‘Eclipse’ propõe despertar feminino diante da violência e do machismo estrutural
Rolling Stone Brasil conversou com a diretora e protagonista Djin Sganzerla e os atores Sérgio Guizé e Gilda Nomacce sobre o filme, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (7)
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Eclipse, novo longa-metragem de Djin Sganzerla (Mulher Oceano), chega aos cinemas a partir desta quinta-feira (7). Na trama, acompanhamos Cleo (Djin), uma astrônoma de 43 anos, grávida e emocionalmente fragilizada, surpreendida pela visita de Nalu (Lian Gaia, Trago seu Amor), sua meia-irmã de origem indígena. A convivência entre as duas reacende memórias perturbadoras e as conduz a uma jornada humana surpreendente, que as leva a camadas sombrias da deep web.
Em entrevista exclusiva com a Rolling Stone Brasil, Sganzerla comentou os temas centrais do filme, como o feminino, as contradições da alma humana e o machismo estrutural, além do processo criativo por trás da obra. Além da diretora e também protagonista, também participaram da conversa o ator Sérgio Guizé (Êta Mundo Melhor!) e a atriz Gilda Nomacce (Prédio Vazio).
Origem do projeto: feminino e o abismo humano
Djin parte de uma ideia de complementaridade para construir Eclipse: duas mulheres que, juntas, formariam uma espécie de unidade — não idealizada, mas tensionada por diferenças. “Elas são duas facetas de uma mesma mulher. Eu vejo muitas características da Nalu que faltam à Cleo, e a Cleo tem acessos que a Nalu não teve.”
Esse mergulho no feminino, no entanto, rapidamente se amplia para um território mais perturbador: a investigação da natureza humana e de suas contradições. O gatilho vem de um caso real que impactou profundamente a diretora. “Era um homem amoroso, encantador, mas que descrevia com detalhes como mataria a própria esposa. Isso me chocou muito. Como alguém pode ser tão encantador e, ao mesmo tempo, monstruoso?”
A partir desse choque, Eclipse se estrutura como um filme sobre fissuras — entre aparência e verdade, entre afeto e violência. “Eu queria entender até onde o ser humano é capaz de chegar, trazendo sempre esse olhar pelo feminino.”

Nalu e Cleo: duas facetas da mesma moeda
Na criação das protagonistas, Djin trabalha com contraste e deslocamento de expectativas. Nalu surge como uma recusa direta de arquétipos tradicionais. “Eu queria uma mulher que lidasse com a dor sem ser fragilizada, não vitimizada. Uma mulher que encara a dor com dignidade e poder.”
A escolha de torná-la indígena também parte de um gesto consciente de ruptura: “Eu quis sair dos estereótipos. Não uma mulher submissa, mas enigmática, que você não decifra de imediato.” Essa construção cria uma personagem de presença ambígua, quase indomável. Já Cleo ocupa um outro lugar — o da aparência de estabilidade. “Ela parece ter tudo: casamento, sucesso, uma vida estruturada. Mas isso também é uma construção.”
Assim, o filme articula as duas como espelhos imperfeitos: “Elas são duas facetas de uma mesma moeda.”
Elenco: a escolha de Guizé e Nomacce
A escolha de Sérgio nasce de uma memória persistente da diretora, que o viu no teatro antes mesmo de finalizar o roteiro. Ao escrever Tony, essa imagem retorna. “Ele tem esse lugar do magnetismo, da sutileza, mas também do perigo. Isso era essencial para o personagem.” Essa ambiguidade se traduz diretamente em cena: “Teve gente da equipe que achou que ia acontecer um feminicídio numa cena sem diálogo. Isso é a construção dele.”
Já Gilda surge quase como um encaixe imediato, durante o processo de escalação: “Foi como uma luva. Tanto que o personagem acabou ficando com o nome dela.” Para Djin, o ponto em comum entre os dois é a capacidade de expandir o material: “São atores que pegam o personagem e sempre acrescentam algo a mais.”

O entretenimento para falar do real
Ao falar sobre o impacto de Tony, Sérgio não hesita em afirmar que o personagem pode, sim, funcionar como um espelho desconfortável para o público, antes de aprofundar a ideia de que o filme opera menos pela explicação e mais pela sugestão. Para ele, o principal interesse está em “ser instrumento dessa história”, conduzindo o espectador “através da reflexão, através da pausa”, de modo que cada um possa “criar o Tony na sua própria cabeça”.
O ator relembra que o impacto começou já na leitura do roteiro — “eu já fiquei muito embatido” — e se intensificou quando Djin compartilhou a história real que inspirou o filme. “Aquilo mexeu muito comigo”, diz, apontando para a necessidade de acessar também “essas sombras”, trabalhando o personagem a partir de silêncios e contenções — “de muita pausa”.
Ele descreve o método do filme como uma espécie de condução indireta: “É um jeito de trazer pela mão, fingindo que é entretenimento, para mostrar o assunto real. Não esfregar na cara, mas ir de forma sutil.” O impacto, segundo ele, vai além da tela: “É um tema que está cada vez mais presente. E é possível que toque [o espectador] — que faça pensar nas relações próximas, na família.”
Para o ator, essa abordagem amplia o alcance do filme, permitindo que ele atue também como um gesto de transformação: “é um jeito de cura, de curar através da arte”.

