento final referente às alegções de Wade e Safechuck segue marcado provisoriamente para novembro de 2026. O diretor Antoine Fuqua e o intérprete de Michael, seu sobrinho Jafaar Jackson, já confirmaram uma sequência à cinebiografia concentrada nos anos 1990. A produção ainda não comentou sobre a presença das alegações de abuso sexual infantil no próximo filme.

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Jornalista em formação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Giovana é apaixonada por música, filmes e a intersecção entre cultura e política. Já foi bailarina e canta em bandas de soul, rock e pop desde a pré-adolescência. É editora de Cultura e Entretenimento no Jornal Contraponto, veículo laboratorial impresso da PUC-SP. Na Rolling Stone, escreve sobre música, cinema e cultura pop.
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