‘Dom Casmurro’ vira musical e reinventa o clássico em encenação hipnotizante
Com encenação minimalista e performances magnéticas, produção independente transforma o clássico de Machado de Assis em uma experiência renovadora
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Uma das questões mais icônicas da literatura brasileira — “Capitu traiu Bentinho?” — ganha nova camada a partir da encenação do musical de Dom Casmurro, peça que reinventa o clássico de Machado de Assis com uma abordagem hipnotizante, contemporânea e profundamente envolvente, e que encerrou uma curta temporada por São Paulo no último domingo (12).
Com texto assinado por Davi Novaes (O Que Restou de Você em Mim), direção geral de Zé Henrique de Paula (Codinome Daniel), direção de movimento de Zuba Janaina (Gal, O Musical) e direção musical de Guilherme Gila (A Igreja do Diabo), o que mais impressiona no espetáculo é como toda a encenação emociona a partir do essencial.
Longe de buscar se limitar à resposta daquela pergunta, a montagem independente, fruto da parceria entre A Casa Que Fala e a Tomate Produções, mergulha na complexidade que consagrou a obra, transformando sua nova roupagem em motor dramático e emocional.
Com os atores posicionados no centro da cena e um cenário assumidamente minimalista — poucas cadeiras, um banco e uma parede descascada ao fundo —, a peça elimina qualquer distração visual para concentrar toda a atenção no elenco. É impossível desviar o olhar: a força está nos corpos, nas vozes e nas letras das canções. A iluminação e a trilha ao vivo ampliam essa imersão, mas nunca competem com o que realmente importa: a presença cênica.
A estrutura, dividida em duas partes, acompanha Bentinho (Rodrigo Mercadante) desde a juventude até a vida adulta, evidenciando como sua memória molda os acontecimentos. Mercadante constrói um protagonista intenso e instável, que conduz a história a partir de sua própria perspectiva. Em cena, ele interrompe a ação, comenta, revisita sentimentos, reforçando o caráter de narrador não confiável. Há ainda soluções simbólicas eficazes, como o fato de ser o único personagem calçado, enquanto os demais permanecem descalços — um detalhe que materializa seu controle sobre a narrativa.
Quando a trama avança para o relacionamento com Capitu, interpretada por Luci Saluzzi, o musical atinge seu ápice emocional. Saluzzi é magnética, com uma presença que oscila entre a fragilidade e a paixão, culminando em um desfecho impactante. Ao redor deles, o elenco sustenta a potência da montagem: Cleomácio Inácio imprime carisma a Escobar, enquanto Fábio Enriquez (José Diaz), Bibi Tolentino (Prima Justina e Sancha), Nábia Villela (Dona Glória) e Eduardo Leão (Tio Cosme) encontram momentos precisos de brilho, compondo um conjunto afinado.
A música, executada ao vivo, é parte fundamental dessa experiência. Mais do que pontuar a narrativa, ela a conduz, criando atmosferas e intensificando conflitos — como nos momentos em que o som evoca o mar, símbolo que atravessa a obra e ganha força dramática na trajetória de Bentinho, Capitu e Escobar. Ao transformar um dos maiores clássicos da literatura brasileira em um musical pulsante e acessível, o espetáculo não apenas atualiza Dom Casmurro, mas reafirma sua capacidade de provocar, emocionar e — sobretudo — reimaginar uma obra tão aclamada.
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