RETROSPECTIVA

A entrevista em que Angus Young revisita a história do AC/DC

Em 2003, o AC/DC entrou para o Rock and Roll Hall of Fame; guitarrista aproveitou a ocasião para relembrar a jornada do grupo até ser eternizado pela instituição

ROLLING STONE EUA

Angus Young, guitarrista do AC/DC, ao vivo em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)
Angus Young, guitarrista do AC/DC, ao vivo em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

*Por Bill Crandall | O AC/DC se juntou na Austrália em 1973 com o objetivo de combinar a gritaria de Little Richard com o suingue dos Rolling Stones, porém mais pesados. De fato, sem sucumbir àquela necessidade chata de evoluir musicalmente, o guitarrista Angus Young – o homem que, no seu uniforme escolar famoso, inventou o headbanging – e seus companheiros fazem questão que toda canção do AC/DC tenha pegada, o tempo inteiro.

Nem sempre foi fácil. Em 1980, logo quando o AC/DC estava prestes a estourar nos Estados Unidos graças ao seu álbum Highway to Hell (1979), o vocalista Bon Scott engasgou no próprio vômito após uma bebedeira. Em 2003, ano da entrada do grupo ao Rock and Roll Hall of Fame, Angus Young refletiu como ele e seu irmão mais velho, o guitarrista base Malcolm, se depararam com uma encruzilhada enorme… e eles escolheram o rock.

Como vocês descobriram sobre sua entrada para o Rock and Roll Hall of Fame?
Angus Young:
Um amigo meu me ligou e falou: “Você entrou”. E eu respondi: “O quê? Estão aceitando baixinhos no exército agora?” Claro, isso foi de manhã cedo, então minha primeira reação foi que estávamos em guerra e eu achei que não era uma ideia tão ruim – cabe mais gente pequena dentro de um tanque.

Quando você começou essa banda, conseguia imaginar que um dia haveria um Rock and Roll Hall of Fame e você um dia faria parte dele?
AY: Nunca achei que seríamos colocados em nada histórico. Quando começamos como banda, era mais algo dia após dia. Você fazia um show, recebia seu dinheiro e pensava: “Ok, cadê o show de amanhã?” A gente não pensava que passaria do primeiro verão.

Qual você acha que é a chave para vocês estarem na ativa tantos anos depois?
AY: Acho que é principalmente por conta dos fãs. Eles provavelmente tiram mais proveito disso do que a gente, e isso nos faz seguir em frente. E sempre parecem tão felizes – para eles, nos ver é como calçar um par de sapatos confortáveis.

AC/DC com Bon Scott em 1979 - Foto: Fin Costello / Redferns
AC/DC com Bon Scott em 1979 (Foto: Fin Costello / Redferns via Getty)

Qual você acha que seria a reação de Bon para essa história toda de Rock and Roll Hall of Fame?
AY: Ele teria dado uma boa risada… e tomado uma. Ele teria dito: “Ei, faço qualquer coisa por cerveja de graça”.

Como vocês conseguiram continuar após a morte dele?
AY: Bon era um frontman — e um muito empolgante. Além disso, fora do palco ele era uma figura que você conhecia e amava. A gente sabia que não dá pra substituir isso. Meu irmão me chamou para finalizar as faixas que a gente estava trabalhando na época da morte dele. Ele falou: “Vamos trancar as portas, tirar o telefone do gancho e assim finalizar ao menos o que começamos.” Isso foi depois que o nosso empresário da época nos contatou e perguntou: “Estão interessados em ouvir alguém?” A gente pensou no assunto e isso nos deixou ainda mais deprimidos. Mas então percebemos: “Bem, a gente vai precisar de alguém pra cantar as músicas”.

Como vocês encontraram Brian Johnson?
AY: Anos antes do Bon morrer, ele, Malcolm e eu estávamos ouvindo alguns discos de rock & roll na Austrália. Bon era muito fã de Little Richard e sempre disse que para um cantor de rock & roll, Little Richard era o ícone. Ele contou uma história pra gente sobre como ele tinha visto Brian num clube em Londres mandando uma música do Little Richard — e aquele momento permaneceu com ele. Então nós pensamos: “Bem, a gente precisa procurar aquele cara primeiro.” Quando a gente conheceu Brian, ele nos falou: “É, eu lembro daquele show. Eu estava com apendicite.” [Risos.]

Brian Johnson, vocalista do AC/DC, ao vivo em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)
Brian Johnson, vocalista do AC/DC, ao vivo em São Paulo, 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto para Rolling Stone Brasil)

Se eu nunca tivesse escutado AC/DC antes, como você descreveria a banda?
AY: Como o pior furacão na Flórida. [Risos.] Quantas vezes você já viu pessoas imitando sua sacudida de cabeça? Jesus. Dá nem pra contar. Hoje em dia, você liga a TV, passa pelos zilhões de canais musicais e vê um monte de gente sacudindo a cabeça. Você até vê as garotas fazendo isso. E elas são mais agradáveis de se ver fazendo isso. [Risos.]

Quais músicas do AC/DC que, quando você ouve hoje em dia, ainda não mudaria uma nota sequer?
AY: “Back in Black”. Foi um riff que Malcolm tocou. Estávamos na turnê do Highway to Hell, ele gravou o riff numa fita cassete e tocou pra mim. Era num violão que Mal levava consigo. Ele perguntou: “O que você acha disso? É ruim? Jogo fora?” Eu respondi: “Não, não joga fora. Se você for jogar fora, dá pra mim que assim eu digo que compus sozinho.” [Risos.] “Highway to Hell” também. A gente estava em Miami, sem um tostão furado. Malcolm e eu estávamos tocando guitarra num estúdio de ensaio e eu falei: “Acho que tenho uma boa ideia para uma introdução.” Era o começo de “Highway to Hell”. E ele pulou atrás da bateria e me deu uma batida. Tinha um cara lá trabalhando com a gente e ele levou a fita cassete na qual a gente gravou o riff pra casa, mas deu pro filho, que desenrolou tudo [risos]. Bon tinha jeito para consertar fitas quebradas e conseguiu botar de volta no lugar. Então ao menos não perdemos aquela música.

Fale sobre seu relacionamento com Malcolm.
AY: Acho que quando éramos crianças, brigávamos feito cão e gato. Quando começamos a tocar guitarra, ficou ainda pior. Ele não me deixava entrar no quarto dele porque dizia: “Angus tem memória fotográfica: toque um lick pra ele e ele rouba”. Sempre que entrava no quarto, ele gritava: “Cai fora!” Hoje em dia, para o AC/DC, sempre nos comportamos. É o que nos impede de matar um ao outro.

Como calhou de você ser o guitarrista solo e ele base?
AY: Nós dois costumávamos tocar solos, mas um dia o Malcolm falou: “Você que toca – solos me impedem de beber”. [Risos.] Ele costumava me empurrar para a frente do palco e dizer: “O público quer ver um show, você é quem sabe fazer isso direito”. Isso provavelmente vem de quando éramos mais jovens, que eu comecei a tocar ao contrário: aprendi solos antes de acordes. Ele começou na base e aos poucos chegou em solos. Mas ele também é muito bom em mandar licks de guitarra. Alguns dos melhores licks, como aquele no começo de “Back in Black”, fui eu quem tocou, mas copiando o que ele botou na fita cassete. Ele sempre falava: “Nós dois juntos tocamos como um cara só”.

Você planeja tocar no AC/DC até cair duro?
AY: Bem, não até cair duro. Eu não quero subir no palco com uma bolsa de colostomia.

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TAGS: Ac/Dc, angus young