“Um lugar de quem sabe fazer cinema“
Ao refletir sobre a experiência de trabalhar com Djin, Gilda destaca um tipo de direção que escapa ao controle rígido e se constrói em camadas mais sensoriais, quase invisíveis. “Tem um lugar muito poético, do oculto. É o não dito que vai alinhavando tudo.” O processo de atuação, segundo ela, foi guiado por intuição e confiança: “Foi muito magnético. Quando eu vi, já tinha feito minhas diárias. Ela foi me levando de um jeito muito amoroso.”
Com poucas falas, cada palavra ganha peso — “eu apreciar cada palavra, acho belíssimo” —, mas é na pausa, nos tempos e nas conexões invisíveis que o trabalho se sustenta. Gilda associa essa abordagem a “um lugar de quem sabe fazer cinema”, onde “o silêncio dos tempos” e “as conexões” conduzem a cena para um território mais misterioso e aberto.
A onça como símbolo e intuição
Ao comentar a presença da onça em Eclipse, Djin deixa claro que o elemento não foi um acréscimo tardio, mas uma espécie de intuição fundadora do projeto. “Estava desde o começo. Ela estava comigo”, afirma, ao lembrar que, mesmo antes de entender plenamente a estrutura do roteiro, já sabia que o animal precisaria existir. “Eu nem sabia muito bem o que seria esse roteiro e como eu ia encaixar uma onça”, admite — mas havia uma certeza quase instintiva: “era uma certeza como dois mais dois são quatro”, ainda que “não analítica, não objetiva, intuitiva”.
A diretora sugere, inclusive, uma fusão entre figura e conceito: “ela percebe toda a energia do eclipse, que ela também é o eclipse de alguma forma”. Nesse sentido, a onça deixa de ser apenas um animal para se tornar um eixo sensorial e metafórico, capaz de condensar tensões invisíveis da narrativa. Ainda que algumas camadas tenham se aprofundado no processo de montagem — “as simbologias foram surgindo também”.
Sérgio, por sua vez, relaciona a onça a uma engrenagem invisível. “Ela representa um pouco a sombra”, diz, como se fosse uma presença que observa e tensiona os limites — “vamos ver até onde você consegue ir com isso, até onde a estrutura vai te proteger”. A imagem, segundo ele, reforça a ideia de que há sempre algo à espreita, um julgamento silencioso que acompanha os personagens.

Entre indivíduo e estrutura
Ao entrar no terreno mais político de Eclipse, a conversa desloca o foco do indivíduo para algo mais amplo — e, possivelmente, mais inquietante. Questionado se o filme aponta para responsabilidades pessoais ou estruturais, Sérgio responde sem rodeios: “eu acho que as estruturas”. Para ele, o comportamento do seu personagem não surge isolado, mas como parte de um tecido maior, quase invisível, que naturaliza certas violências. “Faz parte do inconsciente coletivo”, afirma, sugerindo que o perigo está justamente na proximidade — “quando você derruba uma peça tão próxima, tão do lado, você mexe em toda a estrutura familiar”.
A própria diretora reconhece essa ambiguidade entre indivíduo e sistema. “Eu penso, sim”, diz, sobre a intenção de provocar discussão, mas ressalta que não se trata de uma abordagem didática. Há, no entanto, “a clareza desse desejo de que a obra comunique, que aquilo chegue”, ativando tanto a leitura estrutural quanto a responsabilidade individual. Ainda assim, ela reforça uma ideia central: “o indivíduo só existe porque a estrutura permite isso acontecer”.
Gilda amplia essa percepção ao destacar como essa estrutura pode ser tão opressiva a ponto de confundir a própria percepção da realidade. “Você chega a duvidar do que está sentindo”, observa, apontando para a necessidade de “outros olhares” que ajudem a identificar “o que está tão escondido ali em certos comportamentos”. Para ela, um dos aspectos mais potentes do filme está justamente nessa fricção entre forma e conteúdo: “é muito bonito como entra a poesia dentro de uma coisa tão forte, estrutural”.
Djin retoma a palavra para deslocar essa discussão também para o campo do despertar — especialmente no arco de Cleo. “Acorda, mulher! Aja!”, dispara, quase como um mantra que atravessa o filme. Para ela, há um chamado insistente, que se manifesta inclusive nos sonhos da personagem e que se estende ao público. “É para todos nós”, afirma. Ainda assim, o filme não oferece garantias fáceis: mesmo diante das evidências, o sistema segue operando. “Até o final, ele ainda acha que vai conseguir. E é capaz”, diz, lembrando que, assim como no caso real que inspirou a história, “o sistema está todo a favor”.
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