Isaiah Rashad desvia de estereótipos e se mantém honesto em ‘It’s Been Awful’
O artista criado no Tennessee evoca grandes nomes do Sul do passado em seu novo álbum, implacavelmente real
ROLLING STONE EUA
No centro do terceiro álbum de Isaiah Rashad, It’s Been Awful, está “Act Normal”, que aborda um incidente viral de 2022, quando gravações do artista, criado em Chattanooga, Tennessee, beijando homens vazaram na internet. Ele conta que cresceu em uma casa cheia de segredos, diz que “a família inteira era viciada em sexo”, e lembra da mãe estar apaixonada pela melhor amiga. Agora, como um rapper de 34 anos cujo último álbum, The House Is Burning (2021), estreou em sétimo lugar na Billboard 200, ele se declara “uma estrela pornô” e dá de ombros: “Some girls come with a dick/Some with the child support”. (Em uma entrevista com Joe Budden, Rashad disse que é “sexualmente fluido” e está em um relacionamento monogâmico com uma mulher “que tem um entendimento semelhante sobre si mesma”.) “War is living yet at war with yourself/I don’t trust a boy or a girl”, rima Rashad. “Act Normal?”
Há outras frases soltas ao longo da lista de 16 faixas e 54 minutos de It’s Been Awful que ilustram ainda mais um músico de rap que desmente estereótipos. “See, maybe stay the night, then I could be your boyfriend/And if that doesn’t work, then I’ll just be your girlfriend”, ele harmoniza em um sussurro áspero em “Boy in Red”, um dueto com a colega de TDE SZA, com um refrão aparentemente inspirado em “If I Was Your Girlfriend”, de Prince.
Em “Do I Look High?”, ele diz a si mesmo: “You be fucking anybody when you on that powder”. Rashad não é o único rapper mainstream a explorar publicamente sua fluidez, por assim dizer; Tyler, the Creator vem imediatamente à mente. Mas It’s Been Awful e, especificamente, “Act Normal”, é uma declaração tão concisa sobre homens no rap lutando com sua sexualidade quanto qualquer outra já feita. Para ouvintes que sobreviveram aos anos 1990 e a coisas como Brand Nubian dizendo que vão “fuck up a f—–”, é um desenvolvimento extraordinário.
Durante boa parte da carreira, Rashad ficou à sombra do principal ganhador de dinheiro da Top Dawg Entertainment, Kendrick Lamar. Álbuns como The Sun’s Tirade (2016) receberam aclamação crítica e também admiradores como Billie Eilish, que contou à RS que seu hit clássico “Bad Guy” foi inspirado por “Stuck in the Mud”, de Rashad e SZA. Em um recente post nos Stories do Instagram sobre sua participação em “Cameras”, de It’s Been Awful, Dominic Fike escreveu: “So grateful to zay for all the flows I copied and all the late nights watching this man’s music videos”. Ainda assim, apesar de sua influência discreta e de uma apresentação notável no Coachella em 2022, Rashad não chegou a estourar de vez no pop mainstream. Ele parece representar uma era em que músicos de rap como ele, Tyler, Earl Sweatshirt, Rapsody e outros estão sutilmente empurrando a arte adiante, sem os singles arrasa-estádios e as palhaçadas tabloides no estilo Love & Hip-Hop do passado.
Sonoramente, It’s Been Awful se assemelha ao trabalho anterior de Rashad, com batidas “pastosas” e melodias filtradas — “slow-ass beats”, como Rashad as chama em “10 States Away”. Elas são costuradas por produtores como Julian Sintonia (que também canta em “Do I Look High?”), Hollywood Cole (responsável por “M.O.M”. e mais conhecido pelo hit “Sistanem”, de J.I.D.) e Mario Luciano (que coproduziu “Same Sh!t”). Rashad faz alusões frequentes aos anos de ATLiens e Aquemini, do Outkast, como o chamado de “break” no começo de “M.O.M”. (também conhecida como “Man On a Mission”), uma mistura de melodias quentes de teclado e padrões de bateria. Em “Do I Look High?”, ele acena para outra fase da carreira deles, rimando: “I made this especially for us/To commemorate the Idlewild“. A maior parte do álbum evoca o blues sulista lamacento e melancólico do rap de meados dos anos 1990, como Ridin’ Dirty, do UGK, e The Untouchable, de Scarface, além do trabalho de Big K.R.I.T., outro revivalista do Dirty South que nunca conseguiu sair da classe média do rap. Com frequência, ele acompanha a própria voz com backing vocals femininos como os de Nina Woods (que também coproduz “The New Sublime”), resultando em um efeito de eco estranhamente agradável. Perto do fim do álbum, Rashad apresenta “Nuthin’ to Hide”, que imita o tipo de emoção pop-rock de coração aberto pelo qual Noah Kahan e Hozier são conhecidos.
Rashad passa boa parte do tempo rimando sobre abuso de substâncias, embora já tenha dito que ficou sóbrio. Ele liga bêbado para a mãe em “Scared 2 Look Down”, e ela responde que ele está em uma missão suicida. Ele sente falta dos filhos em “10 States Away” e lida com isso ficando chapado à tarde. “All my heroes are junkies, yeah”, ele afirma em “Happy Hour”, o que não soa tão legal quanto ele provavelmente acha. Aí ele encerra It’s Been Awful com “719 Freestyle”, onde se gaba com energia palpável antes de perguntar, curiosamente: “What’s that cage for?”
Qualquer psicólogo de boteco pode traçar conexões entre a sexualidade atormentada de Rashad, memórias familiares dolorosas, sentimentos complicados sobre ser uma estrela do rap e uma dependência de comprimidos, pós, álcool e sexo. No fim, é mais fácil elogiá-lo por ser tão honesto sobre seus problemas do que se perguntar por que ele não consegue nos oferecer uma resolução. “I know I’m flawed”, ele rima em “Supaficial“. “But stay with me”.
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