Sessões de ‘Michael’ comprovam que a experiência no cinema está insustentável
Não é de hoje que as reclamações sobre o comportamento do público nos cinemas se acumulam, mas ‘Michael’ tem escancarado o desrespeito nas salas
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
O cinema sempre foi pensado como uma experiência coletiva. Mas coletiva não significa caótica. As sessões de Michael, cinebiografia de Michael Jackson, escancaram um problema que vem se tornando cada vez mais difícil de ignorar: assistir a um filme em uma sala de cinema virou um exercício de resistência.
Era esperado que um filme sobre um artista do tamanho do Rei do Pop despertasse emoção e euforia. E isso, por si só, não é o problema. O incômodo começa quando essa reação ultrapassa o limite do individual e invade o espaço do outro. Vídeos recentes compartilhados nas redes sociais mostram plateias cantando em volume alto, pessoas levantando para dançar na frente da sala ou até mesmo entre as poltronas, celulares erguidos gravando com flash ligado — tudo isso enquanto, em algum lugar da sala, há quem só queira ver o filme em paz.
Sim, o cinema emociona. Sim, é natural se envolver, acompanhar uma música e bater o pé discretamente. Mas há uma diferença óbvia entre sentir o filme e transformar a sessão em espetáculo particular — na verdade, um show de horrores. Ao pagar por um ingresso, o espectador não compra o direito de interferir na experiência alheia. Existe um acordo implícito — e básico — de convivência: assistir ao filme respeitando quem está ao lado, atrás e à frente.
Nem mesmo práticas cada vez mais populares, como o cosplay, justificam a quebra desse pacto. Não me entenda errado, ir às sessões caracterizado pode e deve ser parte da diversão para alguns, mas há momento para extravasar — os créditos finais, por exemplo, parecem o espaço mais adequado para isso. Durante o filme, a regra deveria ser clara e inegociável: permanecer no seu lugar e não atrapalhar.
Este cenário de baderna ajuda a explicar por que tanta gente tem se afastado das salas de cinema. O ingresso não é barato, e o custo total da experiência — pipoca, bebida, transporte — só aumenta. O que deveria ser um momento de lazer e imersão se transforma, com frequência, em irritação. Não por causa do filme, mas pelo comportamento de quem divide a sala e não tem empatia pelo próximo.
Diante disso, não surpreende que cresça o movimento pedindo a volta dos antigos lanterninhas, como forma de restaurar um mínimo de ordem. Pode soar um exagero, mas isso revela o tamanho do problema. No fim, a questão é simples: o cinema só funciona como experiência coletiva quando existe respeito coletivo. Sem isso, o que deveria ser emocionante se torna estressante e a magia da sala escura dá lugar à frustração.
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